Quando eu morrer
Quando eu morrer quero que minhas gavetas estejam cheias de poemas. Quero que alguém publique meus textos guardados, porque tudo que é póstumo parece melhor. Meus escritos podem não ter qualidade, mas são meus, e quando eu morrer quero que isso baste.
Quando eu morrer quero que minha consciência esteja leve. Não quero estar com raiva de ninguém nem ter mágoas armazenadas. Quero voar daqui bem rápido, em paz, sem nenhuma culpa ancorando meus pés. Quero ser lembrada como a menina que dançou balé, jogou vôlei, adorava escrever, gostava de história, tinha bons amigos e tentava ser correta e pacífica. Às vezes acabava fazendo tudo errado, mas era apenas uma eterna menina, sempre aquela menina que queria dar certo no dia seguinte.
Quero um enterro simples. Quando eu morrer eu quero que chova, mas que girassóis sejam jogados no meu túmulo. Ou então que minhas cinzas sejam espalhadas pelo Arpoador, para que assistam o sol se pôr no Dois Irmãos enquanto conversam com as cinzas do Tom Jobim. Quero que meus amigos chorem, mas só um pouco, e que peguem minhas fotos e abram largos sorrisos ao lembrarem da grande boba que fui.
Quero que eles pensem numa música para mim, mas que não cheguem a conclusão alguma, já que eu mesma, a indecisa homenageada, jamais conseguiria escolher uma só.
Quando eu morrer, espero que tenha tido tempo suficiente para encher as minhas gavetas de poemas.
Não quero ter nenhuma roupa cara no armário e nem muito dinheiro na carteira. Quero que Deus me leve sem aviso prévio, assim de sopetão. Do jeito que for eu vou aceitar, não me resta opção...Mas, quando eu morrer, quero que meu caderno azul esteja repleto de tristezas e as memórias de meus amigos, de gargalhadas. Quando eu morrer não quero explicação de nada.
quinta-feira, dezembro 11, 2003
quinta-feira, dezembro 04, 2003
Papo na Uerj
- Será que ele vem hoje?
- Sei lá. Esse cara viaja, né? Começa falando de Maquiavel e daqui a pouco tá reclamando da reitoria e da falta de verbas do governo. Maluco.
- É.
...
- Ai, esse Free é horrível. Você tem cigarro?
- Não, não fumo.
- Ah. Você faz a aula do Manoel?
- Não, meu horário é louco, faço aulas do 2º ao 6º período. Você tá em qual?
- Era pra estar no quinto, mas tô repetindo o quarto. Passei um tempo no hospital, tentei recuperar na volta, mas desisti da burocracia e fui reprovada por falta. Meu CR foi de 9,3 pra 5.
- Caramba...Mas tá tudo bem, você se recuperou...
- É, foi uma história meio bizarra. Terminei um namoro de cinco anos...
- Puxa...
- Comecei com 14 e fiquei com ele até os 19. Estávamos noivos e ele terminou comigo dia 31 de dezembro.
- Sério?
- Minha melhor amiga, aquela que dormia na minha casa, fazia dever da escola, adorava minha mãe, sabe? Pois é, ela engravidou. Aí eu a consolava, ela ficou até feliz depois, comprei papel de parede de presente, escolhi o berço com ela, decorei o quarto, dei sapatinhos, brinquedos. Estava preparada para ser a madrinha.
- Quem era o pai...?
- Ela dizia que era um cara com quem ela saiu uma vez só. Então veio o reveillon e meu noivo terminou comigo, disse que não tinha volta e tal. Ele era um pé rapado, eu até ajudava às vezes, aí ele conseguiu um emprego legal e já estava construindo a casa que a gente ia morar...E de repente não queria mais nada comigo, depois de cinco anos. Meu primeiro namorado. Eu tinha certeza que ia casar com ele.
- Então ele...
- Ahã. Engravidou minha melhor amiga. Mas eu ainda não sabia. Eu ligava pra ela direto pra contar que ele tinha acabado comigo, precisava da minha melhor amiga, né? Mas o celular dava desligado e ela nunca tava em casa. Uns dois meses depois do ano novo minha prima me ligou e disse que eles estavam de mãos dadas no shopping. Não acreditei. Peguei um ônibus e fui lá encontrar com a minha prima.
- Meu Deus...
- Eles estavam comendo uma pizza família, nunca vou esquecer o tamanho daquela pizza, ela com mó barrigão, ele com uma sacola cheia de coisinhas de bebê.
- O que você fez????
- Fui ao banheiro do shopping e chorei por duas horas sem parar. Eles nem me viram. Depois minha prima me levou pra casa. Nunca mais encontrei os dois, mas me falaram que eles casaram e se mudaram para a casa que ele estava construindo para nós. O filho era dele mesmo. Acho que é um menino.
- E depois, o que você fez?
- Nada. Quer dizer, tentei me matar umas duas vezes, tomei veneno, essas coisas. Aí fui parar no hospital. Por isso estou ainda no quarto período.
- Meu Deus...
- É. E ainda gastei mó grana com aquele papel de parede.
- Será que ele vem hoje?
- Sei lá. Esse cara viaja, né? Começa falando de Maquiavel e daqui a pouco tá reclamando da reitoria e da falta de verbas do governo. Maluco.
- É.
...
- Ai, esse Free é horrível. Você tem cigarro?
- Não, não fumo.
- Ah. Você faz a aula do Manoel?
- Não, meu horário é louco, faço aulas do 2º ao 6º período. Você tá em qual?
- Era pra estar no quinto, mas tô repetindo o quarto. Passei um tempo no hospital, tentei recuperar na volta, mas desisti da burocracia e fui reprovada por falta. Meu CR foi de 9,3 pra 5.
- Caramba...Mas tá tudo bem, você se recuperou...
- É, foi uma história meio bizarra. Terminei um namoro de cinco anos...
- Puxa...
- Comecei com 14 e fiquei com ele até os 19. Estávamos noivos e ele terminou comigo dia 31 de dezembro.
- Sério?
- Minha melhor amiga, aquela que dormia na minha casa, fazia dever da escola, adorava minha mãe, sabe? Pois é, ela engravidou. Aí eu a consolava, ela ficou até feliz depois, comprei papel de parede de presente, escolhi o berço com ela, decorei o quarto, dei sapatinhos, brinquedos. Estava preparada para ser a madrinha.
- Quem era o pai...?
- Ela dizia que era um cara com quem ela saiu uma vez só. Então veio o reveillon e meu noivo terminou comigo, disse que não tinha volta e tal. Ele era um pé rapado, eu até ajudava às vezes, aí ele conseguiu um emprego legal e já estava construindo a casa que a gente ia morar...E de repente não queria mais nada comigo, depois de cinco anos. Meu primeiro namorado. Eu tinha certeza que ia casar com ele.
- Então ele...
- Ahã. Engravidou minha melhor amiga. Mas eu ainda não sabia. Eu ligava pra ela direto pra contar que ele tinha acabado comigo, precisava da minha melhor amiga, né? Mas o celular dava desligado e ela nunca tava em casa. Uns dois meses depois do ano novo minha prima me ligou e disse que eles estavam de mãos dadas no shopping. Não acreditei. Peguei um ônibus e fui lá encontrar com a minha prima.
- Meu Deus...
- Eles estavam comendo uma pizza família, nunca vou esquecer o tamanho daquela pizza, ela com mó barrigão, ele com uma sacola cheia de coisinhas de bebê.
- O que você fez????
- Fui ao banheiro do shopping e chorei por duas horas sem parar. Eles nem me viram. Depois minha prima me levou pra casa. Nunca mais encontrei os dois, mas me falaram que eles casaram e se mudaram para a casa que ele estava construindo para nós. O filho era dele mesmo. Acho que é um menino.
- E depois, o que você fez?
- Nada. Quer dizer, tentei me matar umas duas vezes, tomei veneno, essas coisas. Aí fui parar no hospital. Por isso estou ainda no quarto período.
- Meu Deus...
- É. E ainda gastei mó grana com aquele papel de parede.
terça-feira, dezembro 02, 2003
sexta-feira, novembro 28, 2003
O vexame da censura nos EUA
A Universidade Estadual de Sonoma, na Califórnia, divulgou seu ranking anual dos 25 temas mais censurados no último ano pela grande imprensa norte-americana. Intitulado Projeto Censura 2004, o estudo de 400 páginas inclui análises acadêmicas sobre o comportamento dos meios de comunicações nos EUA e denuncia um "apagão informativo", principalmente em assuntos governamentais.
Segundo os pesquisadores, a censura imposta pelo governo Bush a partir dos atentados de 11 de setembro em Nova York e da invasão ao Iraque dominam o cenário atual. Os grupos eventualmente dispostos a furar o bloqueio têm receio de fazê-lo, pois temem prejudicar seu acesso às fontes do Pentágono e da Casa Branca, onde possuem escritórios próprios e instalações para transmitir imagens de TV. Além disso, as grandes corporações que estão envolvidas na indústria da guerra e do petróleo têm seus negócios ramificados também no setor da mídia.
O Projeto Censura é completamente ignorado pela grande mídia. Em seus 27 anos de existência jamais mereceu sequer uma linha no NY Times.
Os 25 temas mais censurados:
As análises e investigações sobre a nova ideologia conservadora de dominação global que impera hoje na Casa Branca foram o tema mais censurado no período estudado, segundo os pesquisadores. Os outros temas destacados pelo projeto foram os seguintes:
Segurança nacional versus direitos humanos e civis nos EUA;
EUA suprimem ilegalmente páginas de informe sobre o Iraque;
Os planos de Rumsfeld para provocar os terroristas;
Esforços para fazer os sindicatos desaparecerem;
Acesso cada vez mais restrito à tecnologia de informação;
EUA violam numerosos tratados internacionais;
Bush utilizou armas de destruição em massa contra seu próprio povo;
No Afeganistão, EUA priorizam financiamento de grupos paramilitares à "fundação da democracia";
O novo colonialismo na África;
EUA implicados no massacre de talibãs;
Governo Bush esteve por trás do fracassado golpe militar na Venezuela;
Desafios da personalidade oculta das corporações;
Os refugiados indesejados: um problema global;
O Exército dos EUA está em guerra contra o planeta;
O Plano Puebla-Panamá e a ALCA;
O monopólio de emissoras de rádio do Clear Channel atrai críticas;
A reforma florestal ameaça o acesso aos bosques públicos;
Dólar versus Euro, outra razão para a invasão do Iraque;
Pentágono incrementa contratos militares com empresas privadas;
Políticas de austeridade para o Terceiro Mundo: logo chegam a uma cidade perto de você; A reforma da assistência social não preservou rede de seguridade social;
A crise da Argentina alimenta o crescimento do cooperativismo;
Ajuda dos EUA a Israel alimenta ocupação repressiva na Palestina;
Corporações condenadas recebem favores ao invés de castigos.
A Universidade Estadual de Sonoma, na Califórnia, divulgou seu ranking anual dos 25 temas mais censurados no último ano pela grande imprensa norte-americana. Intitulado Projeto Censura 2004, o estudo de 400 páginas inclui análises acadêmicas sobre o comportamento dos meios de comunicações nos EUA e denuncia um "apagão informativo", principalmente em assuntos governamentais.
Segundo os pesquisadores, a censura imposta pelo governo Bush a partir dos atentados de 11 de setembro em Nova York e da invasão ao Iraque dominam o cenário atual. Os grupos eventualmente dispostos a furar o bloqueio têm receio de fazê-lo, pois temem prejudicar seu acesso às fontes do Pentágono e da Casa Branca, onde possuem escritórios próprios e instalações para transmitir imagens de TV. Além disso, as grandes corporações que estão envolvidas na indústria da guerra e do petróleo têm seus negócios ramificados também no setor da mídia.
O Projeto Censura é completamente ignorado pela grande mídia. Em seus 27 anos de existência jamais mereceu sequer uma linha no NY Times.
Os 25 temas mais censurados:
As análises e investigações sobre a nova ideologia conservadora de dominação global que impera hoje na Casa Branca foram o tema mais censurado no período estudado, segundo os pesquisadores. Os outros temas destacados pelo projeto foram os seguintes:
Segurança nacional versus direitos humanos e civis nos EUA;
EUA suprimem ilegalmente páginas de informe sobre o Iraque;
Os planos de Rumsfeld para provocar os terroristas;
Esforços para fazer os sindicatos desaparecerem;
Acesso cada vez mais restrito à tecnologia de informação;
EUA violam numerosos tratados internacionais;
Bush utilizou armas de destruição em massa contra seu próprio povo;
No Afeganistão, EUA priorizam financiamento de grupos paramilitares à "fundação da democracia";
O novo colonialismo na África;
EUA implicados no massacre de talibãs;
Governo Bush esteve por trás do fracassado golpe militar na Venezuela;
Desafios da personalidade oculta das corporações;
Os refugiados indesejados: um problema global;
O Exército dos EUA está em guerra contra o planeta;
O Plano Puebla-Panamá e a ALCA;
O monopólio de emissoras de rádio do Clear Channel atrai críticas;
A reforma florestal ameaça o acesso aos bosques públicos;
Dólar versus Euro, outra razão para a invasão do Iraque;
Pentágono incrementa contratos militares com empresas privadas;
Políticas de austeridade para o Terceiro Mundo: logo chegam a uma cidade perto de você; A reforma da assistência social não preservou rede de seguridade social;
A crise da Argentina alimenta o crescimento do cooperativismo;
Ajuda dos EUA a Israel alimenta ocupação repressiva na Palestina;
Corporações condenadas recebem favores ao invés de castigos.
segunda-feira, novembro 24, 2003
Celebridade na noith da Nuth
Então o Domenico de Masi, aquele sociólogo italiano que ficou rico com a teoria do “ócio criativo”, lança hoje a versão brasileira da sua revista, “Next”, na night barratijucana da Nuth.
Isso é meio esquisito mesmo ou eu é que sou muito ortodoxa?
Sei não, mas, para mim, o Domenico está para a sociologia assim como o Paulo Coelho para a literatura ou o Francis Fukuyama para a história.
Então o Domenico de Masi, aquele sociólogo italiano que ficou rico com a teoria do “ócio criativo”, lança hoje a versão brasileira da sua revista, “Next”, na night barratijucana da Nuth.
Isso é meio esquisito mesmo ou eu é que sou muito ortodoxa?
Sei não, mas, para mim, o Domenico está para a sociologia assim como o Paulo Coelho para a literatura ou o Francis Fukuyama para a história.
quarta-feira, novembro 19, 2003
Patético
Não gosto de transcrever notícias aqui, mas essa merece. Para que você saiba que tipo de projetos propõem alguns deputados pagos com o seu, o meu, o nosso dinheiro.
Um projeto bom para cachorro
O mundo pode cair que não se falará em outro assunto hoje na Assembléia Legislativa. Será um dia de cão. Literalmente. Entre uma e outra discussão nebulosa sobre o orçamento, os deputados vão parar tudo e votar o projeto mais comentado dos últimos dias: a criação do "Dia do cachorro - o melhor amigo do homem", a ser comemorado no dia 4 de outubro.
Pai (ou seria melhor criador?) do projeto, o deputado Antônio Pedregal (PSC) garante que ele é da maior importância. Diz que os animais são muito maltratados e que precisam de um dia só para eles. Pedregal fica com os olhos marejados ao contar que dois de seus cachorros morreram por falta de atenção sua. Muito justo, então. Como diria o ex-ministro do Trabalho, Rogério Magri, o cachorro é um ser humano como outro qualquer.
- Não tenho dúvida de que o cachorro é o melhor amigo do homem. Quando estava doente, meu cachorro dormia todo dia ao meu lado - conta, orgulhoso, o deputado "bom pra cachorro", pai de um casal de Yorkshires (Tito e Tita) e um de Rotwaillers (Ursos e Sarah).
E que ninguém duvide do amor de Pedregal aos cachorros. Na justificativa do projeto, ele se declara, valendo-se do um discurso de um senador americano. "O cão permanece com seu dono na prosperidade e na pobreza, na saúde e na doença. Ele dominará o chão frio, onde os ventos invernais sopram e a neve se lança impiedosamente", diz um trecho. O texto o deixa comovido:
- É a coisa mais linda!
Aos colegas mais críticos, o deputado tranqüiliza: o Dia do Cachorro não será um feriado, apenas uma homenagem aos animais.
Alan Gripp, O Globo - 19.11.03
Não gosto de transcrever notícias aqui, mas essa merece. Para que você saiba que tipo de projetos propõem alguns deputados pagos com o seu, o meu, o nosso dinheiro.
Um projeto bom para cachorro
O mundo pode cair que não se falará em outro assunto hoje na Assembléia Legislativa. Será um dia de cão. Literalmente. Entre uma e outra discussão nebulosa sobre o orçamento, os deputados vão parar tudo e votar o projeto mais comentado dos últimos dias: a criação do "Dia do cachorro - o melhor amigo do homem", a ser comemorado no dia 4 de outubro.
Pai (ou seria melhor criador?) do projeto, o deputado Antônio Pedregal (PSC) garante que ele é da maior importância. Diz que os animais são muito maltratados e que precisam de um dia só para eles. Pedregal fica com os olhos marejados ao contar que dois de seus cachorros morreram por falta de atenção sua. Muito justo, então. Como diria o ex-ministro do Trabalho, Rogério Magri, o cachorro é um ser humano como outro qualquer.
- Não tenho dúvida de que o cachorro é o melhor amigo do homem. Quando estava doente, meu cachorro dormia todo dia ao meu lado - conta, orgulhoso, o deputado "bom pra cachorro", pai de um casal de Yorkshires (Tito e Tita) e um de Rotwaillers (Ursos e Sarah).
E que ninguém duvide do amor de Pedregal aos cachorros. Na justificativa do projeto, ele se declara, valendo-se do um discurso de um senador americano. "O cão permanece com seu dono na prosperidade e na pobreza, na saúde e na doença. Ele dominará o chão frio, onde os ventos invernais sopram e a neve se lança impiedosamente", diz um trecho. O texto o deixa comovido:
- É a coisa mais linda!
Aos colegas mais críticos, o deputado tranqüiliza: o Dia do Cachorro não será um feriado, apenas uma homenagem aos animais.
Alan Gripp, O Globo - 19.11.03
segunda-feira, novembro 17, 2003
R.S.D.
Ainda acredito nos sonhos impossíveis e torço para que eles dêem certo. Torço não: eu tenho a certeza absoluta de que eles vão acontecer. Tenho espasmos cerebrais diários, e em cada um deles me convenço de que isso aqui que estou vivendo é uma coisa boba, legal mas inconsistente, e que na sublimidade é que reside a minha vida. Vivo mais de olhos fechados. O que não me impede de aproveitar cada minuto de visão consciente e pragmática.
Tenho essa mania estranha de buscar a totalidade. Eu já desconfiava disso, mas um dia, num desses testes psicológicos a que os técnicos insistem em submeter seus sãos atletas, a senhora ruiva de óculos imponentes e voz macia me disse isso: você busca a totalidade em tudo, por isso vive insatisfeita, esperando algo mais, esperando que a roda se feche. Isso só porque no borrão roxo cheio de detalhes eu enxergava uma enorme borboleta. Mas eu acreditei nela. Meu tempo não é linear. Como o dos gregos, meu tempo é cíclico.
Então cada vez que eu viajo na minha gigantesca empada viscosa eu vislumbro uma vida toda diferente, e acredito que vou vivê-la com a mesma intensidade dos meus pensamentos. Acredito piamente que meus sonhos antigos não-realizados vão se tornar realidade, mesmo os que não fazem mais sentido. Meus caprichos que não deram certo, esses eu mando para o arquivo sete gavetas abaixo do cerebelo. De repente, um dia, se me encontrar na ausência total de sonhos (seria a morte?), posso desenterrar um deles e ver o muso da terceira série apaixonado por mim, posso trocar a medalha de prata pela de ouro no campeonato de queimado, posso ser convidada para aquela festinha da outra turma ou ter coragem para abandonar a vassoura pelo menino bonitinho que me olha.
Meu cérebro é infinitamente repleto de algum tipo de ácido que me traz ao que deve ser a verdade. Essa Renata in the Sky with Diamonds, incorrigível eterômana, de quando em quando entra num videoclipe tosco, que às vezes tem características jocosas como uma musiquinha tola do Matchbox Twenty ao fundo, bem melosa, câmera lenta, choro na chuva, casal vestido pulando ondas na praia, menina pensativa agarrada a bichos de pelúcia, uma carta antiga, cachorrinho de olhar macambúzio, um campo verde com sol baixo, flashbacks de sorrisos de pessoas amadas que partiram e uns cortes repentinos com aquelas flores bregas de videokê. Esses incontáveis clipes ficam armazenados numa warehouse com fuleiras estantes de ferro exibindo desorganizadas fitas prontas para o uso. E cada vez que eu aperto o play e aumento o volume é uma nova avant-première a que só eu, a prestidigitadora-mor, assisto.
Não adianta me dizerem que não vai acontecer, que eu sou louca e tal. Porque eu tenho certeza de que a sensação de vencer aquele campeonato especial, aquele momento ouvindo "Samurai" num elevador na França, o abraço apertado da tia querida, aquela viagem maravilhosa, aquelas palavrinhas mágicas "eu te amo" ouvidas pela primeira vez, as palmas do meu pai na arquibancada, aquela praia na Sicília, aquele pôr-do-sol em Sunset Cliffs, aquela tarde lendo Tintim no ar-condicionado com minha avó, aquela noite em claro conversando em Long Beach, as cachoeiras de Mauá, aquele elogio na aula de balé, a crise de riso sem motivo algum, a nota boa na prova mais difícil, aquele telefonema de convocação, aquele desfile em Mar del Plata: todos esses instantes ainda existem, à parte e dentro de mim, esperando para serem revividos. E a maior alegria é sentir que, quem sabe até os 34, 75 ou 103 anos, outras centenas de momentos como esses serão guardados nesse cofre enigmático que eu, só eu, tenho a chave.
