terça-feira, agosto 09, 2005

Páreo duro com Mr. Paul Rabbit

Um mês de férias na faculdade. Resolvi tirar a cabeça da miséria e adiantar uns livros da lista infinita. O quarto e último que, depois de tomar coragem, resolvi finalmente pegar, foi o "fenômeno" O Código Da Vinci. Jurei para mim mesma que ia ler sem preconceitos, ler para me divertir mesmo, como eu costumava ler Agatha Christie. Se até o Miguelito gostou, devia ser bom. Estou ligeiramente atrasada, eu sei, o troço estourou faz tempo, mas vou ter que fazer uns comentários aqui.

O cara é engenhoso, isso temos que admitir. Ele faz um mosaico que aos poucos vai se montando e (quase) fazendo sentido. Agora, dizer que é bem escrito, como ouvi por aí, é um baita exagero. Encarar Dan Brown depois de ler Cem anos de solidão é dose. A impressão que tive é que estava lendo um roteiro de cinema (californiano). Mais: que o roteiro tinha sido baseado no Google e em meia dúzia de best-sellers polêmicos anteriores. Mas o pior foi se revelando aos poucos. A "pesquisa" dele tem muita cara de google puro. Ele erra ABSURDAMENTE.

Para começar, ele resolve falar de obras de arte e da Bíblia, mas parece não saber o básico de algumas obras que cita e nem ter sequer folheado as Escrituras. Ainda por cima, comete erros históricos graves - tão graves que até eu detectei alguns em segundos. Por exemplo: ele cita algumas vezes que o Vaticano fez isso ou aquilo no século IV depois de Cristo, ou nos primeiros séculos da Igreja primitiva. Alguém avise a ele que nessa época o "Vaticano" ainda NÃO EXISTIA. Mais: não se cansa de repetir que "Eva comeu a maçã". Dan andou lendo Branca de Neve, porque o Gênese diz "fruto da árvore do conhecimento". A maçã é fruto do imaginário popular, e, portanto, se o eruditíssimo Langdon é um grande conhecedor dos textos sagrados e coisa e tal, não pode ficar falando de maçã.

Outro "detalhe", esse bem, bem feioso: Dan Brown diz que, em 325, Constantino unificou Roma sob uma única religião oficial, o Cristianismo. Aloouuuu, quem oficializou o Cristianismo como religião do Império foi Teodósio, mais de meio século depois! O que Constantino fez foi decretar a liberdade de culto, e assim diminuir as perseguições aos cristãos (e a outros). Gente, se o cara faz um livro colocando falas na boca de supostos eruditos, que explicam os maiores mistérios do mundo, mas não leu nem um livrinho de segundo grau sobre o Império Romano, dá para acreditar em alguma coisa do que ele apresenta como verdade (mesmo que seja na boca de personagens)?? Nesses momentos confesso que achei o livro meio ridículo, de tão pretensioso.

Engraçado também é um furo sobre uma peça primordial do quebra-cabeça. Fica clara a defesa da tese da adoração à deusa, ao "sagrado feminino". A "deusa" seria Maria Madalena. Ao mesmo tempo, ele diz que os evangelhos apócrifos foram proibidos porque humanizam tanto Jesus que põem em dúvida a divindade dele. Porém, Maria Madalena seria sagrada porque...concebeu uma filha de Jesus! Mas, vem cá, se Jesus não era divino, como a divindade de Madalena adviria deste fato?? É só parar para pensar: não faz sentido. Mais uma vez, o tema aqui não é religião. É lógica, um dos alicerces em que ele pretende basear o livro.

Agora, antes que vocês perguntem, vamos a uns pequenos pormenores bem simples em relação às obras de arte, que, obviamente, não fui euzinha que percebi. O quadro de Caravaggio que Jacques Saunière, o curador do Louvre mortalmente ferido, levanta da parede, pesa quase 100 Kg; o quadro A dama dos rochedos, de Da Vinci, cuja tela Sophie Neveu ameaça rasgar com o joelho, foi pintado em madeira, ou seja, não tem tela. Esses detalhes que tornam inconcebíveis as palavras de Dan Brown foram apontados pelo Mario Sergio Conti num artigo no Estadão. Simplesmente Brown resolve elucidar o que Leonardo da Vinci pensava ao pintar suas obras, mas não fez nem o dever de casa pra saber se ele pintou em tela ou madeira. Lastimável.

Existem ainda muitos, mas muitos erros e falsidades no livro. Como não sou nenhuma intelectual, algumas coisas eu só desconfiava de que deviam estar erradas, mas meu letradíssimo sogro esclareceu várias dúvidas. Escolhi algumas das inúmeras para contar aqui.