Ainda acredito nos sonhos impossíveis e torço para que eles dêem certo. Torço não: eu tenho a certeza absoluta de que eles vão acontecer. Tenho espasmos cerebrais diários, e em cada um deles me convenço de que isso aqui que estou vivendo é uma coisa boba, legal mas inconsistente, e que na sublimidade é que reside a minha vida. Vivo mais de olhos fechados. O que não me impede de aproveitar cada minuto de visão consciente e pragmática.
Tenho essa mania estranha de buscar a totalidade. Eu já desconfiava disso, mas um dia, num desses testes psicológicos a que os técnicos insistem em submeter seus sãos atletas, a senhora ruiva de óculos imponentes e voz macia me disse isso: você busca a totalidade em tudo, por isso vive insatisfeita, esperando algo mais, esperando que a roda se feche. Isso só porque no borrão roxo cheio de detalhes eu enxergava uma enorme borboleta. Mas eu acreditei nela. Meu tempo não é linear. Como o dos gregos, meu tempo é cíclico.
Então cada vez que eu viajo na minha gigantesca empada viscosa eu vislumbro uma vida toda diferente, e acredito que vou vivê-la com a mesma intensidade dos meus pensamentos. Acredito piamente que meus sonhos antigos não-realizados vão se tornar realidade, mesmo os que não fazem mais sentido. Meus caprichos que não deram certo, esses eu mando para o arquivo sete gavetas abaixo do cerebelo. De repente, um dia, se me encontrar na ausência total de sonhos (seria a morte?), posso desenterrar um deles e ver o muso da terceira série apaixonado por mim, posso trocar a medalha de prata pela de ouro no campeonato de queimado, posso ser convidada para aquela festinha da outra turma ou ter coragem para abandonar a vassoura pelo menino bonitinho que me olha.
Meu cérebro é infinitamente repleto de algum tipo de ácido que me traz ao que deve ser a verdade. Essa Renata in the Sky with Diamonds, incorrigível eterômana, de quando em quando entra num videoclipe tosco, que às vezes tem características jocosas como uma musiquinha tola do Matchbox Twenty ao fundo, bem melosa, câmera lenta, choro na chuva, casal vestido pulando ondas na praia, menina pensativa agarrada a bichos de pelúcia, uma carta antiga, cachorrinho de olhar macambúzio, um campo verde com sol baixo, flashbacks de sorrisos de pessoas amadas que partiram e uns cortes repentinos com aquelas flores bregas de videokê. Esses incontáveis clipes ficam armazenados numa warehouse com fuleiras estantes de ferro exibindo desorganizadas fitas prontas para o uso. E cada vez que eu aperto o play e aumento o volume é uma nova avant-première a que só eu, a prestidigitadora-mor, assisto.
Não adianta me dizerem que não vai acontecer, que eu sou louca e tal. Porque eu tenho certeza de que a sensação de vencer aquele campeonato especial, aquele momento ouvindo "Samurai" num elevador na França, o abraço apertado da tia querida, aquela viagem maravilhosa, aquelas palavrinhas mágicas "eu te amo" ouvidas pela primeira vez, as palmas do meu pai na arquibancada, aquela praia na Sicília, aquele pôr-do-sol em Sunset Cliffs, aquela tarde lendo Tintim no ar-condicionado com minha avó, aquela noite em claro conversando em Long Beach, as cachoeiras de Mauá, aquele elogio na aula de balé, a crise de riso sem motivo algum, a nota boa na prova mais difícil, aquele telefonema de convocação, aquele desfile em Mar del Plata: todos esses instantes ainda existem, à parte e dentro de mim, esperando para serem revividos. E a maior alegria é sentir que, quem sabe até os 34, 75 ou 103 anos, outras centenas de momentos como esses serão guardados nesse cofre enigmático que eu, só eu, tenho a chave.
sábado, novembro 15, 2003
Perdoem a ignorância
Hoje tem aquela festa Selectah na Cinelândia. Parece que é algo tipo um trio elétrico cool, pr'aquele povinho cult-ploc-pluft que acha que drum’n’bass já é coisa do passado. E daí? Poizé, nunca ouvi falar nesse troço, mas acabo de ler que, entre outras coisas, os DJs vão tocar breakbeat, dub, ragga e jungle, e quem sabe um electroclash no final. Pelamordedeus, alguém me diz que está tudo bem se eu continuar ouvindo meu roquenrouzinho com MPB e uns clássicos de vez em quando.
Hoje tem aquela festa Selectah na Cinelândia. Parece que é algo tipo um trio elétrico cool, pr'aquele povinho cult-ploc-pluft que acha que drum’n’bass já é coisa do passado. E daí? Poizé, nunca ouvi falar nesse troço, mas acabo de ler que, entre outras coisas, os DJs vão tocar breakbeat, dub, ragga e jungle, e quem sabe um electroclash no final. Pelamordedeus, alguém me diz que está tudo bem se eu continuar ouvindo meu roquenrouzinho com MPB e uns clássicos de vez em quando.
quinta-feira, novembro 13, 2003
Asa-delta
No dia 28 de dezembro de 2000 eu voei de asa-delta em São Conrado. Foram apenas dez minutos no ar, mas foi maravilhoso, inesquecível. Com o instrutor Paulão, fiz um vôo duplo que foi filmado e fotografado para a página-mico que eu fazia num site. Logo depois de mim voou a Sassá, minha amiga e fiel escudeira que fazia o papel de fotógrafa. Um outro instrutor amigo do Paulão estava lá, e eu já havia acertado tudo com ele por telefone. Era o Valtinho, com quem tiramos fotos, sentamos num quiosque e conversamos sobre asa-delta, a Associação de Vôo Livre, os cuidados para evitar acidentes, o Pepê, a extraordinária sensação de voar. Cerca de um mês depois fiz umas materinhas sobre parapente e conversei um pouco com ele novamente.
Pois hoje, lendo o jornal, vi que um dos dois mortos durante um acidente de asa-delta foi ele, que voava com uma turista de Manaus. A asa partiu, eles bateram numa rocha embaixo da Pedra da Gávea e caíram no mar. Fiquei pensando naquele meu vôo e em quanto eu vinha repetindo que gostaria de voar de novo. Revi o vídeo da minha pequena aventura, na internet, umas três vezes. Acho que jamais terei coragem de sentir novamente aquela sensação maravilhosa.
Que Deus o tenha lá, bem alto, vislumbrando a Praia de São Conrado.
No dia 28 de dezembro de 2000 eu voei de asa-delta em São Conrado. Foram apenas dez minutos no ar, mas foi maravilhoso, inesquecível. Com o instrutor Paulão, fiz um vôo duplo que foi filmado e fotografado para a página-mico que eu fazia num site. Logo depois de mim voou a Sassá, minha amiga e fiel escudeira que fazia o papel de fotógrafa. Um outro instrutor amigo do Paulão estava lá, e eu já havia acertado tudo com ele por telefone. Era o Valtinho, com quem tiramos fotos, sentamos num quiosque e conversamos sobre asa-delta, a Associação de Vôo Livre, os cuidados para evitar acidentes, o Pepê, a extraordinária sensação de voar. Cerca de um mês depois fiz umas materinhas sobre parapente e conversei um pouco com ele novamente.
Pois hoje, lendo o jornal, vi que um dos dois mortos durante um acidente de asa-delta foi ele, que voava com uma turista de Manaus. A asa partiu, eles bateram numa rocha embaixo da Pedra da Gávea e caíram no mar. Fiquei pensando naquele meu vôo e em quanto eu vinha repetindo que gostaria de voar de novo. Revi o vídeo da minha pequena aventura, na internet, umas três vezes. Acho que jamais terei coragem de sentir novamente aquela sensação maravilhosa.
Que Deus o tenha lá, bem alto, vislumbrando a Praia de São Conrado.
Tá tarde e dormir não adianta
E esse vento na minha cabeça que não pára de pensar em tudo o que tenho que fazer nas próximas três semanas e nos próximos trinta anos e essa tela branca na minha frente que insiste em permanecer assim branca e sem sal e sem sentido e essa mente que não quer produzir nada de útil e todos esses textos de pedaços de livros que nunca lerei por inteiro e que ficam na minha cama e me azucrinam e pulam das pastas transparentes e todos os CDs e livros que pedem para ser organizados mas não sei como nem que horas e essas roupas que pretendem vestir quem as queira usar e as três caixas de e-mail pedindo atenção e poucos amigos gritando por umas palavras via web e o bêbado jogando pedrinhas na minha janela e os gatos brigando na pracinha e o futebol de amanhã me atormentando e eu aqui querendo apertar no fast forward to a couple of months later quando tudo estará em seus devidos lugares ou então as dúvidas antigas serão piadas substituídas por novas dúvidas mais contundentes mas enquanto isso não acontece eu fico aqui com minha motivação em conta-gotas virando pastiche de mim mesma esse ser anódino mulher-flamboyant numa mixórdia de vida sem relíquias e pensamentos gaguejantes obrigando a si mesma a formular objetivos compatíveis com uma vidinha qualquer de uma pessoa comum nem moderninha nem nada além de alguém que joga sinuca com bolas brancas e evoca escritores como xamãs e delimita fronteiras de diálogo segundo a moral e os bons costumes de uma mocinha chata e boazinha perversa e discreta gracinha e ácida que vive numa modorrenta prisão feliz e não se sobressalta nem com suas indiferenças cruéis e estúpidas palavras sobre palavras que começam num sem-noção de dar dó e sem pretensão de obra-prima porque nada procede mas assim no caos é que sei quem sou. E o pior é que a vida anda boa e sem graça.
E esse vento na minha cabeça que não pára de pensar em tudo o que tenho que fazer nas próximas três semanas e nos próximos trinta anos e essa tela branca na minha frente que insiste em permanecer assim branca e sem sal e sem sentido e essa mente que não quer produzir nada de útil e todos esses textos de pedaços de livros que nunca lerei por inteiro e que ficam na minha cama e me azucrinam e pulam das pastas transparentes e todos os CDs e livros que pedem para ser organizados mas não sei como nem que horas e essas roupas que pretendem vestir quem as queira usar e as três caixas de e-mail pedindo atenção e poucos amigos gritando por umas palavras via web e o bêbado jogando pedrinhas na minha janela e os gatos brigando na pracinha e o futebol de amanhã me atormentando e eu aqui querendo apertar no fast forward to a couple of months later quando tudo estará em seus devidos lugares ou então as dúvidas antigas serão piadas substituídas por novas dúvidas mais contundentes mas enquanto isso não acontece eu fico aqui com minha motivação em conta-gotas virando pastiche de mim mesma esse ser anódino mulher-flamboyant numa mixórdia de vida sem relíquias e pensamentos gaguejantes obrigando a si mesma a formular objetivos compatíveis com uma vidinha qualquer de uma pessoa comum nem moderninha nem nada além de alguém que joga sinuca com bolas brancas e evoca escritores como xamãs e delimita fronteiras de diálogo segundo a moral e os bons costumes de uma mocinha chata e boazinha perversa e discreta gracinha e ácida que vive numa modorrenta prisão feliz e não se sobressalta nem com suas indiferenças cruéis e estúpidas palavras sobre palavras que começam num sem-noção de dar dó e sem pretensão de obra-prima porque nada procede mas assim no caos é que sei quem sou. E o pior é que a vida anda boa e sem graça.
segunda-feira, novembro 10, 2003
Gerúndio
Ouvindo: Constant craving, K.D. Lang e Como nossos pais, Elis Regina.
Dormindo: menos que o suficiente.
Digerindo: balas diet. Refrigerantes diet. Saladas. Sopas. Além de arroz, feijão, macarrão, batata e tudo o que engorda.
Usando: Paloma Picasso ou Vanilla Lace da Victoria's Secret (metiiiida...)
Comprando: absolutamente nada.
Procurando: dinheiro.
Lendo: 572 textos de história, dos merovíngios aos jacobinos, dos iluministas aos palestinos.
Pedindo: o milagre da multiplicação das vagas de trainee.
Visitando: blogs blogs blogs. E fotologs.
Revisitando: minha agenda de 1994 (sensacional) e fotos de San Diego (sempre...)
Embromando: último mês da facul de jornalismo.
Amando: meu mineiro.
Fingindo: ser saudável.
Rindo: da e com a Brenda, a Tatilica, a Sassá e as Nove Sagazes Criaturas do Bunker.
Vestindo: qualquer coisa confortável.
Sentindo: saudades antecipadas. Cansaço. Saudades atuais.
Desejando: andar de bicicleta na orla. Caminhar no mato. Mergulhar numa cachoeira.
Torcendo: pelas duas seleções de vôlei. Pelo Flu (vôlei), nesse fim de semana.
Ignorando: futebol, com todas as minhas forças.
Enterrando: pequenas mágoas insignificantes, antes que virem úlceras antropofágicas.
Precisando: hummm...precisar, precisar, não estou precisando de nada...
Querendo: basicamente? Casar e ter um emprego decente. E mais um milhão de coisas.
Chorando: só em filmes.
Estudando: História. No máximo.
Paparicando: a Tiffany, minha cachorrinha highlander.
Devaneando: sempre, sempre e sempre, sobre qualquer coisa.
Planejando: viver sem planejar.
Ouvindo: Constant craving, K.D. Lang e Como nossos pais, Elis Regina.
Dormindo: menos que o suficiente.
Digerindo: balas diet. Refrigerantes diet. Saladas. Sopas. Além de arroz, feijão, macarrão, batata e tudo o que engorda.
Usando: Paloma Picasso ou Vanilla Lace da Victoria's Secret (metiiiida...)
Comprando: absolutamente nada.
Procurando: dinheiro.
Lendo: 572 textos de história, dos merovíngios aos jacobinos, dos iluministas aos palestinos.
Pedindo: o milagre da multiplicação das vagas de trainee.
Visitando: blogs blogs blogs. E fotologs.
Revisitando: minha agenda de 1994 (sensacional) e fotos de San Diego (sempre...)
Embromando: último mês da facul de jornalismo.
Amando: meu mineiro.
Fingindo: ser saudável.
Rindo: da e com a Brenda, a Tatilica, a Sassá e as Nove Sagazes Criaturas do Bunker.
Vestindo: qualquer coisa confortável.
Sentindo: saudades antecipadas. Cansaço. Saudades atuais.
Desejando: andar de bicicleta na orla. Caminhar no mato. Mergulhar numa cachoeira.
Torcendo: pelas duas seleções de vôlei. Pelo Flu (vôlei), nesse fim de semana.
Ignorando: futebol, com todas as minhas forças.
Enterrando: pequenas mágoas insignificantes, antes que virem úlceras antropofágicas.
Precisando: hummm...precisar, precisar, não estou precisando de nada...
Querendo: basicamente? Casar e ter um emprego decente. E mais um milhão de coisas.
Chorando: só em filmes.
Estudando: História. No máximo.
Paparicando: a Tiffany, minha cachorrinha highlander.
Devaneando: sempre, sempre e sempre, sobre qualquer coisa.
Planejando: viver sem planejar.
sexta-feira, novembro 07, 2003
segunda-feira, novembro 03, 2003
Biologia e História e vice-versa
Enquanto meu primo advogado-biólogo coleta água de bromélias na restinga da Marambaia e planeja seu trabalho sobre alimentos do futuro tais como os hidropônicos e os biodinâmicos (imagino-me aos 50 saindo para tomar um ovomaltine biodinâmico mal-batido no Bob's da fétida e aterrada Lagoa Rodrigo de Freitas), aqui em minha mitocôndria azulamarela eu passo o tempo estudando desesperadamente a história do liberalismo e as diferenças da Revolução Industrial na França e na Inglaterra.
Meu pobre primo tem aulas com uma professora doidona que recomendou um livro sobre "os embaixadores da luz" (aquelas pessoas que param de comer e se alimentam de luz). Antes de ler tal obra, ele diz que a primeira coisa que vem à cabeça é que, se houvesse realmente essa parada de se alimentar de luz, as criancinhas não estariam morrendo de inanição na Somália, debaixo de tanto sol....Faz sentido. E eu penso que, se o capitalismo, e com ele a incrível tecnologia, fosse tão imprescindível e maravilhoso assim, essas mesmas criancinhas também não estariam morrendo de inanição. Seríamos nós "capitalistas", então, menos loucos que os tais embaixadores da luz??
Enquanto isso, em vez de estudar sobre os Discípulos da Luz, meu primão preferia ter passado o dia na maratona de 10 horas dos Simpsons, vendo os 20 melhores capítulos seguidos do episódio 300. E eu preferia que meu cérebro tivesse poder osmótico para deitar a cabeça sobre os textos e entender as engrenagens do liberalismo e do mundo contemporâneo enquanto eu assistiria, inerte, a três episódios seguidos de Felicity. Com meu milkshake biodinâmico ao lado.
Enquanto meu primo advogado-biólogo coleta água de bromélias na restinga da Marambaia e planeja seu trabalho sobre alimentos do futuro tais como os hidropônicos e os biodinâmicos (imagino-me aos 50 saindo para tomar um ovomaltine biodinâmico mal-batido no Bob's da fétida e aterrada Lagoa Rodrigo de Freitas), aqui em minha mitocôndria azulamarela eu passo o tempo estudando desesperadamente a história do liberalismo e as diferenças da Revolução Industrial na França e na Inglaterra.
Meu pobre primo tem aulas com uma professora doidona que recomendou um livro sobre "os embaixadores da luz" (aquelas pessoas que param de comer e se alimentam de luz). Antes de ler tal obra, ele diz que a primeira coisa que vem à cabeça é que, se houvesse realmente essa parada de se alimentar de luz, as criancinhas não estariam morrendo de inanição na Somália, debaixo de tanto sol....Faz sentido. E eu penso que, se o capitalismo, e com ele a incrível tecnologia, fosse tão imprescindível e maravilhoso assim, essas mesmas criancinhas também não estariam morrendo de inanição. Seríamos nós "capitalistas", então, menos loucos que os tais embaixadores da luz??
Enquanto isso, em vez de estudar sobre os Discípulos da Luz, meu primão preferia ter passado o dia na maratona de 10 horas dos Simpsons, vendo os 20 melhores capítulos seguidos do episódio 300. E eu preferia que meu cérebro tivesse poder osmótico para deitar a cabeça sobre os textos e entender as engrenagens do liberalismo e do mundo contemporâneo enquanto eu assistiria, inerte, a três episódios seguidos de Felicity. Com meu milkshake biodinâmico ao lado.
domingo, novembro 02, 2003
Passa rápido...
Rapáiz, hoje já faz um ano daquela tarde nublada, dia de Finados, em que eu, desempregada e doente, resolvi fazer um blog, assim do nada. Tentei registrar uns nomes que tinham coisas como Perséfone e Bacchia no meio, mas acabei ficando com esse Coisas de Nada. Não pretendia que fosse um diário e muito menos algo "sério" (existe algum blog sério???)... Aliás, não sei muito bem o que pretendia com isso...Era uma maneira de me ocupar, ter um ânimo para escrever minhas irrelevantes besteiras. Hoje, ocupadíssima, continuo com muita vontade de escrever aqui - e de vez em quando consigo, hehe. Esse troço é uma terapia. É meio idiota, talvez inútil, mas quer saber? É legal. Eu gosto e pretendo continuar. Quando estiver muito chato, muito ruim ou muito louco, é só clicar em algum link lá de baixo, à esquerda. Tem blogs muito bacanas por ali.
Rapáiz, hoje já faz um ano daquela tarde nublada, dia de Finados, em que eu, desempregada e doente, resolvi fazer um blog, assim do nada. Tentei registrar uns nomes que tinham coisas como Perséfone e Bacchia no meio, mas acabei ficando com esse Coisas de Nada. Não pretendia que fosse um diário e muito menos algo "sério" (existe algum blog sério???)... Aliás, não sei muito bem o que pretendia com isso...Era uma maneira de me ocupar, ter um ânimo para escrever minhas irrelevantes besteiras. Hoje, ocupadíssima, continuo com muita vontade de escrever aqui - e de vez em quando consigo, hehe. Esse troço é uma terapia. É meio idiota, talvez inútil, mas quer saber? É legal. Eu gosto e pretendo continuar. Quando estiver muito chato, muito ruim ou muito louco, é só clicar em algum link lá de baixo, à esquerda. Tem blogs muito bacanas por ali.
sábado, novembro 01, 2003
Dear diary,
Hoje, depois de um período de bonança, bateu uma dorzinha verdadeira de imaginar que as coisas vão mudar, e talvez muito, daqui a uns meros 60 dias. Minha vida é feita de fases - em grande medida involuntárias - de convivência com grupos de pessoas efêmeros. (Talvez a vida de muita gente seja assim, mas esse é um traço permanente na minha.)
Às vezes a separação é traumática, como não poderiam deixar de ser a minha volta ao Brasil depois de um ano incrível em San Diego ou a volta ao Rio após anos viajando e morando em BH e Curitiba. Nos dois casos, a mudança de lugar e de pessoas significou uma mudança total de caminho, de objetivos, uma transformação quase conceitual do que a vida deveria se tornar. Recomeçar e mudar de profissão é tão difícil quanto mudar de país. Quando você acha que entrou nos eixos, percebe que a cabeça de todos ao seu redor está de cabeça pra baixo, até que, ooops, era a sua perspectiva que andava meio estranha...
Agora talvez seja diferente. (Tá bom, sempre é diferente, não se entra no mesmo rio duas vezes blábláblá...) Se até agora o que mais me inquietava era não saber o futuro, não poder adivinhar uma decisão que não depende de mim, além de uma provável mudança de emprego, estado ou até profissão, o que hoje me incomodou foi, mais uma vez, o afastamento forçado e simultaneamente natural que, de tempos em tempos, tenho que fazer das pessoas.
Porque eu me apego muito e me desapego pouco. Para alguns pode ser difícil esse afastamento nos primeiros dias, mas para mim é difícil ad eternum. Por mais que não nos falemos, não esqueço da amiga do colégio, do primeiro time de vôlei, da amiga de Londrina, da que mudou pra Sampa, da que casou e se afastou, da que aparentemente se esqueceu de mim, da que ficou em Curitiba, nos Estados Unidos, do que mora na Eslovênia ou da que vive em Chicago, e de tantos outros...Todos são importantes. O passado, para mim, não passa. Ele fica guardado num universo paralelo aqui dentro, com um carinho muito grande por pessoas que, às vezes sem saber, transformaram minha vida nas pequenas coisas e me construíram como sou (seja isso bom ou ruim...) É piegas, mas é verdade. A amizade, como qualquer forma de amor, é piegas.
Então mais uma vez eu corro o risco de me separar de pessoas formidáveis que cruzaram meu caminho e nele permaneceram por algum tempo. Mais uma vez, eu vou tentar manter contato, pegar telefone, e-mail, endereço, dizer para essas pessoas o quanto elas são legais, agradáveis, engraçadas, únicas em seus defeitos e qualidades, e o quanto o conjunto da obra delas me conquistou sem que elas se esforçassem especificamente para isso.
Mais uma vez, vou ficar triste - talvez também deixe alguém triste por alguns momentos - e vou me afastar de pessoas especiais que provavelmente nunca entenderão o quanto são especiais para mim. Com o tempo, as coisas vão tomar uma distância que as distorcerá, e nós perderemos a dimensão da importância de amizades ou simples convivências que tivemos...Vai tudo ficando longínquo...Vão sumindo algumas afinidades, desvanecendo-se as gargalhadas, desbotando-se sorrisos, e acabam sobrando uma foto no álbum antigo da gaveta e um momento qualquer na memória, um episódio aparentemente insignificante que lembramos sem sabermos bem por quê...
Não me parece justo, mas sei que é assim.
São amigos, colegas e conhecidos; eles se vão e a lembrança fica...Cogumelos, diria o Pequeno Príncipe!
Hoje, depois de um período de bonança, bateu uma dorzinha verdadeira de imaginar que as coisas vão mudar, e talvez muito, daqui a uns meros 60 dias. Minha vida é feita de fases - em grande medida involuntárias - de convivência com grupos de pessoas efêmeros. (Talvez a vida de muita gente seja assim, mas esse é um traço permanente na minha.)
Às vezes a separação é traumática, como não poderiam deixar de ser a minha volta ao Brasil depois de um ano incrível em San Diego ou a volta ao Rio após anos viajando e morando em BH e Curitiba. Nos dois casos, a mudança de lugar e de pessoas significou uma mudança total de caminho, de objetivos, uma transformação quase conceitual do que a vida deveria se tornar. Recomeçar e mudar de profissão é tão difícil quanto mudar de país. Quando você acha que entrou nos eixos, percebe que a cabeça de todos ao seu redor está de cabeça pra baixo, até que, ooops, era a sua perspectiva que andava meio estranha...
Agora talvez seja diferente. (Tá bom, sempre é diferente, não se entra no mesmo rio duas vezes blábláblá...) Se até agora o que mais me inquietava era não saber o futuro, não poder adivinhar uma decisão que não depende de mim, além de uma provável mudança de emprego, estado ou até profissão, o que hoje me incomodou foi, mais uma vez, o afastamento forçado e simultaneamente natural que, de tempos em tempos, tenho que fazer das pessoas.
Porque eu me apego muito e me desapego pouco. Para alguns pode ser difícil esse afastamento nos primeiros dias, mas para mim é difícil ad eternum. Por mais que não nos falemos, não esqueço da amiga do colégio, do primeiro time de vôlei, da amiga de Londrina, da que mudou pra Sampa, da que casou e se afastou, da que aparentemente se esqueceu de mim, da que ficou em Curitiba, nos Estados Unidos, do que mora na Eslovênia ou da que vive em Chicago, e de tantos outros...Todos são importantes. O passado, para mim, não passa. Ele fica guardado num universo paralelo aqui dentro, com um carinho muito grande por pessoas que, às vezes sem saber, transformaram minha vida nas pequenas coisas e me construíram como sou (seja isso bom ou ruim...) É piegas, mas é verdade. A amizade, como qualquer forma de amor, é piegas.
Então mais uma vez eu corro o risco de me separar de pessoas formidáveis que cruzaram meu caminho e nele permaneceram por algum tempo. Mais uma vez, eu vou tentar manter contato, pegar telefone, e-mail, endereço, dizer para essas pessoas o quanto elas são legais, agradáveis, engraçadas, únicas em seus defeitos e qualidades, e o quanto o conjunto da obra delas me conquistou sem que elas se esforçassem especificamente para isso.
Mais uma vez, vou ficar triste - talvez também deixe alguém triste por alguns momentos - e vou me afastar de pessoas especiais que provavelmente nunca entenderão o quanto são especiais para mim. Com o tempo, as coisas vão tomar uma distância que as distorcerá, e nós perderemos a dimensão da importância de amizades ou simples convivências que tivemos...Vai tudo ficando longínquo...Vão sumindo algumas afinidades, desvanecendo-se as gargalhadas, desbotando-se sorrisos, e acabam sobrando uma foto no álbum antigo da gaveta e um momento qualquer na memória, um episódio aparentemente insignificante que lembramos sem sabermos bem por quê...
Não me parece justo, mas sei que é assim.
São amigos, colegas e conhecidos; eles se vão e a lembrança fica...Cogumelos, diria o Pequeno Príncipe!
Não fui ao Tim Festival, e nem sei bem o porquê. Tô sem grana, é verdade, mas a gente sempre dá um jeitinho nessas horas...Sei lá, não entrei no clima. Estou ficando velha, só pode ser. Tô curtindo uma noite de sexta pra ficar em casa sozinha, sabendo que o Rio de Janeiro lá de fora se diverte com White Stripes, Super Furry Animals, pagodes, bailes funk, forrós, cines-buracos (para um lugar chamado cine-buraco eu me dou o direito de inventar o plural), luaus, pubs, mini-raves, cobais e pés-sujos das esquinas. Cada um com seu cada um, deixa o meu comigo.
segunda-feira, outubro 27, 2003
Uninvited
Eu venho guardando minhas autocaricaturas aqui dentro. Eu venho sufocando meus macaquinhos no sótão, emudecendo meus bichos, espancando minhas espúrias verdades como uma carrasca ímpia. Porque eu posso parecer sã, mas não sou não.
Venho escravizando minhas opiniões para me tornar um incrível autômato. Venho solapando meu id e prometendo que, in diem, ele vai se soltar das correntes. O superego é meu deus, um deusinho cínico e cheio de pudores. Um deus sem graça, pífio.
Vou deixando que a amargura tome conta de mim, enquanto permito que minha vida seja regida pelos valores dos outros, os outros que me dizem como sou e como deveria ser. Mas só percebo isso à noite, quando me viro do avesso. Na manhã seguinte o encanto se quebra e retorno à estaca zero, escondo o ogro debaixo do tapete e volto a me sentir como se eu, a dona da festa, tivesse esquecido de me convidar.
Eu venho tendo vontade de dizer umas verdades, de não pedir desculpas quando acredito que estou certa, de não tentar ajudar quem não faz por onde merecer minha ajuda. Às vezes eu quero ser canalha.
Venho querendo, há tempos, estourar uma garrafa de champanhe e torcer para que a rolha deixe um olho roxo naquela criatura que tem cara de quem precisa de um olho roxo. Venho querendo explicar que tudo isso aqui é pura paz armada, a Pax Renatiana que é apenas um artificial momento entre duas guerras, entre várias guerras. Tenho tido vontade de anunciar que quem não está comigo, está contra mim, porque Renata, a Maniqueísta, é uma superpotência. Às vezes eu quero ser arrogante.
Há tempos eu planejo me perder, tomar um ônibus e sair por aí, conhecendo o Rio de Janeiro e seus riquíssimos exemplares humanos. Mas sempre me encontro quando estou quase me perdendo, sempre dou de cara com alguém tão sensato quanto irritante.
Venho tentando deixar de lutar contra a mediocridade, assumir minha frivolidade até que alguém me conte que, sim, eu vou morrer. Assim como vocês, cujos olhos me dizem quem sou e o quanto estou errada em ser quem sou. Sou um autóctone, e vocês, os colonizadores.
Ando escondendo minha aspiração de reduzir ao absurdo qualquer premissa que vá contra o que quer que eu esteja venerando no momento. Insisto em falar por metáforas, quando no meu pensamento, sadio até a raiz, nenhuma analogia é admissível. Minha verdadeira náusea é a certeza de que a existência, essa palavra que devia vir entre aspas, não é gratuita. Os limites da minha linguagem e visão são os limites do meu mundo. Um mundo pobre, mas feliz em seu próprio engodo. E, por isso, mesmo que vocês não tenham entendido nada, eu não vou explicar de novo e vou continuar a sufocar, um a um, os macaquinhos no meu sótão.
Eu venho guardando minhas autocaricaturas aqui dentro. Eu venho sufocando meus macaquinhos no sótão, emudecendo meus bichos, espancando minhas espúrias verdades como uma carrasca ímpia. Porque eu posso parecer sã, mas não sou não.
Venho escravizando minhas opiniões para me tornar um incrível autômato. Venho solapando meu id e prometendo que, in diem, ele vai se soltar das correntes. O superego é meu deus, um deusinho cínico e cheio de pudores. Um deus sem graça, pífio.
Vou deixando que a amargura tome conta de mim, enquanto permito que minha vida seja regida pelos valores dos outros, os outros que me dizem como sou e como deveria ser. Mas só percebo isso à noite, quando me viro do avesso. Na manhã seguinte o encanto se quebra e retorno à estaca zero, escondo o ogro debaixo do tapete e volto a me sentir como se eu, a dona da festa, tivesse esquecido de me convidar.
Eu venho tendo vontade de dizer umas verdades, de não pedir desculpas quando acredito que estou certa, de não tentar ajudar quem não faz por onde merecer minha ajuda. Às vezes eu quero ser canalha.
Venho querendo, há tempos, estourar uma garrafa de champanhe e torcer para que a rolha deixe um olho roxo naquela criatura que tem cara de quem precisa de um olho roxo. Venho querendo explicar que tudo isso aqui é pura paz armada, a Pax Renatiana que é apenas um artificial momento entre duas guerras, entre várias guerras. Tenho tido vontade de anunciar que quem não está comigo, está contra mim, porque Renata, a Maniqueísta, é uma superpotência. Às vezes eu quero ser arrogante.
Há tempos eu planejo me perder, tomar um ônibus e sair por aí, conhecendo o Rio de Janeiro e seus riquíssimos exemplares humanos. Mas sempre me encontro quando estou quase me perdendo, sempre dou de cara com alguém tão sensato quanto irritante.
Venho tentando deixar de lutar contra a mediocridade, assumir minha frivolidade até que alguém me conte que, sim, eu vou morrer. Assim como vocês, cujos olhos me dizem quem sou e o quanto estou errada em ser quem sou. Sou um autóctone, e vocês, os colonizadores.
Ando escondendo minha aspiração de reduzir ao absurdo qualquer premissa que vá contra o que quer que eu esteja venerando no momento. Insisto em falar por metáforas, quando no meu pensamento, sadio até a raiz, nenhuma analogia é admissível. Minha verdadeira náusea é a certeza de que a existência, essa palavra que devia vir entre aspas, não é gratuita. Os limites da minha linguagem e visão são os limites do meu mundo. Um mundo pobre, mas feliz em seu próprio engodo. E, por isso, mesmo que vocês não tenham entendido nada, eu não vou explicar de novo e vou continuar a sufocar, um a um, os macaquinhos no meu sótão.
quinta-feira, outubro 16, 2003
A Invasão
Elas estão por toda parte. Na amiga de escola que reencontro, linda como sempre, numa sexta à noite. Na outra amiga de anos 80 que revejo andando em Santa Teresa. Na minha genitora, na minha cunhada, na Brenda-mãe e na Brenda-filha, na Xuxa, na Sasha e na Sassá. As rugas estão invadindo o planeta.
Ou então eu só comecei a percebê-las agora, aos 25 anos, quatro meses e 15 dias.
Uma moça muito bonita, musa do vôlei, me disse certa vez que os 25 são um marco: a partir daí é preciso se cuidar em dobro, pois tudo cairá em progressão geométrica e na metade do tempo. Ela tinha então 25 e eu, 18. Magrinha e de sorriso metálico, eu perguntara para quê serviam todos aqueles cremes que ela tinha na cabeceira, banheiro e bolsa, todos Clarins, Lancôme e afins, quando eu mal passava um mero Vasenol nas pernas. Achava tudo aquilo um exagero, frescura de musa.
Dia desses a reencontrei. Aos 32, está mais linda do que nunca, com a pele morena, mas lisinha, e corpaço de jogadora de vôlei de praia. E eu, aos 25, percebendo as minhas incipientes, mas já existentes linhas de expressão, querendo emagrecer (sempre), catando buracos na agenda para malhar mais, correr etc, tomando sopinha à noite e comprando Nescau Light, olha que coisa ridícula.
No dia seguinte ao reencontro eu escovava os dentes em frente ao espelho quando percebi outro intruso. Sim, ele estava lá, apareceu de repente. Então eu, no ano do jubileu, fui presenteada com meu primeiro fio de cabelo branco! Primeiro achei o máximo. Que maturidade, Uau. Depois lembrei que meu pai já era grisalho aos 28, e a descoberta ficou incômoda. Mas aí cheguei mais perto do espelho e percebi que o patinho feio parecia mais amarelo do que branco. Será que, anos (uma década??!) depois de ter deixado de ser loura, o processo se revertia? Até agora não concluí se o tal fio é branco ou louro. Enquanto eu me decido, o tempo não pára e as rugas se delineiam a cada gargalhada.
É, você percebe que está ficando velha (ou está neurótica demais com isso) quando vai ver "Aos treze" e o que mais a impressiona são os pés-de-galinha da Holly Hunter; quando tudo o que vê na Malu Mader e na Cláudia Abreu fica ao redor dos olhos, pensa que a Demi Moore devia injetar botox perto da boca e inclui a Vera Fischer na mesma categoria do Tarcísio Meira, a dos Maracujás de Gaveta.
Mas tudo bem: até eu envelhecer de verdade já vão ter inventado um photoshop de bolso, um ácido retinóico instantâneo ou um clone do Pitanguy.
Elas estão por toda parte. Na amiga de escola que reencontro, linda como sempre, numa sexta à noite. Na outra amiga de anos 80 que revejo andando em Santa Teresa. Na minha genitora, na minha cunhada, na Brenda-mãe e na Brenda-filha, na Xuxa, na Sasha e na Sassá. As rugas estão invadindo o planeta.
Ou então eu só comecei a percebê-las agora, aos 25 anos, quatro meses e 15 dias.
Uma moça muito bonita, musa do vôlei, me disse certa vez que os 25 são um marco: a partir daí é preciso se cuidar em dobro, pois tudo cairá em progressão geométrica e na metade do tempo. Ela tinha então 25 e eu, 18. Magrinha e de sorriso metálico, eu perguntara para quê serviam todos aqueles cremes que ela tinha na cabeceira, banheiro e bolsa, todos Clarins, Lancôme e afins, quando eu mal passava um mero Vasenol nas pernas. Achava tudo aquilo um exagero, frescura de musa.
Dia desses a reencontrei. Aos 32, está mais linda do que nunca, com a pele morena, mas lisinha, e corpaço de jogadora de vôlei de praia. E eu, aos 25, percebendo as minhas incipientes, mas já existentes linhas de expressão, querendo emagrecer (sempre), catando buracos na agenda para malhar mais, correr etc, tomando sopinha à noite e comprando Nescau Light, olha que coisa ridícula.
No dia seguinte ao reencontro eu escovava os dentes em frente ao espelho quando percebi outro intruso. Sim, ele estava lá, apareceu de repente. Então eu, no ano do jubileu, fui presenteada com meu primeiro fio de cabelo branco! Primeiro achei o máximo. Que maturidade, Uau. Depois lembrei que meu pai já era grisalho aos 28, e a descoberta ficou incômoda. Mas aí cheguei mais perto do espelho e percebi que o patinho feio parecia mais amarelo do que branco. Será que, anos (uma década??!) depois de ter deixado de ser loura, o processo se revertia? Até agora não concluí se o tal fio é branco ou louro. Enquanto eu me decido, o tempo não pára e as rugas se delineiam a cada gargalhada.
É, você percebe que está ficando velha (ou está neurótica demais com isso) quando vai ver "Aos treze" e o que mais a impressiona são os pés-de-galinha da Holly Hunter; quando tudo o que vê na Malu Mader e na Cláudia Abreu fica ao redor dos olhos, pensa que a Demi Moore devia injetar botox perto da boca e inclui a Vera Fischer na mesma categoria do Tarcísio Meira, a dos Maracujás de Gaveta.
Mas tudo bem: até eu envelhecer de verdade já vão ter inventado um photoshop de bolso, um ácido retinóico instantâneo ou um clone do Pitanguy.
terça-feira, outubro 14, 2003
Tá foda. No momento de paz e tranqüilidade que tenho para sentar em frente ao Horácio e tentar jogar umas abobrinhas na tela não vem nenhuma observação interessante sobre essa vida esdrúxula e esse mundinho ignóbil em que vivemos. Não paro de reclamar que preciso de uns dois clones, que não tenho tempo e blábláblá. Mas a semana mal começou e já consegui fazer coisas dignas de Pessoas Inúteis: malhei duas vezes, fui ao salão enfeitar minhas belas mãos e horrorosos pés, li todos os textos da faculdade, comecei a ler um livro, chequei blogs, arrumei uma parte do armário. Até correr eu corri (!). Mas tô sem saco de escrever, tanto aqui quanto no trabalho (sic).
Deve ser fase. Mulher não tem fase pra tudo? Não tem dia de birra, mau-humor, dia de vontade de comer chocolate, fase de crise amorosa (quase uma constante em todas as mulheres que eu conheço), fase de comer alface e malhar desesperadamente, fase de ir pra night, fase de querer ser mãe, fase de não precisar de homens para ser feliz....Então: eu tô numa fase supertranqüila, feliz, balanceada como minha alimentação (errr..), achando que no fim dá tudo certo. Mas com avassaladora preguiça e desânimo para fazer uma das coisas que mais gosto: escrever minhas besteiras. O mundo anda sem graça ou eu é que perdi o bonde? Tá foda.
Deve ser fase. Mulher não tem fase pra tudo? Não tem dia de birra, mau-humor, dia de vontade de comer chocolate, fase de crise amorosa (quase uma constante em todas as mulheres que eu conheço), fase de comer alface e malhar desesperadamente, fase de ir pra night, fase de querer ser mãe, fase de não precisar de homens para ser feliz....Então: eu tô numa fase supertranqüila, feliz, balanceada como minha alimentação (errr..), achando que no fim dá tudo certo. Mas com avassaladora preguiça e desânimo para fazer uma das coisas que mais gosto: escrever minhas besteiras. O mundo anda sem graça ou eu é que perdi o bonde? Tá foda.
quarta-feira, outubro 08, 2003
Mais uma
Saindo da Uerj, ainda acompanhada por minha trupe fashion - sandália branca em dia de dilúvio, bolsa rosa de plástico e guarda-chuva roxo - vejo uma aglomeração em frente à entrada do prédio. Alguns malucos com cadeiras de praia, um tocando violão, outros com cobertor e lanchinho. Encontro dois conhecidos que me explicam: é a fila para as inscrições dos cursos de línguas, que abrem amanhã de manhã.
Aí caio na asneira de mencionar que gostaria de aprender francês.
- Ah, eu fiz um ano aqui, é muito bom. Agora estou fazendo alemão.
- Pôxa, eu queria fazer alemão, mas agora não dá porque estou terminando grego.
- Legal, eu só sei o alfabeto. Mas faz o alemão depois, você vai gostar.
- Depois eu vou fazer japonês.
- Bacana.
Ainda morro disso.
Saindo da Uerj, ainda acompanhada por minha trupe fashion - sandália branca em dia de dilúvio, bolsa rosa de plástico e guarda-chuva roxo - vejo uma aglomeração em frente à entrada do prédio. Alguns malucos com cadeiras de praia, um tocando violão, outros com cobertor e lanchinho. Encontro dois conhecidos que me explicam: é a fila para as inscrições dos cursos de línguas, que abrem amanhã de manhã.
Aí caio na asneira de mencionar que gostaria de aprender francês.
- Ah, eu fiz um ano aqui, é muito bom. Agora estou fazendo alemão.
- Pôxa, eu queria fazer alemão, mas agora não dá porque estou terminando grego.
- Legal, eu só sei o alfabeto. Mas faz o alemão depois, você vai gostar.