-- Ele afirma que os merovíngios foram os fundadores de Paris. Só que a cidade foi fundada por uma tribo celta de gauleses chamada, em latim, de Parisii, no século II a.C. O que os merovíngios fizeram foi escolher Paris como capital em 508 d.C. Dan Brown errou somente 800 anos, além da responsabilidade pela fundação.

-- Diz que os manuscritos do Mar Morto foram descobertos em 1950 e que contêm a verdadeira história do Santo Graal. Eles foram descobertos em 1947 e são documentos dos essênios, seita judaica, e não contêm nenhuma menção a Jesus ou a Maria Madalena.

-- Pior: ele afirma (inventa) que Maria Madalena foi proscrita pela Igreja, a qual proibiu que se tocasse no nome dela, e que hoje ela está presente apenas em "mensagens subliminares" em obras de arte, músicas ou obras de Walt Disney (Mickey Mouse, aliás, parece ser, ao lado de Da Vinci, o maior defensor de Maria Madalena e do "sagrado feminino", segundo Brown). Novamente, peço para alguém avisar a ele que a Igreja a celebra como santa e que Maria Madalena é uma das poucas pessoas invocadas na Ladainha de Todos os Santos. E, ainda, há passagens no Novo Testamento (será que ele se deu ao trabalho de ler algum evangelho?) em que Madalena é abertamente exaltada.

-- Outro erro grotesco: ele diz que os judeus cultuavam uma deusa no Templo de Jerusalém, a shekinah. Shekinah não é nome de deusa, mas sim a designação que os rabinos davam à presença de Deus (Iaweh) junto ao seu povo.

-- Brown afirma que os evangelhos apócrifos contariam a "verdadeira história de Jesus", testemunhando que fora casado com Maria Madalena e que havia correntes cristãs que mantinham o culto ao "sagrado feminino". Mas obviamente omite o fato de que estes mesmos apócrifos (os quais foram escritos entre os séculos II e IV - alguns por seitas gnósticas -, ao passo que os Evangelhos do Novo Testamento foram escritos de 70 a 95 d.C., poucas décadas depois da morte de Cristo) reveladores provinham de ambientes que nós classificaríamos como machistas e continham textos nada agradáveis ao "sagrado feminino" e à "deusa". Eis um trecho do apócrifo de Tomé (114):
"Simão Pedro lhes disse: 'Que Maria saia de nosso meio, pois as mulheres não são dignas da Vida.' Jesus disse: 'Eis que vou guiá-la para torná-la macho, para que ela se torne também espírito vivo semelhante a vós, machos. Pois toda mulher que se fizer macho entrará no reino dos Céus." Uau, o sagrado feminino bomba nos apócrifos!

Enquanto as "verdades" de Dan Brown são envoltas numa aura de mistério, essas poucas informações que estão aqui são verificáveis. Basta quem estiver a fim pegar livros de História, a própria Bíblia, estudos especializados de história religiosa...Gente, até os apócrifos podem ser lidos! Não precisa ir até os...tchanraannn...Arquivos Secretos do Vaticano!

Enfim, se você ler o livro como uma completa ficção, pode até ser legal. Realmente diverte, prende a atenção, como um livro policial ou um filme com o Morgan Freeman. Mas se você ler acreditando no que Dan Brown põe na boca de seus pseudoespecialistas Robert Langdon e Leigh Teabing, amigão, você estará adentrando num mar de ignorância disfarçada com uma pretensiosa aura intelectualóide. Se quer ler boa ficção sobre "mistérios da Igreja", vá de O nome da Rosa. Mas, policial por policial, ainda prefiro a humildade de Miss Marple e Hercule Poirot.

P.S. - Se alguma alma curiosa se interessar, tenho uma análise com muito mais informações sobre as maluquices do Uncle Dan - inclusive a desconstrução da lenda medieval do Santo Graal, meio grande para postar aqui.

P.S.2 - "P.S." na igreja de Saint-Sulpice não significa "Priorado de Sião", mas sim Pierre e Sulpice, os patronos do templo. E o destrinchamento da sensacional história da carochinha do Priorado também está disponível para quem se interessar.
Aquele abraço.

3 comentários:

Marcelo Dior disse...

Renata, gostei do seu comentário sobre "O Código...". Não por bater, mas por analisar. Gostaria de sua autorização para colocar seu texto (devidamente creditado) na minha homepage (cimmeria.sites.uol.com.br). E, de me permitir fazê-lo, também preciso do seu nome completo. Há um link para meu e-mail no meu site.

Anônimo disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Anônimo disse...
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