- Depois eu vou fazer japonês.
- Bacana.
Ainda morro disso.
Acordo cedo. Chove. Saio do carro e piso numa poça. Quando tiro o pé da lama, passa um carro e me dá aquele banho de água suja. Sigo estarrecida para a Uerj, de sandálias brancas (antes molhar os pés do que estragar o tênis novo), bolsa rosa de plástico e guarda-chuva roxo. Um atentado ambulante ao pudor estético.
Aula de História Contemporânea dada por D. Maria, a Louca. Manda-nos ler 10 textos pra a próxima aula (daqui a dois dias). Boa professora, mas na época da Inquisição estaria literalmente frita.
Saindo da aula, pesco a seguinte frase de um típico barbudo da Uerj, violão a tiracolo, conversando com outro cabeludo num banquinho do corredor do andar de História, Filosofia e Ciências Sociais:
- Você não pode tocar de forma positivista, sacou?
O dia promete.
Aula de História Contemporânea dada por D. Maria, a Louca. Manda-nos ler 10 textos pra a próxima aula (daqui a dois dias). Boa professora, mas na época da Inquisição estaria literalmente frita.
Saindo da aula, pesco a seguinte frase de um típico barbudo da Uerj, violão a tiracolo, conversando com outro cabeludo num banquinho do corredor do andar de História, Filosofia e Ciências Sociais:
- Você não pode tocar de forma positivista, sacou?
O dia promete.
terça-feira, outubro 07, 2003
Annalena
Como alguém pode puxar um gatilho e matar outra pessoa? Eu não entendo. E entendo menos ainda quando a vítima é uma pessoa maravilhosa como Annalena Tonelli, uma mulher de quem quase ninguém ouviu falar.
A italiana de 60 anos era um desses seres humanos privilegiados pela coragem de abrir mão da própria vida para fazer com que outras vidas valham a pena. Ela tinha o tipo de coragem que eu mais admiro e que, na pior faceta da minha covardia, não tenho.
Annalena passou a vida ajudando soropositivos, tuberculosos e mulheres vítimas da mutilação genital, até ser assassinada, anteontem, no Hospital Geral de Borama, que dirigia. (O hospital fica no enclave da Somalilândia, cuja independência da Somália em 1991 não é reconhecida internacionalmente.) Dois seres irracionais e sem alma se aproximaram e um deles disparou dois tiros em sua cabeça.
Ela trabalhava com somalianos havia 33 anos, e era conhecida como “Madre Teresa da Somália”. Fundou uma escola para surdos em Borama e tinha planos de fundar uma para cegos. Já havia sido seqüestrada uma vez e sofrera várias ameaças de morte, mas nada disso a impedia de continuar seus trabalhos de ajuda humanitária. Uma pessoa assim não pode ser esquecida. Quantas Annalenas existem por aqui, no Brasil mesmo, no Rio, no bairro, na rua? Pouquíssimas. Essas, sim, são as pessoas que considero privilegiadas, as que "invejo", no bom sentido, porque são tudo o que eu poderia ser se tivesse coragem. Que Deus a tenha.
Como alguém pode puxar um gatilho e matar outra pessoa? Eu não entendo. E entendo menos ainda quando a vítima é uma pessoa maravilhosa como Annalena Tonelli, uma mulher de quem quase ninguém ouviu falar.
A italiana de 60 anos era um desses seres humanos privilegiados pela coragem de abrir mão da própria vida para fazer com que outras vidas valham a pena. Ela tinha o tipo de coragem que eu mais admiro e que, na pior faceta da minha covardia, não tenho.
Annalena passou a vida ajudando soropositivos, tuberculosos e mulheres vítimas da mutilação genital, até ser assassinada, anteontem, no Hospital Geral de Borama, que dirigia. (O hospital fica no enclave da Somalilândia, cuja independência da Somália em 1991 não é reconhecida internacionalmente.) Dois seres irracionais e sem alma se aproximaram e um deles disparou dois tiros em sua cabeça.
Ela trabalhava com somalianos havia 33 anos, e era conhecida como “Madre Teresa da Somália”. Fundou uma escola para surdos em Borama e tinha planos de fundar uma para cegos. Já havia sido seqüestrada uma vez e sofrera várias ameaças de morte, mas nada disso a impedia de continuar seus trabalhos de ajuda humanitária. Uma pessoa assim não pode ser esquecida. Quantas Annalenas existem por aqui, no Brasil mesmo, no Rio, no bairro, na rua? Pouquíssimas. Essas, sim, são as pessoas que considero privilegiadas, as que "invejo", no bom sentido, porque são tudo o que eu poderia ser se tivesse coragem. Que Deus a tenha.
quarta-feira, outubro 01, 2003
Eu acho a Adriana Calcanhotto uma chata. Sempre lembro daquela música em que ela choramingava que ia quebrar as xícaras e invadir a alma do cara pra ver se ele voltava. Um porre. Mas, como até os chatos - que em geral são bem-intencionados - têm seu valor, descobri uma musiquinha dela que merece a honra de ser postada nesse blog.
Uma graça.
"Depois de ter você / Pra que querer saber / Que horas são?
Se é noite ou faz calor / Se estamos no verão / Se o sol virá ou não /
Ou pra que é que serve uma canção / Como essa?
Depois de ter você / Poetas para que? / Os deuses, as dúvidas?
Para quê amendoeiras pelas ruas?
Para que servem as ruas / Depois de ter você?"
("Cantada")
Uma graça.
"Depois de ter você / Pra que querer saber / Que horas são?
Se é noite ou faz calor / Se estamos no verão / Se o sol virá ou não /
Ou pra que é que serve uma canção / Como essa?
Depois de ter você / Poetas para que? / Os deuses, as dúvidas?
Para quê amendoeiras pelas ruas?
Para que servem as ruas / Depois de ter você?"
("Cantada")
sexta-feira, setembro 26, 2003
Uma dundee na festxeenha do Festival do Rio
Tava meio chuviscando, os repórteres, câmeras e holofotes a postos, e eu ali em pé, totalmente sem graça, fingindo que falava ao celular. Mas o casal que supostamente me encontraria não chegava e o telefone na caixa postal caçoava de mim. Aí apareceu o repórter. Passou reto. Num impulso, segui seu rastro, falei com a mocinha da porta: "Estou com ele", e fui em frente. Saia preta hippie-chic, blusa de rendinha e chinelinho preto, olhar blasè-tímido e lá fui eu, flutuando com cuidado no tapete vermelho que parecia não ter fim. Pela primeira vez na noite, uns poucos me fitaram por segundos, tentando descobrir se aquela solitária na abertura do Festival do Rio era "alguém".
Entrei acompanhada pelo repórter. Como num blind date cinematográfico, eu estava envergonhada e ele, misterioso. Os céus enviaram outro estagiário e sua namorada, ambos de jeans, seres da minha espécie que me acolheram naquele local para Very Important People. Entre minhas preocupações estava fugir do campo de visão de um certo cronista que escreve sobre estagiárias e as barras azuis de suas calcinhas. Fiquei de costas, como se ele realmente se importasse com a minha presença - ou com a minha calcinha.
No burburinho, Guilherme Karam grita "Abre a portaaaaaaaa!", mas só consegue uns risinhos. Depois puxa um "olê olê olê olá/ abreá portá!" que parece surtir mais efeito: mais alguns minutos de empurra-empurra digno de Fla x Flu nos bons tempos de maracanã e entramos na concorridíssima sessão do Odeon para "Encontros e desencontros", da Sofia Coppola.
Bom filme.
A Maria Fernanda Cândido é maravilhosa.
E aí é hora de ir à festa. Penetra de luxo, adentrei o Palácio da Cidade, todo iluminado, com Very Importants saindo pelo ladrão. O casal sensacional que me acompanhava estava candidamente solícito, ótimos baby-sitters. Para onde eu olhava havia sempre uns 75 famosos gargalhando, falando alto, cochichando, bebericando. Certa hora vi-me entre o Tom Hanks da novela, que dizia alguma coisa sobre sua paz de espírito para duas repórteres interessadíssimas no assunto, e uma rodinha eclética com alguns atores de Amarelo Manga. Deborah Colker comentou o filme afirmando que era sutil ou algo que o valha, ao que o elenco de Amarelo Manga reagiu. Não, sutil era o filme da Sofia Coppola, não o pernambucano que mostra um boi sendo morto e um gato lambendo vômito. Ah, bom. Risos sonoros.
Um cidadão diz que Dira Paes é chocolate com manga. Risos novamente, dessa vez mais estrondosos. Ser feliz é chique, é cool, é in.
E eu precisava de mais um Chandonzinho. Saí em busca de um copo limpo qualquer, até ser acudida pela pessoa mais bacana da festa, um garçom que, abrindo espaço no meio do elenco da novela das oito, trouxe-me uma taça de champanhe e um sorriso - o mesmo que mais tarde daria ao reservar três pratos de arroz marrom para meu casal sensacional e eu.
Mais à frente, uma loura de uns três metros de altura se destacava no meio de uma rodinha. Perguntei a minha amiga: Who the hell? Sei lá, ela respondeu. Nunca vi, não deve ser ninguém. Como assim uma loura alta não é ninguém? Espírito da noite: se você não aparece na TV, nem que seja num comercial das Facas Guinso, não é comentado nem na Contigo e não assina nada no jornal, você não é ninguém. Você não interessa. Eu, por exemplo, estagiária e penetra da pior estirpe (do tipo que gruda na mesa de fondue e persegue os garçons dos melhores canapés), não era ninguém. Aos poucos que era apresentada, recebia o aposto devido: Renata, a Estagiária.
Mas acho que enganei alguns direitinho. O Antônio Pitanga, por exemplo. Olhei para ele enquanto passava, ele fez aquele ar de quem pergunta "Quem é essa aí?", e me cumprimentou. Talvez por simpatia; mais provavelmente para não correr o risco de cometer uma gafe ao não cumprimentar alguma nova celebridade - ele, que provavelmente não assiste Malhação, não poderia ter certeza de quem é ou não celebridade. Se você está ali, arrumadinha e de gloss cintilando, há grandes chances de que seja famosa.
De vez em quando eu esbarrava com mortais: um do colégio, uns três da faculdade, dois ex-colegas de trabalho, uma ex-chefe. Mas logo em seguida dava de cara com um indivíduo portando uma bolsa de plástico brilhante, uma cidadã fantasiada de pin-up ou um gatão de blusa rosa e saia, e os personagens me traziam de volta ao mundo do red carpet, flashes pipocantes e uísque caro.
Euzinha, destituída de qualquer vestígio de glamour, eu que nunca tinha pisado num tapete vermelho e sempre passei longe da fila até do feijão, eu estava ali, na fila do champanhe, comendo risoto de funghi secchi com aquele bando de bacanas que se acham bacanas, e devem ser mesmo. Era tudo muito engraçado.
Jovem e velha guardas misturavam-se pelos cantos, como Marcus Faustini e Sérgio Britto numa divertida prosa no sofá, casais se formavam, e Renata, a Estagiária, esbaldava-se na pista dançando "Besta é tu besta é tu, besta é tu besta é tu". Acenderam as luzes e, antes que começasse a tocar Andança, tratei de voltar para casa. Com a certeza de que uma das melhores coisas da vida é o anonimato - principalmente quando vem acompanhado de uma boa boca-livre.
Tava meio chuviscando, os repórteres, câmeras e holofotes a postos, e eu ali em pé, totalmente sem graça, fingindo que falava ao celular. Mas o casal que supostamente me encontraria não chegava e o telefone na caixa postal caçoava de mim. Aí apareceu o repórter. Passou reto. Num impulso, segui seu rastro, falei com a mocinha da porta: "Estou com ele", e fui em frente. Saia preta hippie-chic, blusa de rendinha e chinelinho preto, olhar blasè-tímido e lá fui eu, flutuando com cuidado no tapete vermelho que parecia não ter fim. Pela primeira vez na noite, uns poucos me fitaram por segundos, tentando descobrir se aquela solitária na abertura do Festival do Rio era "alguém".
Entrei acompanhada pelo repórter. Como num blind date cinematográfico, eu estava envergonhada e ele, misterioso. Os céus enviaram outro estagiário e sua namorada, ambos de jeans, seres da minha espécie que me acolheram naquele local para Very Important People. Entre minhas preocupações estava fugir do campo de visão de um certo cronista que escreve sobre estagiárias e as barras azuis de suas calcinhas. Fiquei de costas, como se ele realmente se importasse com a minha presença - ou com a minha calcinha.
No burburinho, Guilherme Karam grita "Abre a portaaaaaaaa!", mas só consegue uns risinhos. Depois puxa um "olê olê olê olá/ abreá portá!" que parece surtir mais efeito: mais alguns minutos de empurra-empurra digno de Fla x Flu nos bons tempos de maracanã e entramos na concorridíssima sessão do Odeon para "Encontros e desencontros", da Sofia Coppola.
Bom filme.
A Maria Fernanda Cândido é maravilhosa.
E aí é hora de ir à festa. Penetra de luxo, adentrei o Palácio da Cidade, todo iluminado, com Very Importants saindo pelo ladrão. O casal sensacional que me acompanhava estava candidamente solícito, ótimos baby-sitters. Para onde eu olhava havia sempre uns 75 famosos gargalhando, falando alto, cochichando, bebericando. Certa hora vi-me entre o Tom Hanks da novela, que dizia alguma coisa sobre sua paz de espírito para duas repórteres interessadíssimas no assunto, e uma rodinha eclética com alguns atores de Amarelo Manga. Deborah Colker comentou o filme afirmando que era sutil ou algo que o valha, ao que o elenco de Amarelo Manga reagiu. Não, sutil era o filme da Sofia Coppola, não o pernambucano que mostra um boi sendo morto e um gato lambendo vômito. Ah, bom. Risos sonoros.
Um cidadão diz que Dira Paes é chocolate com manga. Risos novamente, dessa vez mais estrondosos. Ser feliz é chique, é cool, é in.
E eu precisava de mais um Chandonzinho. Saí em busca de um copo limpo qualquer, até ser acudida pela pessoa mais bacana da festa, um garçom que, abrindo espaço no meio do elenco da novela das oito, trouxe-me uma taça de champanhe e um sorriso - o mesmo que mais tarde daria ao reservar três pratos de arroz marrom para meu casal sensacional e eu.
Mais à frente, uma loura de uns três metros de altura se destacava no meio de uma rodinha. Perguntei a minha amiga: Who the hell? Sei lá, ela respondeu. Nunca vi, não deve ser ninguém. Como assim uma loura alta não é ninguém? Espírito da noite: se você não aparece na TV, nem que seja num comercial das Facas Guinso, não é comentado nem na Contigo e não assina nada no jornal, você não é ninguém. Você não interessa. Eu, por exemplo, estagiária e penetra da pior estirpe (do tipo que gruda na mesa de fondue e persegue os garçons dos melhores canapés), não era ninguém. Aos poucos que era apresentada, recebia o aposto devido: Renata, a Estagiária.
Mas acho que enganei alguns direitinho. O Antônio Pitanga, por exemplo. Olhei para ele enquanto passava, ele fez aquele ar de quem pergunta "Quem é essa aí?", e me cumprimentou. Talvez por simpatia; mais provavelmente para não correr o risco de cometer uma gafe ao não cumprimentar alguma nova celebridade - ele, que provavelmente não assiste Malhação, não poderia ter certeza de quem é ou não celebridade. Se você está ali, arrumadinha e de gloss cintilando, há grandes chances de que seja famosa.
De vez em quando eu esbarrava com mortais: um do colégio, uns três da faculdade, dois ex-colegas de trabalho, uma ex-chefe. Mas logo em seguida dava de cara com um indivíduo portando uma bolsa de plástico brilhante, uma cidadã fantasiada de pin-up ou um gatão de blusa rosa e saia, e os personagens me traziam de volta ao mundo do red carpet, flashes pipocantes e uísque caro.
Euzinha, destituída de qualquer vestígio de glamour, eu que nunca tinha pisado num tapete vermelho e sempre passei longe da fila até do feijão, eu estava ali, na fila do champanhe, comendo risoto de funghi secchi com aquele bando de bacanas que se acham bacanas, e devem ser mesmo. Era tudo muito engraçado.
Jovem e velha guardas misturavam-se pelos cantos, como Marcus Faustini e Sérgio Britto numa divertida prosa no sofá, casais se formavam, e Renata, a Estagiária, esbaldava-se na pista dançando "Besta é tu besta é tu, besta é tu besta é tu". Acenderam as luzes e, antes que começasse a tocar Andança, tratei de voltar para casa. Com a certeza de que uma das melhores coisas da vida é o anonimato - principalmente quando vem acompanhado de uma boa boca-livre.
segunda-feira, setembro 22, 2003
Há de haver algum lugar/ Um confuso casarão/ Onde os sonhos serão reais/ E a vida não...
Um lugar deve existir/ Uma espécie de bazar/ Onde os sonhos extraviados/ Vão parar/
Entre escadas que fogem dos pés/ E relógios que rodam pra trás...
Edu Lobo & Chico Buarque, em "A moça do sonho", maravilhosamente cantada por Maria Bethânia.
Um lugar deve existir/ Uma espécie de bazar/ Onde os sonhos extraviados/ Vão parar/
Entre escadas que fogem dos pés/ E relógios que rodam pra trás...
Edu Lobo & Chico Buarque, em "A moça do sonho", maravilhosamente cantada por Maria Bethânia.
sexta-feira, setembro 19, 2003
No instrutivo templo da beleza nas Laranjeiras
É impressionante como eles conseguem acertar: uma revista de salão (essa categoria reúne várias modalidades de publicações periódicas, como Beleza, Fofoca, Sexo, Novela e Variedades - que, por sua vez, engloba todas as anteriores) pode ser lida (sic) no tempo exato em que se realiza depilação da perna inteira, pé & mão ou um tratamento (corte/ tintura/escova/hidratação) nos cabelos. Esse povo das Revistas de Salão deve ter feito pesquisas minuciosas sobre o assunto.
Hoje eu li (sic) a "Nova" de setembro, inteira, durante o tempo de depilação completa das pernas - e olha que depilar quase 2,20 de pernas não é tão rapidinho assim. Em seguida, durante a feitura das unhas de pés & mãos, degluti duas "Caras".
Instruí-me sobre atualidades (gente, a Carolina Dieckmann acabou mesmo com o Marcos Frota, tadinho, e anda sentando no colinho do Dado Dolabella, que por sua vez terminou messsmo com a Deborah Secco, mas eles são ainda suuuperamigos). Descobri que, segundo os astros, Mercúrio está do meu lado e este mês é perfeito para relaxar e cuidar de mim. Aprendi a Dieta do Índice Glicêmico, que vai me deixar ma-ra-vi-lho-sa em três semanas, sem sacrifícios, e a Ginástica dos Oito Minutos, que vai "modelar e tonificar" o meu corpitcho mais do que qualquer outro exercício (!!).
Mas o mais bacana foi me inteirar das novidades na seção mais cultuada (na verdade, a seção única) da "Nova": sexo. Há dicas primorosas para você realizar as fantasias de seu amado, de prostituta tailandesa a noviça carmelita; ensinam, ainda, sob o título Eu durmo com o seu namorado, como fugir de uma mulher como X., 25 anos, devoradora compulsiva de homens alheios (!); há depoimentos emocionantes como o de Y., ex-evangélica que vivia no conforto do lar, trocou tudo por uma paixão louca, juntou-se a um stripper e hoje dança em bares de swing; além de um magnífico roteiro com toques tipo "transforme sua escova de dentes elétrica em um vibrador de alta potência".
Depois de tão edificante leitura, terminada calculadamente no momento em que as unhas ficaram prontas, pus-me a folhear uma segunda "Caras" enquanto esperava o esmalte secar. E então tive a sorte de passar os olhos no que considerei a Frase do Ano, proferida pela poderosérrima Dani, a Cicarelli: "Uma linda jóia é capaz de transformar uma mulher". Uau.
Um par de horas, trinta e três reais e muitas novas teorias femininas depois de ter entrado no salão, levantei-me, esmalte seco, dedos ridiculamente esticados para não borrar (toda mulher entende o que quero dizer), e dei aquela olhadinha no espelho, que sem dúvida estava mais cooperativo do que à minha chegada. Depois de ver 177 fotos de Gisele Bündchen, 58 de Maria Fernanda Cândido, 39 de desconhecidas satisfeitas com suas vidas e 24 de ex-gordinhas felizes e vencedoras, até que me regozijei em minha depilada e rutilante silhueta de simples mortal que dá pro gasto.
Viva as Revistas de Salão. O ritual pagão favorito das fêmeas não seria tão aprazível sem elas.
É impressionante como eles conseguem acertar: uma revista de salão (essa categoria reúne várias modalidades de publicações periódicas, como Beleza, Fofoca, Sexo, Novela e Variedades - que, por sua vez, engloba todas as anteriores) pode ser lida (sic) no tempo exato em que se realiza depilação da perna inteira, pé & mão ou um tratamento (corte/ tintura/escova/hidratação) nos cabelos. Esse povo das Revistas de Salão deve ter feito pesquisas minuciosas sobre o assunto.
Hoje eu li (sic) a "Nova" de setembro, inteira, durante o tempo de depilação completa das pernas - e olha que depilar quase 2,20 de pernas não é tão rapidinho assim. Em seguida, durante a feitura das unhas de pés & mãos, degluti duas "Caras".
Instruí-me sobre atualidades (gente, a Carolina Dieckmann acabou mesmo com o Marcos Frota, tadinho, e anda sentando no colinho do Dado Dolabella, que por sua vez terminou messsmo com a Deborah Secco, mas eles são ainda suuuperamigos). Descobri que, segundo os astros, Mercúrio está do meu lado e este mês é perfeito para relaxar e cuidar de mim. Aprendi a Dieta do Índice Glicêmico, que vai me deixar ma-ra-vi-lho-sa em três semanas, sem sacrifícios, e a Ginástica dos Oito Minutos, que vai "modelar e tonificar" o meu corpitcho mais do que qualquer outro exercício (!!).
Mas o mais bacana foi me inteirar das novidades na seção mais cultuada (na verdade, a seção única) da "Nova": sexo. Há dicas primorosas para você realizar as fantasias de seu amado, de prostituta tailandesa a noviça carmelita; ensinam, ainda, sob o título Eu durmo com o seu namorado, como fugir de uma mulher como X., 25 anos, devoradora compulsiva de homens alheios (!); há depoimentos emocionantes como o de Y., ex-evangélica que vivia no conforto do lar, trocou tudo por uma paixão louca, juntou-se a um stripper e hoje dança em bares de swing; além de um magnífico roteiro com toques tipo "transforme sua escova de dentes elétrica em um vibrador de alta potência".
Depois de tão edificante leitura, terminada calculadamente no momento em que as unhas ficaram prontas, pus-me a folhear uma segunda "Caras" enquanto esperava o esmalte secar. E então tive a sorte de passar os olhos no que considerei a Frase do Ano, proferida pela poderosérrima Dani, a Cicarelli: "Uma linda jóia é capaz de transformar uma mulher". Uau.
Um par de horas, trinta e três reais e muitas novas teorias femininas depois de ter entrado no salão, levantei-me, esmalte seco, dedos ridiculamente esticados para não borrar (toda mulher entende o que quero dizer), e dei aquela olhadinha no espelho, que sem dúvida estava mais cooperativo do que à minha chegada. Depois de ver 177 fotos de Gisele Bündchen, 58 de Maria Fernanda Cândido, 39 de desconhecidas satisfeitas com suas vidas e 24 de ex-gordinhas felizes e vencedoras, até que me regozijei em minha depilada e rutilante silhueta de simples mortal que dá pro gasto.
Viva as Revistas de Salão. O ritual pagão favorito das fêmeas não seria tão aprazível sem elas.
sábado, setembro 13, 2003
Revelações
Todo mundo tem um passado negro. Todo mundo tem pontos obscuros em seu presente. Todo mundo pagará muito mico no futuro. Por isso, por não querer que ninguém se surpreenda com meus vários podres, libero aqui algumas constrangedoras informações sobre a minha pessoa que você, provavelmente, não sabe, e nem faz questão de saber. Se mesmo assim resolver ler, por favor, não se assuste.
Eu já liguei para o Bozo.
Meu sonho era ver o caminhão do Faustão chegando à porta da minha casa.
Eu tenho dois CDs da Mariah Carey.
Eu sei cantar várias músicas da Mariah Carey.
Eu nunca li Dostoievski.
E parei no meio de O Guarani, ao perceber que José de Alencar, apesar de ter inegável valor, é um saco.
Eu nunca quis ser paquita, mas sempre amei a Xuxa.
Eu ainda adoro a Xuxa.
Não há santo que consiga me fazer assoviar. De forma alguma. É meu maior trauma de infância.
Eu tenho três CD’s do Bon Jovi.
Eu sei cantar várias músicas do Bon Jovi.
Eu fui ao shows do Menudo, A-ha e Rod Stewart. E iria de novo.
A porta do meu quarto era Menudo de cima a baixo e eu era apaixonada pelo Charlie.
Depois me apaixonei pelo Axl Rose.
Eu ainda durmo agarrada a um ursinho marrom com laço vermelho e focinho descosturado (mas nada é pior do que o Juca xexelento da Brenda).
Eu adoro a Alanis Morissette.
Eu não sei quem é Tom Waits.
O meu dedo do pé ao lado do dedão é muito feio.
Apesar das brincadeiras pacíficas com minhas 11 Barbies e meus 9 Kens e Bobs, eu tive meu momento mórbido ao fazer de homem-bomba um inocente playmobil.
Eu chorei em Procurando Nemo (quem viu o filme sabe o quanto isso é grave).
Eu converso com a Tiffany, minha cadelinha.
Eu tenho certeza de que ela me entende.
Eu cato granulados do brigadeiro e seco o frango e a pizza com guardanapo.
Eu nego, mas sou supersticiosa.
Tentando lutar contra isso, uma bela manhã passei debaixo de uma escada. Fui demitida à tarde.
Apesar de não acreditar e meter o pau, eu dou aquelas olhadinhas no horóscopo. “É engraçado” é a desculpa.
Eu sou hipócrita.
Eu queria ser a Penélope Charmosa.
Depois, eu queria ser a Larque da Turma da Pesada.
Mais tarde, eu queria ser a Felicity.
Eu adoro o Cozumel de segunda-feira.
Eu me amo, mas tenho meus complexos.
Se pudesse, mudaria uns 80% do meu corpo.
Eu não sei o que eu quero ser quando crescer.
Eu não quero crescer.
Estou adorando ouvir Robbie Williams.
Eu tenho medo de fantasma.
Eu detestei Amarelo Manga. Cult uma ova, aquilo é ruim mesmo.
Eu nunca fui a bonitinha da turma no colégio.
Nem da faculdade.
Eu tenho dois CD’s da Celine Dion.
Eu sei cantar pelo menos umas cinco músicas da Celine Dion.
Sempre que vou tomar banho acho que o gás vai explodir. É uma das minhas neuroses controladas.
Eu tenho total pavor de baratas. É uma das minhas neuroses não-controladas.
Eu vi Titanic duas vezes. Chorei muito nas duas.
Eu tenho o CD de Titanic.
Depois dessa, chega. Mais que isso é muita autoflagelação.
Todo mundo tem um passado negro. Todo mundo tem pontos obscuros em seu presente. Todo mundo pagará muito mico no futuro. Por isso, por não querer que ninguém se surpreenda com meus vários podres, libero aqui algumas constrangedoras informações sobre a minha pessoa que você, provavelmente, não sabe, e nem faz questão de saber. Se mesmo assim resolver ler, por favor, não se assuste.
Eu já liguei para o Bozo.
Meu sonho era ver o caminhão do Faustão chegando à porta da minha casa.
Eu tenho dois CDs da Mariah Carey.
Eu sei cantar várias músicas da Mariah Carey.
Eu nunca li Dostoievski.
E parei no meio de O Guarani, ao perceber que José de Alencar, apesar de ter inegável valor, é um saco.
Eu nunca quis ser paquita, mas sempre amei a Xuxa.
Eu ainda adoro a Xuxa.
Não há santo que consiga me fazer assoviar. De forma alguma. É meu maior trauma de infância.
Eu tenho três CD’s do Bon Jovi.
Eu sei cantar várias músicas do Bon Jovi.
Eu fui ao shows do Menudo, A-ha e Rod Stewart. E iria de novo.
A porta do meu quarto era Menudo de cima a baixo e eu era apaixonada pelo Charlie.
Depois me apaixonei pelo Axl Rose.
Eu ainda durmo agarrada a um ursinho marrom com laço vermelho e focinho descosturado (mas nada é pior do que o Juca xexelento da Brenda).
Eu adoro a Alanis Morissette.
Eu não sei quem é Tom Waits.
O meu dedo do pé ao lado do dedão é muito feio.
Apesar das brincadeiras pacíficas com minhas 11 Barbies e meus 9 Kens e Bobs, eu tive meu momento mórbido ao fazer de homem-bomba um inocente playmobil.
Eu chorei em Procurando Nemo (quem viu o filme sabe o quanto isso é grave).
Eu converso com a Tiffany, minha cadelinha.
Eu tenho certeza de que ela me entende.
Eu cato granulados do brigadeiro e seco o frango e a pizza com guardanapo.
Eu nego, mas sou supersticiosa.
Tentando lutar contra isso, uma bela manhã passei debaixo de uma escada. Fui demitida à tarde.
Apesar de não acreditar e meter o pau, eu dou aquelas olhadinhas no horóscopo. “É engraçado” é a desculpa.
Eu sou hipócrita.
Eu queria ser a Penélope Charmosa.
Depois, eu queria ser a Larque da Turma da Pesada.
Mais tarde, eu queria ser a Felicity.
Eu adoro o Cozumel de segunda-feira.
Eu me amo, mas tenho meus complexos.
Se pudesse, mudaria uns 80% do meu corpo.
Eu não sei o que eu quero ser quando crescer.
Eu não quero crescer.
Estou adorando ouvir Robbie Williams.
Eu tenho medo de fantasma.
Eu detestei Amarelo Manga. Cult uma ova, aquilo é ruim mesmo.
Eu nunca fui a bonitinha da turma no colégio.
Nem da faculdade.
Eu tenho dois CD’s da Celine Dion.
Eu sei cantar pelo menos umas cinco músicas da Celine Dion.
Sempre que vou tomar banho acho que o gás vai explodir. É uma das minhas neuroses controladas.
Eu tenho total pavor de baratas. É uma das minhas neuroses não-controladas.
Eu vi Titanic duas vezes. Chorei muito nas duas.
Eu tenho o CD de Titanic.
Depois dessa, chega. Mais que isso é muita autoflagelação.
A crônica de um amor partido
*Marcos Loveme Tendler
Deve ser realmente uma coisa completamente inacessível esse tal de amor. Pelo menos o que eu acredito que seja isso. É claro que eu entendo que, quando se gosta de alguém, naturalmente se quer esse amor só pra si. Mas e daí? O que o meu amor tem com esse sentimento de posse? Por que não usar a força do amor pra nos transformar em vez de, por amor, querer mudar quem se ama?!
O mais poderoso dos sentimentos - ou será dos sentidos? -, essa energia incontrolável que nos leva a cometer loucuras, às vezes over, às vezes nem tão loucas assim, é realmente a cola que nos faz andar juntos. Não necessariamente pra frente, mas juntos.
Será que é tão difícil de entender? Ou sou eu que ainda não aprendi a amar? Eis a questão. E o que os meus desejos têm com o meu amor?! É tão estranho assim, amar e não desejar da mesma forma, ou é a fôrma do meu amor que está fora de forma? Afinal que porra de fôrma é essa, que quem se ama tanto deseja, enquanto o amante não sabe a receita? Pelo visto esse bolo tá mais solado que tijolo velho, ou então eu ando amando errado.
Não adianta achar que o meu amor é capaz de mudar alguém que não seja eu. Ainda que eu não saiba esperar dessa forma. Quem ler isso aqui vai me achar o mais loveless... que pena. Não sabe o valor de passar por tudo isso e ainda querer voltar pro bis! Até que a caixa acabe e tudo não passe de um monte de papeizinhos azuis amassados & enrolados em celofane rumo ao lixo.
Até que eu dê um sentido a essa crônica nada vai ter mudado; não há sentido em continuar tentando errado, achar alguém pra ficar do meu lado. Melhor é escrever, salvar e deixar isso tudo ocupando espaço na memória do que achar que naquele 286 guardado no fundo da garagem vai rodar o Windows XP.
*elucubrado por meu amigo Tendler, rapaz carente em busca de aventuras sórdidas mais acessíveis do que esse tal de amor
*Marcos Loveme Tendler
Deve ser realmente uma coisa completamente inacessível esse tal de amor. Pelo menos o que eu acredito que seja isso. É claro que eu entendo que, quando se gosta de alguém, naturalmente se quer esse amor só pra si. Mas e daí? O que o meu amor tem com esse sentimento de posse? Por que não usar a força do amor pra nos transformar em vez de, por amor, querer mudar quem se ama?!
O mais poderoso dos sentimentos - ou será dos sentidos? -, essa energia incontrolável que nos leva a cometer loucuras, às vezes over, às vezes nem tão loucas assim, é realmente a cola que nos faz andar juntos. Não necessariamente pra frente, mas juntos.
Será que é tão difícil de entender? Ou sou eu que ainda não aprendi a amar? Eis a questão. E o que os meus desejos têm com o meu amor?! É tão estranho assim, amar e não desejar da mesma forma, ou é a fôrma do meu amor que está fora de forma? Afinal que porra de fôrma é essa, que quem se ama tanto deseja, enquanto o amante não sabe a receita? Pelo visto esse bolo tá mais solado que tijolo velho, ou então eu ando amando errado.
Não adianta achar que o meu amor é capaz de mudar alguém que não seja eu. Ainda que eu não saiba esperar dessa forma. Quem ler isso aqui vai me achar o mais loveless... que pena. Não sabe o valor de passar por tudo isso e ainda querer voltar pro bis! Até que a caixa acabe e tudo não passe de um monte de papeizinhos azuis amassados & enrolados em celofane rumo ao lixo.
Até que eu dê um sentido a essa crônica nada vai ter mudado; não há sentido em continuar tentando errado, achar alguém pra ficar do meu lado. Melhor é escrever, salvar e deixar isso tudo ocupando espaço na memória do que achar que naquele 286 guardado no fundo da garagem vai rodar o Windows XP.
*elucubrado por meu amigo Tendler, rapaz carente em busca de aventuras sórdidas mais acessíveis do que esse tal de amor
quinta-feira, setembro 11, 2003
O bloco da eu sozinha
Às vezes eu me basto.
Amo gente e acho que as pessoas são a matéria prima da vida. São o que vale nessa existência, além da lua, do pôr-do-sol e outras coisas bregas e indispensáveis. Mas às vezes não preciso delas. Às vezes um papel e uma caneta, um livro, um computador ou um saco de pipoca no cinema são suficientes para a minha felicidade.
Adoro ver um filme sozinha. Adoro sentar e escrever barbaridades sem que ninguém por perto note minha presença. É bom saber que a minha companhia é sempre bem-vinda. Afinal, eu sou uma moça bacana e, tirando alguns momentos de extrema auto-imolação, em geral eu mando bem comigo.
Ir à praia sozinha, num lugar tranqüilo: isso é o paraíso. Ninguém reparando em você e na sua indumentária, ninguém contando suas celulites e dobras na barriga, ninguém na frente do seu sol. É só você, Deus, a areia, o mar. Isso para mim é meditar. Não que eu saiba realmente meditar: eu paro, respiro e dou uma viajada. Fácil. É só não ter nenhum ser humano carente de atenção nas redondezas. Porque senão meus planos vão por água abaixo: tenho esse vício de dar atenção às pessoas.
Hoje a minha solidão está muito bem acompanhada por um cara charmosão que até hoje se lamenta de não ter me conhecido. Vinícius morreu quando eu tinha dois anos de idade. Ele sabia o que era ser romântico. Duvido que alguém escreva as palavras coração, mulher, flor e lua tantas vezes quanto ele sem cair na pieguice. Um homem que, às vésperas de uma guerra mundial, escreve o Soneto da Fidelidade para sua amada é um homem que merece fazer parte de meu momento eremita e ser minha única ligação com o mundo dos terráqueos, esses seres estranhos.
É por isso que, num instante como esse, de vacuidade e sono, muito sono de alma cansada por não ter certeza de quase nada, ele me acompanha, me convencendo de que é melhor ser alegre que ser triste, me embalando na valsa para o ausente, insistindo que a mulher amada determina os meridianos e me pedindo que seja sua namorada.
E assim, sozinha, mas com Deus e ouvindo Vinícius: eu me basto.
Às vezes eu me basto.
Amo gente e acho que as pessoas são a matéria prima da vida. São o que vale nessa existência, além da lua, do pôr-do-sol e outras coisas bregas e indispensáveis. Mas às vezes não preciso delas. Às vezes um papel e uma caneta, um livro, um computador ou um saco de pipoca no cinema são suficientes para a minha felicidade.
Adoro ver um filme sozinha. Adoro sentar e escrever barbaridades sem que ninguém por perto note minha presença. É bom saber que a minha companhia é sempre bem-vinda. Afinal, eu sou uma moça bacana e, tirando alguns momentos de extrema auto-imolação, em geral eu mando bem comigo.
Ir à praia sozinha, num lugar tranqüilo: isso é o paraíso. Ninguém reparando em você e na sua indumentária, ninguém contando suas celulites e dobras na barriga, ninguém na frente do seu sol. É só você, Deus, a areia, o mar. Isso para mim é meditar. Não que eu saiba realmente meditar: eu paro, respiro e dou uma viajada. Fácil. É só não ter nenhum ser humano carente de atenção nas redondezas. Porque senão meus planos vão por água abaixo: tenho esse vício de dar atenção às pessoas.
Hoje a minha solidão está muito bem acompanhada por um cara charmosão que até hoje se lamenta de não ter me conhecido. Vinícius morreu quando eu tinha dois anos de idade. Ele sabia o que era ser romântico. Duvido que alguém escreva as palavras coração, mulher, flor e lua tantas vezes quanto ele sem cair na pieguice. Um homem que, às vésperas de uma guerra mundial, escreve o Soneto da Fidelidade para sua amada é um homem que merece fazer parte de meu momento eremita e ser minha única ligação com o mundo dos terráqueos, esses seres estranhos.
É por isso que, num instante como esse, de vacuidade e sono, muito sono de alma cansada por não ter certeza de quase nada, ele me acompanha, me convencendo de que é melhor ser alegre que ser triste, me embalando na valsa para o ausente, insistindo que a mulher amada determina os meridianos e me pedindo que seja sua namorada.
E assim, sozinha, mas com Deus e ouvindo Vinícius: eu me basto.
quarta-feira, setembro 10, 2003
sexta-feira, setembro 05, 2003
maketradefair.com
God give me style and give me grace
God put a smile upon my face
Cara. CATARSE. Absurdo.
Estou com medo de dizer que foi o melhor, então: um dos melhores shows da minha vida.
E eu não tenho palavras. E sobrevivi. Nem cortei os pulsos, sorri abundantemente, dancei comigo e com o Chris Martin, flutuei em luzes verdes. Os olhos só encheram em "In my place", sei lá por quê.
Mas tenho CERTEZA de que ele leu meu blog. O cara fez exatamente isso:
"Repita várias vezes, debulhando-se em lágrimas:
So come on, yeah
Oh, oh, yeah
Come on, yeah
And everything's not lost
Oh, oh, yeah
Oh, oh, yeah
Oh, oh, yeah
And everything's not lost
Come on, yeah
Oh, oh, yeah
Sing out, yeah
Oh, oh, yeah
And everything's not lost "
Como eu pedi ontem.
Só sei que são quase duas e eu vou me ferrar. Tenho que terminar um trabalho agora e acordar às 10 pras 7h. E eu não tenho palavras. Mas o show foi IMPONDERÁVEL. CATÁRTICO. APOCALÍPTICO. Tava tão bom que DOEU quando acabou. Acabou? Tô ouvindo até agora, soundtrack do trabalho de Arquivística: Running in circles/Coming up tails/Heads on a silence apart/Nobody said it was easy......
Só faltou meu boy para dividir o momento.
God give me style and give me grace
God put a smile upon my face
Cara. CATARSE. Absurdo.
Estou com medo de dizer que foi o melhor, então: um dos melhores shows da minha vida.
E eu não tenho palavras. E sobrevivi. Nem cortei os pulsos, sorri abundantemente, dancei comigo e com o Chris Martin, flutuei em luzes verdes. Os olhos só encheram em "In my place", sei lá por quê.
Mas tenho CERTEZA de que ele leu meu blog. O cara fez exatamente isso:
"Repita várias vezes, debulhando-se em lágrimas:
So come on, yeah
Oh, oh, yeah
Come on, yeah
And everything's not lost
Oh, oh, yeah
Oh, oh, yeah
Oh, oh, yeah
And everything's not lost
Come on, yeah
Oh, oh, yeah
Sing out, yeah
Oh, oh, yeah
And everything's not lost "
Como eu pedi ontem.
Só sei que são quase duas e eu vou me ferrar. Tenho que terminar um trabalho agora e acordar às 10 pras 7h. E eu não tenho palavras. Mas o show foi IMPONDERÁVEL. CATÁRTICO. APOCALÍPTICO. Tava tão bom que DOEU quando acabou. Acabou? Tô ouvindo até agora, soundtrack do trabalho de Arquivística: Running in circles/Coming up tails/Heads on a silence apart/Nobody said it was easy......
Só faltou meu boy para dividir o momento.
quinta-feira, setembro 04, 2003
Música Para Cortar os Pulsos
É hoje. Tem que ser muito louco para pagar R$ 60 pra ouvir trilha sonora de suicídio. Mas eu sou. Vou ver sparks everywhere e cantar
I wanna fly, never come down,
And live my life,
And have friends around
We never change, do we?
Afastem os objetos cortantes.
I was scared, I was scared
Tired and underprepared
But I wait for you
Oh, we're sinking like stones,
All that we fought for,
All those places we've gone,
All of us are done for.
E amanhã o dia vai nascer melancolicamente yellow e com maquiagem borrada.
***
Mas agora cante comigo, aos prantos:
Everything's not lost
When I counted up my demons
Saw there was one for every day
With the good ones on my shoulders
I drove the other ones away
So if you ever feel neglected
And if you think that all is lost
I'll be counting up my demons, yeah
Hoping everything's not lost
When you thought that it was over
You could feel it all around
And everybody's out to get you
Don't you let it drag you down
'Cos if you ever feel neglected
And if you think that all is lost
I'll be counting up my demons, yeah
Hoping everything's not lost (2x)
Singing out
Oh, oh, oh, yeah
Oh, oh, yeah
Oh, oh, yeah
Everything's not lost
Repita várias vezes, debulhando-se em lágrimas:
So come on, yeah
Oh, oh, yeah
Come on, yeah
And everything's not lost
Oh, oh, yeah
Oh, oh, yeah
Oh, oh, yeah
And everything's not lost
Come on, yeah
Oh, oh, yeah
Sing out, yeah
Oh, oh, yeah
And everything's not lost
Depois, coma uma barra inteira de chocolate ou devore um pote de morangos com leite condensado e vá dormir.
É hoje. Tem que ser muito louco para pagar R$ 60 pra ouvir trilha sonora de suicídio. Mas eu sou. Vou ver sparks everywhere e cantar
I wanna fly, never come down,
And live my life,
And have friends around
We never change, do we?
Afastem os objetos cortantes.
I was scared, I was scared
Tired and underprepared
But I wait for you
Oh, we're sinking like stones,
All that we fought for,
All those places we've gone,
All of us are done for.
E amanhã o dia vai nascer melancolicamente yellow e com maquiagem borrada.
***
Mas agora cante comigo, aos prantos:
Everything's not lost
When I counted up my demons
Saw there was one for every day
With the good ones on my shoulders
I drove the other ones away
So if you ever feel neglected
And if you think that all is lost
I'll be counting up my demons, yeah
Hoping everything's not lost
When you thought that it was over
You could feel it all around
And everybody's out to get you
Don't you let it drag you down
'Cos if you ever feel neglected
And if you think that all is lost
I'll be counting up my demons, yeah
Hoping everything's not lost (2x)
Singing out
Oh, oh, oh, yeah
Oh, oh, yeah
Oh, oh, yeah
Everything's not lost
Repita várias vezes, debulhando-se em lágrimas:
So come on, yeah
Oh, oh, yeah
Come on, yeah
And everything's not lost
Oh, oh, yeah
Oh, oh, yeah
Oh, oh, yeah
And everything's not lost
Come on, yeah
Oh, oh, yeah
Sing out, yeah
Oh, oh, yeah
And everything's not lost
Depois, coma uma barra inteira de chocolate ou devore um pote de morangos com leite condensado e vá dormir.
quarta-feira, setembro 03, 2003
Saravá, weblogs
Não sei o que acontece. Chego, sento e fico olhando a melissinha azul jogada ao lado da cama. Aí engulo um pão com queijo cottage, tomo um leite e só quero dormir. Resisto e malho como quem come um doce mesmo sem ter paladar, mas mato uns exercícios de braço (pensar que ganho músculos nos braços com facilidade é um ótimo álibi). Então sento ao computador, abro o Word e ao mesmo tempo a internet.
1, 2, 3 e já!, quem abrir primeiro ganha. O Word sempre vence, mas eu acabo roubando para a internet. E entro no messenger. E leio os blogs, que só fazem aumentar no meu “favoritos”. E checo minhas quatro contas de e-mail. E leio o No Mínimo, dou uma navegadinha cá e acolá, entro no NY Times crente que sou foda. E leio o poema del dia em español, crente que sou mais foda ainda e que meu incipiente espanhol vai evoluir alguma coisa. Mas o que leva mais tempo, principalmente depois que instalei o velox e não tenho que controlar a conta de telefone, são os benditos blogs.
É quase uma neurose obsessivo-compulsiva: assim como seco o peito de frango com um guardanapo para tirar o óleo e cato granulados do brigadeiro (alguém me dá licença de não gostar de granulado?), eu entro na rede e TENHO que ler blogs. E não são só esses aí que compartilho com meus oito leitores (estou evoluindo) nos links lá de baixo não. Dá para contar um aumento de 8% ao mês no número de sites que TENHO que acessar, nem que seja só para dar uma olhada no título do post que não lerei até o fim ou, claro, para deixar um comentário imbecil.
É que ultimamente meus critérios têm ficado muito latos. Não me importo tanto assim em escrever um palavrão ou outro (ontem eu mandei um “isso me deixa puta da vida”, algo impensável quando comecei essa terapia ocupacional do egocêntrico século XXI). Já começo frases com pronomes oblíquos (pecado dos mais sujos, que a Renata de outrora classificaria como digno de sete dias de jejum para penitência). Aos poucos, abandono o “para” e adoto o feioso “pra” - descolado, mas feioso. Não me inibo em escrever posts sem sentido algum, sem um mínimo mote, um gancho qualquer. Sento e escrevo qualquer coisa. Não é assim que são os blogs?
Blogueiros, vocês estão me levando para o mau caminho. Além de procrastinar, eu, após ler tanta coisa bacana (as duas últimas palavras são sintomas de quem acompanha as atrocidades do blog Inventando Dogmas) escrita assim, sem compromisso, começo a achar que eu nem preciso ficar tão preocupada em reler o que escrevi. Ah, quem manda e-mail no estilo bicho-preguiça “vc tb ta a fim?” ou faz :-) para dizer que está feliz não pode ficar grilado se encontrar um errinho ou outro neste blog inútil e despretensioso.
Mas, assim como ler tantos blogs joga meu próprio numa lassidão constante, esse torpor blóguico que me ataca e transforma meus textos em garranchos ineptos adianta alguma coisa, sim. Esse torpor mostra a mim, menina dantes morigerada, de cérebro nodoso e conspícuo orgulho, capaz de obter orgasmos mentais após verborréia desvairada como essa frase, que a lubricidade da vida está em vivê-la, e não em escrevê-la. Me avisa que minha obstinada pudicícia literária não serve pra bulhufas, até porque não tenho cacife suficiente para melindres puristas. Não passo de um engodo que cumpre uma rotina profilática de normalidade e tentativa de inserção num mundo ao qual não pertenço – o dos que escrevem porque essa é sua vida e é assim que se sustentam. Sou parte de uma turba de caprichosos que estão à margem porque não têm oportunidade, são azarados, não se movem ou simplesmente são ruins mesmo. E cada dia eu me encaixo numa das hipóteses.
Não sei o que acontece. Chego, sento e fico olhando a melissinha azul jogada ao lado da cama. Aí engulo um pão com queijo cottage, tomo um leite e só quero dormir. Resisto e malho como quem come um doce mesmo sem ter paladar, mas mato uns exercícios de braço (pensar que ganho músculos nos braços com facilidade é um ótimo álibi). Então sento ao computador, abro o Word e ao mesmo tempo a internet.
1, 2, 3 e já!, quem abrir primeiro ganha. O Word sempre vence, mas eu acabo roubando para a internet. E entro no messenger. E leio os blogs, que só fazem aumentar no meu “favoritos”. E checo minhas quatro contas de e-mail. E leio o No Mínimo, dou uma navegadinha cá e acolá, entro no NY Times crente que sou foda. E leio o poema del dia em español, crente que sou mais foda ainda e que meu incipiente espanhol vai evoluir alguma coisa. Mas o que leva mais tempo, principalmente depois que instalei o velox e não tenho que controlar a conta de telefone, são os benditos blogs.
É quase uma neurose obsessivo-compulsiva: assim como seco o peito de frango com um guardanapo para tirar o óleo e cato granulados do brigadeiro (alguém me dá licença de não gostar de granulado?), eu entro na rede e TENHO que ler blogs. E não são só esses aí que compartilho com meus oito leitores (estou evoluindo) nos links lá de baixo não. Dá para contar um aumento de 8% ao mês no número de sites que TENHO que acessar, nem que seja só para dar uma olhada no título do post que não lerei até o fim ou, claro, para deixar um comentário imbecil.
É que ultimamente meus critérios têm ficado muito latos. Não me importo tanto assim em escrever um palavrão ou outro (ontem eu mandei um “isso me deixa puta da vida”, algo impensável quando comecei essa terapia ocupacional do egocêntrico século XXI). Já começo frases com pronomes oblíquos (pecado dos mais sujos, que a Renata de outrora classificaria como digno de sete dias de jejum para penitência). Aos poucos, abandono o “para” e adoto o feioso “pra” - descolado, mas feioso. Não me inibo em escrever posts sem sentido algum, sem um mínimo mote, um gancho qualquer. Sento e escrevo qualquer coisa. Não é assim que são os blogs?
Blogueiros, vocês estão me levando para o mau caminho. Além de procrastinar, eu, após ler tanta coisa bacana (as duas últimas palavras são sintomas de quem acompanha as atrocidades do blog Inventando Dogmas) escrita assim, sem compromisso, começo a achar que eu nem preciso ficar tão preocupada em reler o que escrevi. Ah, quem manda e-mail no estilo bicho-preguiça “vc tb ta a fim?” ou faz :-) para dizer que está feliz não pode ficar grilado se encontrar um errinho ou outro neste blog inútil e despretensioso.
Mas, assim como ler tantos blogs joga meu próprio numa lassidão constante, esse torpor blóguico que me ataca e transforma meus textos em garranchos ineptos adianta alguma coisa, sim. Esse torpor mostra a mim, menina dantes morigerada, de cérebro nodoso e conspícuo orgulho, capaz de obter orgasmos mentais após verborréia desvairada como essa frase, que a lubricidade da vida está em vivê-la, e não em escrevê-la. Me avisa que minha obstinada pudicícia literária não serve pra bulhufas, até porque não tenho cacife suficiente para melindres puristas. Não passo de um engodo que cumpre uma rotina profilática de normalidade e tentativa de inserção num mundo ao qual não pertenço – o dos que escrevem porque essa é sua vida e é assim que se sustentam. Sou parte de uma turba de caprichosos que estão à margem porque não têm oportunidade, são azarados, não se movem ou simplesmente são ruins mesmo. E cada dia eu me encaixo numa das hipóteses.
terça-feira, setembro 02, 2003
Alcoviteirice
É muito bom terminar o dia com uma palavra nova na cartola. A de hoje é lenocínio. O cara falou, me senti meio ignorante por não saber do que se tratava, mas felizmente percebi os olhares de dúvida entre meus iguais. Ninguém tinha idéia do que aquela expressão bonita, explorar lenocínio, significava. Até que uma alma rechonchuda e sem-vergonha resolveu perguntar - não sem antes deixar claro que todos estavam nas trevas, não só ela. Para os ignorantes como eu: lenicínio pode ser proxenitismo. Ou ainda rufianismo.
Boa noite.
É muito bom terminar o dia com uma palavra nova na cartola. A de hoje é lenocínio. O cara falou, me senti meio ignorante por não saber do que se tratava, mas felizmente percebi os olhares de dúvida entre meus iguais. Ninguém tinha idéia do que aquela expressão bonita, explorar lenocínio, significava. Até que uma alma rechonchuda e sem-vergonha resolveu perguntar - não sem antes deixar claro que todos estavam nas trevas, não só ela. Para os ignorantes como eu: lenicínio pode ser proxenitismo. Ou ainda rufianismo.
Boa noite.
A gente sempre acha que não vai acontecer com a gente, que no final das contas o mundo é justo, o que importa é ser gente boa e quem é legal sempre ganha no final. A gente acredita que, por mais que pise na bola, o mocinho da história, que nem é perfeito, mas pelo menos é simpático e carismático, vai ficar com a mocinha e fugir para um lugar distante dos problemas. Por isso a gente fica meio abalado quando algo que, se não era previsível, era no mínimo possível, acontece. E, mesmo quando esse algo não vem bater na gente, nos abala porque nos identificamos com o alvo do destino ou de seus próprios desatinos, que provavelmente não acreditava que aquilo iria acontecer de verdade. Afinal, apesar de tudo, ele era bom e legal.
Só que o mundo não funciona assim. Não adianta ser legal. Eu me considero uma pessoa bacana e já tomei minhas porradas, inesperadas ou não. Fui cortada da minha primeira seleção brasileira, me machuquei em horas que não podia, tive uma melhor amiga traíra, fui demitida sem explicações após uma seleção de quatro meses e por aí vai. Mas, por mais que tentasse sempre me preparar pra qualquer situação, o pior é sempre inesperado porque no fundo não acreditamos nele. Nessas horas a esperança é um algoz, funciona ao contrário: temos esperança de que, no fim, dá certo.
Mas não dá. E isso me deixa puta da vida.
Só que o mundo não funciona assim. Não adianta ser legal. Eu me considero uma pessoa bacana e já tomei minhas porradas, inesperadas ou não. Fui cortada da minha primeira seleção brasileira, me machuquei em horas que não podia, tive uma melhor amiga traíra, fui demitida sem explicações após uma seleção de quatro meses e por aí vai. Mas, por mais que tentasse sempre me preparar pra qualquer situação, o pior é sempre inesperado porque no fundo não acreditamos nele. Nessas horas a esperança é um algoz, funciona ao contrário: temos esperança de que, no fim, dá certo.
Mas não dá. E isso me deixa puta da vida.
segunda-feira, setembro 01, 2003
sexta-feira, agosto 29, 2003
Eu amo o Rio, chova ou faça sol
Arpoador....Morro Dois Irmãos..."Maneiro"...Leme... Cascata no Meridien..Paço Imperial..."Fala sério"...Mengão....Lapa...Urca..."Cara!"... Praia na Garcia...Pedra da Gávea...biscoito Globo com mate Leão...Matriz..."Falou"...mil cinemas... rock, samba, choro, bossa, funk, forró...Parque Lage...ATL Hall..."Bora?!??".... Baixo Gávea....Corcovado...Cobal....Árvore na Lagoa..."Night"... Apoteose.... água de coco... Prainha... quiosques...Mercadinho São José..."Caraca!"...teatro... rodízio japa, pizza, boteco, churrasco...Canecão...Sindicato....Feira de São Cristóvão...Dias Ferreira...Bob's...Feira Hippie...Cervantes..."Colé?!"...museus...Baía de Guanabara....Jobi..."Beleza!"...CCBB...calçadão...Confeitaria Colombo..."sinistro"...Largo do Boticário....
Mas o melhor de tudo é ter certeza de que o "etc" tende ao infinito nessa cidade inesgotável...Reclamem do tráfego e do tráfico, do lixo, da favela, do barulho, da zona, da polícia, do ladrão, chovam cães, gatos e ornitorrincos: eu amo o Rio.
Arpoador....Morro Dois Irmãos..."Maneiro"...Leme... Cascata no Meridien..Paço Imperial..."Fala sério"...Mengão....Lapa...Urca..."Cara!"... Praia na Garcia...Pedra da Gávea...biscoito Globo com mate Leão...Matriz..."Falou"...mil cinemas... rock, samba, choro, bossa, funk, forró...Parque Lage...ATL Hall..."Bora?!??".... Baixo Gávea....Corcovado...Cobal....Árvore na Lagoa..."Night"... Apoteose.... água de coco... Prainha... quiosques...Mercadinho São José..."Caraca!"...teatro... rodízio japa, pizza, boteco, churrasco...Canecão...Sindicato....Feira de São Cristóvão...Dias Ferreira...Bob's...Feira Hippie...Cervantes..."Colé?!"...museus...Baía de Guanabara....Jobi..."Beleza!"...CCBB...calçadão...Confeitaria Colombo..."sinistro"...Largo do Boticário....
Mas o melhor de tudo é ter certeza de que o "etc" tende ao infinito nessa cidade inesgotável...Reclamem do tráfego e do tráfico, do lixo, da favela, do barulho, da zona, da polícia, do ladrão, chovam cães, gatos e ornitorrincos: eu amo o Rio.
quarta-feira, agosto 27, 2003
sexta-feira, agosto 22, 2003
When half-gods go...
Eu sei, eu sei: uma das grandes tentações que compõem a arte de se ter um blog é a de postar poesias ou textos de outrem assim, sem mais nem menos. Apesar de eu não ter tido tempo esta semana para escrever nada aqui - volta às aulas, compra de material escolar na Casa Mattos, sabe como é -, de qualquer jeito essa poesia eu já queria ter colocado há muito tempo. É uma das minhas favoritas...A primeira estrofe, inclusive, mora no lado esquerdo deste blog e cumpre a difícil missão de substituir Fernando Pessoa.
Give All to Love
GIVE all to love;
Obey thy heart;
Friends, kindred, days,
Estate, good fame,
Plans, credit, and the Muse-
Nothing refuse.
'Tis a brave master;
Let it have scope:
Follow it utterly,
Hope beyond hope:
High and more high
It dives into noon,
With wing unspent,
Untold intent;
But it is a god,
Knows its own path,
And the outlets of the sky.
It was never for the mean;
It requireth courage stout,
Souls above doubt,
Valour unbending:
Such 'twill reward;-
They shall return
More than they were,
And ever ascending.
Leave all for love;
Yet, hear me, yet,
One word more thy heart behoved,
One pulse more of firm endeavour-
Keep thee to-day,
To-morrow, for ever,
Free as an Arab
Of thy beloved.
Cling with life to the maid;
But when the surprise,
First vague shadow of surmise,
Flits across her bosom young,
Of a joy apart from thee,
Free be she, fancy-free;
Nor thou detain her vesture's hem,
Nor the palest rose she flung
From her summer diadem.
Though thou loved her as thyself,
As a self of purer clay;
Though her parting dims the day,
Stealing grace from all alive;
Heartily know,
When half-gods go
The gods arrive.
(Ralph Waldo Emerson)
Eu sei, eu sei: uma das grandes tentações que compõem a arte de se ter um blog é a de postar poesias ou textos de outrem assim, sem mais nem menos. Apesar de eu não ter tido tempo esta semana para escrever nada aqui - volta às aulas, compra de material escolar na Casa Mattos, sabe como é -, de qualquer jeito essa poesia eu já queria ter colocado há muito tempo. É uma das minhas favoritas...A primeira estrofe, inclusive, mora no lado esquerdo deste blog e cumpre a difícil missão de substituir Fernando Pessoa.
Give All to Love
GIVE all to love;
Obey thy heart;
Friends, kindred, days,
Estate, good fame,
Plans, credit, and the Muse-
Nothing refuse.
'Tis a brave master;
Let it have scope:
Follow it utterly,
Hope beyond hope:
High and more high
It dives into noon,
With wing unspent,
Untold intent;
But it is a god,
Knows its own path,
And the outlets of the sky.
It was never for the mean;
It requireth courage stout,
Souls above doubt,
Valour unbending:
Such 'twill reward;-
They shall return
More than they were,
And ever ascending.
Leave all for love;
Yet, hear me, yet,
One word more thy heart behoved,
One pulse more of firm endeavour-
Keep thee to-day,
To-morrow, for ever,
Free as an Arab
Of thy beloved.
Cling with life to the maid;
But when the surprise,
First vague shadow of surmise,
Flits across her bosom young,
Of a joy apart from thee,
Free be she, fancy-free;
Nor thou detain her vesture's hem,
Nor the palest rose she flung
From her summer diadem.
Though thou loved her as thyself,
As a self of purer clay;
Though her parting dims the day,
Stealing grace from all alive;
Heartily know,
When half-gods go
The gods arrive.
(Ralph Waldo Emerson)
quinta-feira, agosto 21, 2003
Asterix e Obelix
Me explica uma coisa: por que as pessoas que escolhem profissões não muito convencionais têm nomes também não muito convencionais? Hoje, para minha glória, finalmente arrumei uma função maneira: fazer uma matéria sobre Marte. Conversei com um astrônomo e um astrofísico - ambos gente boníssima - que atendiam pelas graças de Marcomede e Órmis. Será que as genitoras deles deram um pulo em Plutão antes do parto??
Me explica uma coisa: por que as pessoas que escolhem profissões não muito convencionais têm nomes também não muito convencionais? Hoje, para minha glória, finalmente arrumei uma função maneira: fazer uma matéria sobre Marte. Conversei com um astrônomo e um astrofísico - ambos gente boníssima - que atendiam pelas graças de Marcomede e Órmis. Será que as genitoras deles deram um pulo em Plutão antes do parto??
Herói da resistência
Hoje o Bom dia Brasil deu a seguinte notícia:
"Em represália ao último atentado, Israel matou um líder do Hamas conhecido como 'O Homem-Bomba'. Trata-se de um terrorista suicida que já praticou mais de 20 atentados".
Simplesmente sen-sa-cio-nal.
*Contribuição do amiGo Alexandre Werneck
Hoje o Bom dia Brasil deu a seguinte notícia:
"Em represália ao último atentado, Israel matou um líder do Hamas conhecido como 'O Homem-Bomba'. Trata-se de um terrorista suicida que já praticou mais de 20 atentados".
Simplesmente sen-sa-cio-nal.
*Contribuição do amiGo Alexandre Werneck
segunda-feira, agosto 18, 2003
O Pan, por quem estava lá
Eu ia escrever algo sobre o Pan de Santo Domingo. Já tinha mais ou menos umas idéias do que estava com vontade de dizer. Ia lembrar do Pan de Mar del Plata, de que tive a oportunidade de participar. Foi incrível. Qualquer dia eu conto. Ia falar do time (de vôlei, claro) da República Dominicana, da gordinha Jackson, agora heroína de seu país, e da alegria de ver um time simples e ruinzinho batendo as cubanas cheias de si. Ia falar do Júnior, meu amigo prata no remo, que deu show e só não foi ouro por 37 centésimos - uma remada. E da Juliana Veloso, Rogério Romero, do Bernardinho dando seus pulinhos de raiva com olhos arregalados na semifinal do vôlei masculino. Dos comentaristas bons e perdidos, simpáticos e sabichões. Da falta de papel higiênico na vila olímpica. E de outros detalhes do pouco que vi nesse Pan maluco.
Mas aí eu li o jornal. E vi a matéria do Danone, enviado especial. Não é porque é meu amigo não, mas tá muuuuito boa. Eu acho que, para fazer textos como esse, tem que ter muito bom senso. E saber escrever bem, sem ser piegas. Assim, eu, que vivo achando defeito nos textos do Prosa & Verso, por exemplo, adorei essa matéria sobre a emoção, escrita por um cara que teve o privilégio de ver, na hora, ao vivo, sentimentos estampados no rosto dos atletas, que, vitoriosos ou não, são os únicos que sabem o quanto ralaram para estar lá, os únicos que entendem o verdadeiro sentido das palavras glória, recompensa e decepção no esporte. Vale a pena ler.
Eu ia escrever algo sobre o Pan de Santo Domingo. Já tinha mais ou menos umas idéias do que estava com vontade de dizer. Ia lembrar do Pan de Mar del Plata, de que tive a oportunidade de participar. Foi incrível. Qualquer dia eu conto. Ia falar do time (de vôlei, claro) da República Dominicana, da gordinha Jackson, agora heroína de seu país, e da alegria de ver um time simples e ruinzinho batendo as cubanas cheias de si. Ia falar do Júnior, meu amigo prata no remo, que deu show e só não foi ouro por 37 centésimos - uma remada. E da Juliana Veloso, Rogério Romero, do Bernardinho dando seus pulinhos de raiva com olhos arregalados na semifinal do vôlei masculino. Dos comentaristas bons e perdidos, simpáticos e sabichões. Da falta de papel higiênico na vila olímpica. E de outros detalhes do pouco que vi nesse Pan maluco.
Mas aí eu li o jornal. E vi a matéria do Danone, enviado especial. Não é porque é meu amigo não, mas tá muuuuito boa. Eu acho que, para fazer textos como esse, tem que ter muito bom senso. E saber escrever bem, sem ser piegas. Assim, eu, que vivo achando defeito nos textos do Prosa & Verso, por exemplo, adorei essa matéria sobre a emoção, escrita por um cara que teve o privilégio de ver, na hora, ao vivo, sentimentos estampados no rosto dos atletas, que, vitoriosos ou não, são os únicos que sabem o quanto ralaram para estar lá, os únicos que entendem o verdadeiro sentido das palavras glória, recompensa e decepção no esporte. Vale a pena ler.
sexta-feira, agosto 15, 2003
Eu, mulherzinha, e minha glicose audiovisual
Tá, eu admito: adoro filmes bobocas. A-DO-RO. Eu me delicio com aquelas películas edulcoradas e metidas a comédia que são dignas de, no máximo, uma Sessão da Tarde. Vi bombas como A onda dos sonhos, Como perder um homem em 10 dias, The wedding planner e Tudo para ficar com ele (esses dois últimos são péssimos). Amei Enquanto você dormia e Íntimo e pessoal - desse sei até uns diálogos, assim como de Uma linda mulher. E paremos por aqui porque a lista é extensa.
Adoro filmes-cabeça e afins, mas de tempos em tempos (o intervalo entre os "tempos" é bem curto, pra ser sincera) preciso de um chocolate audiovisual para aumentar a glicose do meu cérebro. Nada como ver um filmeco desses para relaxar: você não pensa, só sente e ri. Mas hoje eu tinha um álibi. Para fugir do dilúvio, parei no Botafogo Escada Shopping e tentei pegar um cineminha - sozinha. Só dava tempo de encarar a beócia da Gwyneth Paltrow (uma mulher que larga o Brad Pitt deve ser no mínimo uma beócia, ainda mais com esse nome inescrupuloso) ganhando milhões de dólares para brincar de aeromoça sob a batuta do Bruno Barreto. Decolei feliz.
E quando eu decolo num filme é pra valer. Viajo mesmo, choro (chorei até em Procurando Nemo e Tarzan), rio, fico com aquele sorriso congelado de palerma e suspiro como uma adolescente.
Hoje, nesse Voando alto (View from the top), suspirei muito. Eu tenho uma facilidade incrível de me identificar com o que não tem nada a ver comigo. Relaciono as situações mais absurdas com as que vivo, vivi ou acho que vou viver. Eu chego a me sentir como a lourinha-do-interior-que-vira-uma-aeromoça-CDF-e-supera-os-obstáculos-e-encontra-o-amor-da-sua-vida-e-tem-que-escolher-entre-o-amor-e-a-carreira-e-é-claro-que-termina-feliz.
Bem, entre um suspiro aqui e um sorriso babaca acolá, cheguei à conclusão de que minha Cleveland talvez seja Belo Horizonte. E que também quero muito ir a Paris, mas a minha vida sem ele é uma sala de espera. Quando os olhos estão prestes a transbordar, surge o imbecilóide do Mike Myers e me acorda com suas caretas estúpidas e sem a menor graça. (Esse Austin Powers, sem dúvida, é o que há de pior no filme, mas não chega a azedá-lo por completo).
O único perigo de tanta água-com-aspartame é que depois eu às vezes me sinto hollywoodiana demais - assim como muitos homens saem de Coração valente ou Gladiador com vontade de dar porrada, eu saio dessas comedinhas edulcoradas com vontade de ficar loura de novo, perder uns quilinhos e tascar um sutiã turbinado. Sim, porque aquele que a Gwwyxnewtsff usa no filme eu conheço: é o segredo de muitas americanas que se acham na obrigação de ter peitão só porque são americanas (elas usam enchimento até no biquíni, para quem não sabe).
Anyways, meu bobômetro subiu tanto que até mesmo ouvir alguém xingando Shoot! desencadeou uma reação emocional - gosh, era assim que eu xingava quando errava uma bola nos esteites...E ainda saí do cinema com aquele andar de passarela, quase vendo meus olhos azuis no espelho e com os joelhos inconscientemente para dentro que nem os da Sopa de Consoantes.
Mas essas abstrações são seriamente perigosas. Foi depois de ver Quem vai ficar com Mary? que eu tomei coragem de tosar a cabeleira igual à da Cameron de então. E não me arrependi.
O que indica que há boas possibilidades de segunda-feira eu aparecer loura, com aplique, ombreiras dentro do sutiã e micro-saia.
Tá, eu admito: adoro filmes bobocas. A-DO-RO. Eu me delicio com aquelas películas edulcoradas e metidas a comédia que são dignas de, no máximo, uma Sessão da Tarde. Vi bombas como A onda dos sonhos, Como perder um homem em 10 dias, The wedding planner e Tudo para ficar com ele (esses dois últimos são péssimos). Amei Enquanto você dormia e Íntimo e pessoal - desse sei até uns diálogos, assim como de Uma linda mulher. E paremos por aqui porque a lista é extensa.
Adoro filmes-cabeça e afins, mas de tempos em tempos (o intervalo entre os "tempos" é bem curto, pra ser sincera) preciso de um chocolate audiovisual para aumentar a glicose do meu cérebro. Nada como ver um filmeco desses para relaxar: você não pensa, só sente e ri. Mas hoje eu tinha um álibi. Para fugir do dilúvio, parei no Botafogo Escada Shopping e tentei pegar um cineminha - sozinha. Só dava tempo de encarar a beócia da Gwyneth Paltrow (uma mulher que larga o Brad Pitt deve ser no mínimo uma beócia, ainda mais com esse nome inescrupuloso) ganhando milhões de dólares para brincar de aeromoça sob a batuta do Bruno Barreto. Decolei feliz.
E quando eu decolo num filme é pra valer. Viajo mesmo, choro (chorei até em Procurando Nemo e Tarzan), rio, fico com aquele sorriso congelado de palerma e suspiro como uma adolescente.
Hoje, nesse Voando alto (View from the top), suspirei muito. Eu tenho uma facilidade incrível de me identificar com o que não tem nada a ver comigo. Relaciono as situações mais absurdas com as que vivo, vivi ou acho que vou viver. Eu chego a me sentir como a lourinha-do-interior-que-vira-uma-aeromoça-CDF-e-supera-os-obstáculos-e-encontra-o-amor-da-sua-vida-e-tem-que-escolher-entre-o-amor-e-a-carreira-e-é-claro-que-termina-feliz.
Bem, entre um suspiro aqui e um sorriso babaca acolá, cheguei à conclusão de que minha Cleveland talvez seja Belo Horizonte. E que também quero muito ir a Paris, mas a minha vida sem ele é uma sala de espera. Quando os olhos estão prestes a transbordar, surge o imbecilóide do Mike Myers e me acorda com suas caretas estúpidas e sem a menor graça. (Esse Austin Powers, sem dúvida, é o que há de pior no filme, mas não chega a azedá-lo por completo).
O único perigo de tanta água-com-aspartame é que depois eu às vezes me sinto hollywoodiana demais - assim como muitos homens saem de Coração valente ou Gladiador com vontade de dar porrada, eu saio dessas comedinhas edulcoradas com vontade de ficar loura de novo, perder uns quilinhos e tascar um sutiã turbinado. Sim, porque aquele que a Gwwyxnewtsff usa no filme eu conheço: é o segredo de muitas americanas que se acham na obrigação de ter peitão só porque são americanas (elas usam enchimento até no biquíni, para quem não sabe).
Anyways, meu bobômetro subiu tanto que até mesmo ouvir alguém xingando Shoot! desencadeou uma reação emocional - gosh, era assim que eu xingava quando errava uma bola nos esteites...E ainda saí do cinema com aquele andar de passarela, quase vendo meus olhos azuis no espelho e com os joelhos inconscientemente para dentro que nem os da Sopa de Consoantes.
Mas essas abstrações são seriamente perigosas. Foi depois de ver Quem vai ficar com Mary? que eu tomei coragem de tosar a cabeleira igual à da Cameron de então. E não me arrependi.
O que indica que há boas possibilidades de segunda-feira eu aparecer loura, com aplique, ombreiras dentro do sutiã e micro-saia.
quinta-feira, agosto 14, 2003
Aproveitei que o Horácio explodiu e fiz uma triagem na quizumba de disquetes que adornavam a cama de meu querido computer. Achei fotos hilárias e este textículo aqui...Não lembro com certeza, mas acho que fui eu que o despejei, há uns três anos...O local descrito, pelo menos, é familiar. E dá saudade, apesar de tudo.
Redação
Cheiro de café, cigarro e chiclete. O frio do ar condicionado já conseguiu ressecar os cabelos de todas as mulheres, em sua maioria curtos – talvez pelo ar, talvez pela aparência na frente de possíveis câmeras.
Logo à entrada, já uma televisão barulhenta, ligada 24 horas na GloboNews. À esquerda estão os computadores, enfileirados como vítimas no corredor da morte: já sem vida antes de perdê-la (jornalistas juram que suas máquinas vivem, estão de mau-humor, são temperamentais e até sofrem de TPM), todos na mesma cor, mudos, esgotados.
Algumas pessoas berram enquanto outras teclam desesperadamente, acreditando que do produto final dependem seus empregos e, por conseguinte, suas vidas. A bacana da ponta deve ser chefe: a cada hora chama um coitado para prestar satisfações. Às vezes, uma gargalhada descontrai o ambiente, alguém faz uma brincadeira, mas é sabido que por dentro os estômagos não se riem. Talvez aqueles que têm certeza da boa matéria que têm em mãos, da boa pauta que lhes coube para o dia seguinte ou do novo emprego que lhes espera sorriam com certa sinceridade, bem provável que por alívio. Parece haver dois telefones para cada pessoa, e todos tocam ou são usados simultaneamente – raramente com discrição e tom de voz moderado.
É impossível não decorar a vinheta da rádio CBN, os nomes dos repórteres e locutores. No canto direito da grande sala, ao lado de uma poltrona vermelha, outra televisão varia entre Globo, RedeTV!, SBT, Record e até CNN. Ninguém nunca deve ter se apercebido daquela solitária caixa de imagens coloridas, a figura mais inerte da sala onde até o chão parece mover-se. Por cima das mesas, papéis sem rumo, agendas – quase periodicamente alguém urra “Cadê minha ageeenda?” – jornais e revistas de todos os tipos, formatos e origens. O local mais democrático é a superfície da grande mesa de cor crua que divide a redação, tendo do lado direito contato direto com redatores e dois editores, e do esquerdo interagindo – objetos de jornalistas são um prato cheio para as prosopopéias – com repórteres e estagiários subaproveitados e superexplorados. Em cima dela, Caras se misturam a Bundas, Caros Amigos a Chiques e Famosos e Folha de São Paulo a O Povo. As pessoas não falam umas com as outras do que não seja trabalho, problemas, reclamações. Cenário dantesco, surreal, uma verdadeira Guernica. Mas ninguém sai porque, do lado de fora, a fila para entrar, se existisse, seria capaz de dobrar a esquina.
Redação
Cheiro de café, cigarro e chiclete. O frio do ar condicionado já conseguiu ressecar os cabelos de todas as mulheres, em sua maioria curtos – talvez pelo ar, talvez pela aparência na frente de possíveis câmeras.
Logo à entrada, já uma televisão barulhenta, ligada 24 horas na GloboNews. À esquerda estão os computadores, enfileirados como vítimas no corredor da morte: já sem vida antes de perdê-la (jornalistas juram que suas máquinas vivem, estão de mau-humor, são temperamentais e até sofrem de TPM), todos na mesma cor, mudos, esgotados.
Algumas pessoas berram enquanto outras teclam desesperadamente, acreditando que do produto final dependem seus empregos e, por conseguinte, suas vidas. A bacana da ponta deve ser chefe: a cada hora chama um coitado para prestar satisfações. Às vezes, uma gargalhada descontrai o ambiente, alguém faz uma brincadeira, mas é sabido que por dentro os estômagos não se riem. Talvez aqueles que têm certeza da boa matéria que têm em mãos, da boa pauta que lhes coube para o dia seguinte ou do novo emprego que lhes espera sorriam com certa sinceridade, bem provável que por alívio. Parece haver dois telefones para cada pessoa, e todos tocam ou são usados simultaneamente – raramente com discrição e tom de voz moderado.
É impossível não decorar a vinheta da rádio CBN, os nomes dos repórteres e locutores. No canto direito da grande sala, ao lado de uma poltrona vermelha, outra televisão varia entre Globo, RedeTV!, SBT, Record e até CNN. Ninguém nunca deve ter se apercebido daquela solitária caixa de imagens coloridas, a figura mais inerte da sala onde até o chão parece mover-se. Por cima das mesas, papéis sem rumo, agendas – quase periodicamente alguém urra “Cadê minha ageeenda?” – jornais e revistas de todos os tipos, formatos e origens. O local mais democrático é a superfície da grande mesa de cor crua que divide a redação, tendo do lado direito contato direto com redatores e dois editores, e do esquerdo interagindo – objetos de jornalistas são um prato cheio para as prosopopéias – com repórteres e estagiários subaproveitados e superexplorados. Em cima dela, Caras se misturam a Bundas, Caros Amigos a Chiques e Famosos e Folha de São Paulo a O Povo. As pessoas não falam umas com as outras do que não seja trabalho, problemas, reclamações. Cenário dantesco, surreal, uma verdadeira Guernica. Mas ninguém sai porque, do lado de fora, a fila para entrar, se existisse, seria capaz de dobrar a esquina.
terça-feira, agosto 12, 2003
O cocô das antropólogas
Estava prestes a começar uma aula de duas horas e 40 de duração. Por motivos óbvios, resolvi antes enfrentar o Terrível Toalete da Uerj. Como de praxe, havia papel em todos os lugares, menos nos rolos. As tampas quebradas e imundas condiziam com as paredes rabiscadas.
Desci para tentar o do 8º andar - quem sabe as economistas não são mais limpinhas do que as historiadoras e filósofas? Por sorte, dei de cara com a moça que havia acabado de limpar o banheiro. Ela me encarou, eu sorri e ela desviou o olhar para o nada. Entrei. Um papel colado à parede com um pedaço de durex trazia o recado em pilot roxo fresquinho:
"MENINAS,
Por favor, colaborem comigo na limpeza do banheiro. Por favor, não joguem papel no chão.
Muito obrigada!
Que Deus as abençôe!"
O banheiro estava habitável e o papel higiênico nos devidos lugares, mas eu e a autora do bilhete tínhamos a certeza de que, em algumas horas, tudo voltaria ao que era antes: o caos da imundície resultante de pura falta de educação.
Reparar nessas coisas é mais um traço de chatice da minha personalidade. Quando era pequena, eu tinha vontade de conversar com aquelas senhoras do banheiro do Rio Sul, mas na maioria das vezes não o fazia por pura vergonha. Timidez também, mas uma certa vergonha de estar lá, empetecada com a mamãe, carregando uma sacolinha de presente, enquanto aquela senhora gorducha enfrentava o tédio com o esfregão.
Mais tarde, passei a reparar nas moças dos banheiros das boates. Algumas dormiam sentadas, enquanto adolescentes mimadas vomitavam, fumavam e passavam batom, sempre falando de homens ou fofocando. Sentia-me mal nesses banheiros, mas não sabia bem por quê. Achava aquilo tudo um contra-senso.
Vez por outra conversava com elas. Uma, em Curitiba, me contou que ganhava um salário mínimo e meio e tinha outro emprego à tarde. Ficou perceptivelmente feliz em conversar com alguém e disse que, no início, ajudava as meninas que passavam mal. Depois, de tanto limpar vômitos dourados, desistiu. Assumiu seu papel de invisível, sentadinha na cadeira vermelha ouvindo gargalhadas e descargas, catando papéis e pontas de cigarro no chão, enxugando a pia.
Estou cansada de ver pessoas que não prestam atenção nessas coisas. Estou cansada de ver Audis, Vectras, Fuscas e Fiats 147 deixando papéis e restos de comida voarem pela janela. Custa não jogar o embrulho da bala no chão? Custa catar os pacotes de biscoito Globo e copos de mate - e canudos, que mesmo os educadinhos deixam para trás - na praia? Custa, pelamordedeus, puxar a descarga e jogar o papel no lixo em qualquer banheiro como se fosse o de casa??
Acontece que muita gente não se toca ou não liga para o fato de que sempre existe um pobre corno para limpar a porcalhada alheia. É como a madame que, sabendo que amanhã tem faxina, não se interessa em jogar o papelzinho no lixo ou catar as unhas e cutículas que caíram no chão. É trabalho da empregada, claro.
Então, sempre que vejo um banheiro público, imagino que algum ser humano ganha um salário miserável para mantê-lo freqüentável para que os vândalos voltem a emporcalhá-lo. Cuido como se fosse o da minha casa. Limpar banheiros é algo que nós, burguesinhos metidos a besta, não valorizamos como um trabalho digno. Talvez por isso mesmo tenhamos em nosso inconsciente um mecanismo de desprezo pelos mais singelos atos de um cidadão educado, como jogar papel no lixo, catar os guardanapos que caíram no chão, mirar com capricho no vaso sanitário e puxar a bendita descarga. As meninas sociólogas e antropólogas da Uerj, por exemplo, que defecam sabedoria e jogam o papel imundo de suas letradas fezes no chão, deveriam ter umas aulinhas com a dona que lhes deixou o educado bilhete na parede.
Estava prestes a começar uma aula de duas horas e 40 de duração. Por motivos óbvios, resolvi antes enfrentar o Terrível Toalete da Uerj. Como de praxe, havia papel em todos os lugares, menos nos rolos. As tampas quebradas e imundas condiziam com as paredes rabiscadas.
Desci para tentar o do 8º andar - quem sabe as economistas não são mais limpinhas do que as historiadoras e filósofas? Por sorte, dei de cara com a moça que havia acabado de limpar o banheiro. Ela me encarou, eu sorri e ela desviou o olhar para o nada. Entrei. Um papel colado à parede com um pedaço de durex trazia o recado em pilot roxo fresquinho:
"MENINAS,
Por favor, colaborem comigo na limpeza do banheiro. Por favor, não joguem papel no chão.
Muito obrigada!
Que Deus as abençôe!"
O banheiro estava habitável e o papel higiênico nos devidos lugares, mas eu e a autora do bilhete tínhamos a certeza de que, em algumas horas, tudo voltaria ao que era antes: o caos da imundície resultante de pura falta de educação.
Reparar nessas coisas é mais um traço de chatice da minha personalidade. Quando era pequena, eu tinha vontade de conversar com aquelas senhoras do banheiro do Rio Sul, mas na maioria das vezes não o fazia por pura vergonha. Timidez também, mas uma certa vergonha de estar lá, empetecada com a mamãe, carregando uma sacolinha de presente, enquanto aquela senhora gorducha enfrentava o tédio com o esfregão.
Mais tarde, passei a reparar nas moças dos banheiros das boates. Algumas dormiam sentadas, enquanto adolescentes mimadas vomitavam, fumavam e passavam batom, sempre falando de homens ou fofocando. Sentia-me mal nesses banheiros, mas não sabia bem por quê. Achava aquilo tudo um contra-senso.
Vez por outra conversava com elas. Uma, em Curitiba, me contou que ganhava um salário mínimo e meio e tinha outro emprego à tarde. Ficou perceptivelmente feliz em conversar com alguém e disse que, no início, ajudava as meninas que passavam mal. Depois, de tanto limpar vômitos dourados, desistiu. Assumiu seu papel de invisível, sentadinha na cadeira vermelha ouvindo gargalhadas e descargas, catando papéis e pontas de cigarro no chão, enxugando a pia.
Estou cansada de ver pessoas que não prestam atenção nessas coisas. Estou cansada de ver Audis, Vectras, Fuscas e Fiats 147 deixando papéis e restos de comida voarem pela janela. Custa não jogar o embrulho da bala no chão? Custa catar os pacotes de biscoito Globo e copos de mate - e canudos, que mesmo os educadinhos deixam para trás - na praia? Custa, pelamordedeus, puxar a descarga e jogar o papel no lixo em qualquer banheiro como se fosse o de casa??
Acontece que muita gente não se toca ou não liga para o fato de que sempre existe um pobre corno para limpar a porcalhada alheia. É como a madame que, sabendo que amanhã tem faxina, não se interessa em jogar o papelzinho no lixo ou catar as unhas e cutículas que caíram no chão. É trabalho da empregada, claro.
Então, sempre que vejo um banheiro público, imagino que algum ser humano ganha um salário miserável para mantê-lo freqüentável para que os vândalos voltem a emporcalhá-lo. Cuido como se fosse o da minha casa. Limpar banheiros é algo que nós, burguesinhos metidos a besta, não valorizamos como um trabalho digno. Talvez por isso mesmo tenhamos em nosso inconsciente um mecanismo de desprezo pelos mais singelos atos de um cidadão educado, como jogar papel no lixo, catar os guardanapos que caíram no chão, mirar com capricho no vaso sanitário e puxar a bendita descarga. As meninas sociólogas e antropólogas da Uerj, por exemplo, que defecam sabedoria e jogam o papel imundo de suas letradas fezes no chão, deveriam ter umas aulinhas com a dona que lhes deixou o educado bilhete na parede.
quarta-feira, agosto 06, 2003
T.M.
Desespero. Aquela sensação de coceira que não pode ser coçada.
Tenho ao meu lado um ser que cuspiu um seco "Olá", assim, sem ponto de exclamação. Está tão próximo que sinto sua respiração. Suas imagens oníricas quase roçam no meu braço e encostam em minha aura cor-de-rosa. Sua impecável careca reluz e ofusca meus pensamentos mais recônditos. A cada "uhuumm" ou "aham" ou ainda "ha" que ele balbucia, eu me encolho mais na cadeira. Tenho certeza de que sua visão periférica é privilegiada e ele lê cada vírgula do meu outlook. Eu brigo com o teclado desconjuntado, onde apertar ç gera um desdenhoso ~. Tirando o tratado psicodélico no braço direito e os olhos que quase não existem, ele parece são demais. Saudade das pessoas insanas e tagarelas do último mês. Esse novo círculo é burocrático e repleto de planícies calvas. Volto, feliz, ao bunker 221.
Desespero. Aquela sensação de coceira que não pode ser coçada.
Tenho ao meu lado um ser que cuspiu um seco "Olá", assim, sem ponto de exclamação. Está tão próximo que sinto sua respiração. Suas imagens oníricas quase roçam no meu braço e encostam em minha aura cor-de-rosa. Sua impecável careca reluz e ofusca meus pensamentos mais recônditos. A cada "uhuumm" ou "aham" ou ainda "ha" que ele balbucia, eu me encolho mais na cadeira. Tenho certeza de que sua visão periférica é privilegiada e ele lê cada vírgula do meu outlook. Eu brigo com o teclado desconjuntado, onde apertar ç gera um desdenhoso ~. Tirando o tratado psicodélico no braço direito e os olhos que quase não existem, ele parece são demais. Saudade das pessoas insanas e tagarelas do último mês. Esse novo círculo é burocrático e repleto de planícies calvas. Volto, feliz, ao bunker 221.
terça-feira, agosto 05, 2003
30%
Não consigo: sempre acabo fazendo esses testes imbecis. Confesso que já fiz muitos testes da Capricho na adolescência, apesar de empinar o nariz, dizer que odiava a revista e me orgulhar por nunca ter gasto nenhum cruzeiro nisso. Bem, hoje fiz o tal gayometer.
Resultado:
Perla is 30% gay! You are a straight-laced girlie girl with just a hint of your butch side sometimes popping out!
Em suma, sou uma mulherzinha muito macho quando necessário.
Não consigo: sempre acabo fazendo esses testes imbecis. Confesso que já fiz muitos testes da Capricho na adolescência, apesar de empinar o nariz, dizer que odiava a revista e me orgulhar por nunca ter gasto nenhum cruzeiro nisso. Bem, hoje fiz o tal gayometer.
Resultado:
Perla is 30% gay! You are a straight-laced girlie girl with just a hint of your butch side sometimes popping out!
Em suma, sou uma mulherzinha muito macho quando necessário.
sexta-feira, agosto 01, 2003
Quando eu escrevo...
Queria muito estar em Parati esse fim de semana. Ou pelo menos em casa, vendo a abertura do Pan e relembrando a "minha época" com as fotos de Mar Del Plata. Em vez disso, estarei em Uberlândia City, voleibolando com minhas amigas urubus. Mas faz parte: tudo vale a pena e minha alma tem um metro e oitenta - sem contar o salto alto.
A festa em Parati deve estar uma graça, e hoje tem Eric Hobsbawn, além de outros, como os três jovens mosqueteiros autores de "Parati para mim" (aliás, se já não tivesse um coração tomado, escolheria me apaixonar pelo JP Cuenca). Estão lá esses autores todos que o Arnaldo Bloch abordou com a proposta de escrever "sobre o rito sagrado de sentar-se diante do papel ou monitor e encher o vazio com arte e relevância". O resultado, publicado na primeira página do Segundo Caderno de hoje, é bem interessante. E me levou a fantasiar, no Maravilhoso Mundo Auto-referente de Renata, como seria se a mim fosse feito tal convite.
Já começaria discordando. Sentar diante do papel ou monitor não é, para mim, nenhum "rito sagrado". Faço isso falando ao telefone, com as pernas esticadas na cama, toda torta, comendo pão com queijo cottage, devorando uma torre de cream-crackers ou o que tiver em casa. Algumas vezes escrevo ininterruptamente; outras, vou parando no meio e tomando atitudes inúteis nas horas mais formidáveis do texto: checo blogs, leio The Onion, escrevo e-mails que jamais envio, leio o poema español del día, pesquiso sobre o cara que deu nome a uma rua por que passei ontem, baixo músicas no Kazaa. Aí volto depois, ou amanhã, e paro de novo para tomar banho, fazer carinho na minha cã, arrumar a gaveta de meias. Jamais sacralizei o ato de escrever.
Pelo contrário: é algo tão bom que tende a ser natural, parte do dia-a-dia, como limpar o armário ou organizar a caixinha do Chaplin onde guardo meus brincos. Tão importante quanto qualquer ato rotineiro, só que mais gostoso. E gratificante, extenuante, ou mesmo frustrante.
Neste ponto concordo com o que escreveu o Zuenir Ventura, o coroa mais fofo por todos os séculos dos séculos: adoro ter escrito. Só que ele diz não gostar de escrever - duvido -, e eu amo. Sobre qualquer coisa. Minhas toscas poesias, desabafos estilo "meu querido diário", trabalhos para a faculdade, e-mails, textos pretensiosos ou relaxados, comentários, teorias sem nexo...ou, como define com perfeição a Bruna Paixão, pequenas observações sobre coisas sem importância.
Só sei que comigo funciona assim: bate um furor inexplicável, uma vontade louca de sentar e escrever sobre alguma coisa. Organizo as idéias na cabeça - muito melhor do que organizo meu quartinho azulamarelo, que de tempos em tempos transforma-se numa perfumada mitocôndria-pocilga -, depois praticamente enumero os pontos principais para não esquecer. Imagino que amanhã lembrarei que pensei sete coisas e conseguirei escrever as sete da forma que me pareceu genial na noite anterior. É claro que isso raramente acontece. Por isso é tão imprescindível um caderninho - azul ou não - para esses momentos de brainstorm involuntário.
Nessas horas, às vezes tenho a certeza de que preciso escrever uma poesia ou algo parecido. Adorei o que disse ao Bloch o Ferreira Gullar: “escrever poesia é fracassar gloriosamente”. Exato. É uma sensação de triunfo com melancolia, junto à certeza de que, aos outros, o que escrevi lhes parecerá uma droga. Mas isso não importa: dei à luz o que se fez em mim, feio ou bonito aos olhos da estética. Eu me diverti ou libertei, mesmo que a tradução disso em palavras tenha sido besta.
E há também a dimensão fantástica em que entro quando sossego em minha mitocôndria e resolvo dar início ao ritual pagão. "Quando eu escrevo...acesso a vida real. Sim, porque você não vai querer me convencer que essa pilha de contas, esse engarrafamento e a reunião do condomínio sejam a vida real, vai??" Essa é do Eduardo Bueno, escritor e historiador. Eu prefiro acreditar que essa dimensão fantástica é que é a vida real, a que vale no final das contas: posso ser tudo quando escrevo, posso inventar o que quiser, posso pesquisar e procurar entender um assunto que não domino, posso reinventar o que já sei. E posso, depois de ter escrito, mudar completamente de idéia. Se a gente não pode mudar a vida, pode reescrevê-la - a nossa e a dos outros - quantas vezes quiser, até que o resultado final nos agrade.
Já disse aqui neste blog que "viver é bem melhor que escrever", e mantenho a opinião. Mas, no meu caso, viver escrevendo está dentro do que imagino como a melhor vida possível. Quando escrevo posso hipnotizar a mim mesma, me enlevar com o medíocre, ser o que nunca fui e ter a certeza de que estou exatamente onde deveria estar: brincando de ser um deus irresponsável ao criar o mundo que me dá na telha.
Quando eu escrevo travo uma guerra solitária, mas plena e excitante, que pode me levar às lágrimas, à saudade, à melancolia, mas também à esperança, a um universo novo qualquer, a um lugar que eu gostaria que existisse. Ou pelo menos ao dicionário, onde aprenderei mais um ou dois instrumentos para me expressar. Seja qual for o resultado: um texto elogiado, publicado, alentador, ou uma porcaria que vá impiedosamente morrer no lixo - escrever é sangüíneo, profilático. Escrever é a única guerra que vale a pena.
Queria muito estar em Parati esse fim de semana. Ou pelo menos em casa, vendo a abertura do Pan e relembrando a "minha época" com as fotos de Mar Del Plata. Em vez disso, estarei em Uberlândia City, voleibolando com minhas amigas urubus. Mas faz parte: tudo vale a pena e minha alma tem um metro e oitenta - sem contar o salto alto.
A festa em Parati deve estar uma graça, e hoje tem Eric Hobsbawn, além de outros, como os três jovens mosqueteiros autores de "Parati para mim" (aliás, se já não tivesse um coração tomado, escolheria me apaixonar pelo JP Cuenca). Estão lá esses autores todos que o Arnaldo Bloch abordou com a proposta de escrever "sobre o rito sagrado de sentar-se diante do papel ou monitor e encher o vazio com arte e relevância". O resultado, publicado na primeira página do Segundo Caderno de hoje, é bem interessante. E me levou a fantasiar, no Maravilhoso Mundo Auto-referente de Renata, como seria se a mim fosse feito tal convite.
Já começaria discordando. Sentar diante do papel ou monitor não é, para mim, nenhum "rito sagrado". Faço isso falando ao telefone, com as pernas esticadas na cama, toda torta, comendo pão com queijo cottage, devorando uma torre de cream-crackers ou o que tiver em casa. Algumas vezes escrevo ininterruptamente; outras, vou parando no meio e tomando atitudes inúteis nas horas mais formidáveis do texto: checo blogs, leio The Onion, escrevo e-mails que jamais envio, leio o poema español del día, pesquiso sobre o cara que deu nome a uma rua por que passei ontem, baixo músicas no Kazaa. Aí volto depois, ou amanhã, e paro de novo para tomar banho, fazer carinho na minha cã, arrumar a gaveta de meias. Jamais sacralizei o ato de escrever.
Pelo contrário: é algo tão bom que tende a ser natural, parte do dia-a-dia, como limpar o armário ou organizar a caixinha do Chaplin onde guardo meus brincos. Tão importante quanto qualquer ato rotineiro, só que mais gostoso. E gratificante, extenuante, ou mesmo frustrante.
Neste ponto concordo com o que escreveu o Zuenir Ventura, o coroa mais fofo por todos os séculos dos séculos: adoro ter escrito. Só que ele diz não gostar de escrever - duvido -, e eu amo. Sobre qualquer coisa. Minhas toscas poesias, desabafos estilo "meu querido diário", trabalhos para a faculdade, e-mails, textos pretensiosos ou relaxados, comentários, teorias sem nexo...ou, como define com perfeição a Bruna Paixão, pequenas observações sobre coisas sem importância.
Só sei que comigo funciona assim: bate um furor inexplicável, uma vontade louca de sentar e escrever sobre alguma coisa. Organizo as idéias na cabeça - muito melhor do que organizo meu quartinho azulamarelo, que de tempos em tempos transforma-se numa perfumada mitocôndria-pocilga -, depois praticamente enumero os pontos principais para não esquecer. Imagino que amanhã lembrarei que pensei sete coisas e conseguirei escrever as sete da forma que me pareceu genial na noite anterior. É claro que isso raramente acontece. Por isso é tão imprescindível um caderninho - azul ou não - para esses momentos de brainstorm involuntário.
Nessas horas, às vezes tenho a certeza de que preciso escrever uma poesia ou algo parecido. Adorei o que disse ao Bloch o Ferreira Gullar: “escrever poesia é fracassar gloriosamente”. Exato. É uma sensação de triunfo com melancolia, junto à certeza de que, aos outros, o que escrevi lhes parecerá uma droga. Mas isso não importa: dei à luz o que se fez em mim, feio ou bonito aos olhos da estética. Eu me diverti ou libertei, mesmo que a tradução disso em palavras tenha sido besta.
E há também a dimensão fantástica em que entro quando sossego em minha mitocôndria e resolvo dar início ao ritual pagão. "Quando eu escrevo...acesso a vida real. Sim, porque você não vai querer me convencer que essa pilha de contas, esse engarrafamento e a reunião do condomínio sejam a vida real, vai??" Essa é do Eduardo Bueno, escritor e historiador. Eu prefiro acreditar que essa dimensão fantástica é que é a vida real, a que vale no final das contas: posso ser tudo quando escrevo, posso inventar o que quiser, posso pesquisar e procurar entender um assunto que não domino, posso reinventar o que já sei. E posso, depois de ter escrito, mudar completamente de idéia. Se a gente não pode mudar a vida, pode reescrevê-la - a nossa e a dos outros - quantas vezes quiser, até que o resultado final nos agrade.
Já disse aqui neste blog que "viver é bem melhor que escrever", e mantenho a opinião. Mas, no meu caso, viver escrevendo está dentro do que imagino como a melhor vida possível. Quando escrevo posso hipnotizar a mim mesma, me enlevar com o medíocre, ser o que nunca fui e ter a certeza de que estou exatamente onde deveria estar: brincando de ser um deus irresponsável ao criar o mundo que me dá na telha.
Quando eu escrevo travo uma guerra solitária, mas plena e excitante, que pode me levar às lágrimas, à saudade, à melancolia, mas também à esperança, a um universo novo qualquer, a um lugar que eu gostaria que existisse. Ou pelo menos ao dicionário, onde aprenderei mais um ou dois instrumentos para me expressar. Seja qual for o resultado: um texto elogiado, publicado, alentador, ou uma porcaria que vá impiedosamente morrer no lixo - escrever é sangüíneo, profilático. Escrever é a única guerra que vale a pena.
Alguém viu a entrevista do Edney Silvestre com o palhaço Carequinha no RJTV? Esplêndida. Confesso que quase chorei. O Carequinha, que faz hoje 83 anos, foi um dos meus 'ídolos', ao lado do Bozo, do Gato Félix e do Pica-pau. Chamem-me de piegas, mas ele contou coisas como seu primeiro encontro com a mulher, sua participação na fundação da TV Tupi, o que faz um palhaço rir e como quer morrer no picadeiro...
Chorar com o RJTV é muito sério? Tem algo errado comigo?
Chorar com o RJTV é muito sério? Tem algo errado comigo?
quinta-feira, julho 31, 2003
terça-feira, julho 29, 2003
2h34. Não, já 2h35. Tudo o que queria agora: uma garrafa de Valpolicella tinto. Praia com lua. Pessoas engraçadas e profundérrimas. Gargalhadas. Uma revistinha do Zé Carioca com quadrinhos sobre o Vila Xurupita Futebol Clube. Ler na Internet que inventaram um auto-lipoaspirador acima de qualquer suspeita. Um bilhete premiado pra eu jogar no mar, bêbada de felicidade. Um incenso de mel. Encontrar na areia o Heart of the Ocean do 'Titanic'. Ficar horas olhando o balé de uma maria-farinha em Ipanema. Acordar com cabelão. Descobrir que minha bunda jamais cairá. Deglutir um dicionário. Cantar Fascinação como a Elis. Cavalgar no corcel negro do Leme ao Pontal, e me deparar com o Tim Maia afagando a Lassie. Nadar em meio a golfinhos numa piscina de ovomaltine mal-batido. Lembrar que acabei de escrever meu terceiro livro ontem. E que amanhã é feriado. Ganhar calcinha e sutiã novos, de renda. Viver de renda. Ir mergulhar e dar de cara com a Madre Teresa de Calcutá caminhando sobre as águas.
2h49. Acaba o transe. Vou rezar um Pai Nosso e dormir agarrada ao Brad.
2h49. Acaba o transe. Vou rezar um Pai Nosso e dormir agarrada ao Brad.
Sobre o significado ôntico de uma pérola do vernáculo
Desculpem os maus modos: f***-se. Ahhhlívio.
Até 127 dias atrás - antes de encontrar no cosmos certas criaturas que usam a palavra f***-se como filosofia de vida - esse vocábulo cheio de sentimento e plenitude não fazia parte de minha vida fônica. Ainda não o verbalizo, menina educada que sou, mas não me furto a exclamar "dane-se", "exploda-se", o colonizado "wathever" e afins, sempre tendo em mente este termo algorítmico que é capaz de encerrar o admirável mundo e suas mazelas, o egoísmo humano e as sinecuras da vida, a caspa e o shampoo, a Xuxa e a Mara Maravilha.
Tal expressão é um sedativo quase poético. A taxa de juros vai cair 2%? O Rio vai sediar as Olimpíadas de 2012? A Volks vai remanejar quatro mil funcionários? A reforma da Previdência será quase inócua? A Tributária está virando pastelão? O Manoel Carlos vai matar a Fernanda? O Lula não usa casaca? Pagodeiros e roqueiros se trucidam no aeroporto? A todos o meu grande F***-SE. Em letras CAPITAIS.
F***-se é termo tão dinâmico que vira adjetivo. "Dias f***-se" são aqueles em que a gente tem certeza de que nada que faz, fez ou fará vai mudar coisa alguma. São dias unilaterais em que conspurcamos o desimportante do mundo - que, normalmente, coincide com o mundo todo. Nesses dias dou uma zapeada, paro no William Bonner e tudo o que ele diz não tem relevância alguma. Aí eu desligo com prazer, aquele fade lento que começa no chumaço de cabelos brancos dele, deforma-o por centésimos de segundo e puf!, lá se vai o súbito culpado pela TPM do universo.
Em dias assim eu quero comer algo doce, mas nem chocolate suíço me apetece. Descubro que é fome de salgado, mas qualquer prato me enjoa. Passo o dia com vontade de ler aquele livro, mas, quando chega a hora livre, desisto após meia página. Então fica a sensação de gula velha e ressequida, de fome de estômago e espírito. O jornal é estúpido, o trabalho inócuo, os amigos longínquos ou automatizados.
Mas nada disso me deprime: pelo contrário, a sensação de desprendimento que momentos de puro e legítimo f***-se nos permitem é reconfortante. F***-se é, no fundo, uma palavra doce, apesar de imperativa, egoísta, reflexiva no alheio. Ao contrário de f**a, vocábulo amargo, desesperançoso, que eu, moça de primorosa educação e delicadeza, costumo substituir por "fogo". Incrível a diferença que um pronome oblíquo faz nessa vida.
F***-se, eu diria, desafia o Português. Diz mais do que alguém pode pretender ao pronunciá-la, é quase um pleonasmo, é a experiência enclítica última - e ainda carrega a suntuosidade de uma proparoxítona. Toda essa reflexão levou-me a buscar na filosofia uma definição digna para tal mistério morfossintático e semântico: assim como a útil expressão "pra cara**o" tende ao infinito - como alguém já disse -, descobri que f***-se é um termo ôntico. A saber: designa "uma atitude tal em relação ao ente que o deixe ser em si mesmo, no que é como é." Esse Heidegger devia encher a boca ao mandar seu ôntico f***-se.
Mas, muito além de qualquer análise gramatical ou filosófica, a maior virtude do termo em questão é possibilitar-nos uma aferição quase pueril: a felicidade não é plenitude, mas vácuo.
E, se não for, F***-SE. Em letras garrafais com neon piscante.
Desculpem os maus modos: f***-se. Ahhhlívio.
Até 127 dias atrás - antes de encontrar no cosmos certas criaturas que usam a palavra f***-se como filosofia de vida - esse vocábulo cheio de sentimento e plenitude não fazia parte de minha vida fônica. Ainda não o verbalizo, menina educada que sou, mas não me furto a exclamar "dane-se", "exploda-se", o colonizado "wathever" e afins, sempre tendo em mente este termo algorítmico que é capaz de encerrar o admirável mundo e suas mazelas, o egoísmo humano e as sinecuras da vida, a caspa e o shampoo, a Xuxa e a Mara Maravilha.
Tal expressão é um sedativo quase poético. A taxa de juros vai cair 2%? O Rio vai sediar as Olimpíadas de 2012? A Volks vai remanejar quatro mil funcionários? A reforma da Previdência será quase inócua? A Tributária está virando pastelão? O Manoel Carlos vai matar a Fernanda? O Lula não usa casaca? Pagodeiros e roqueiros se trucidam no aeroporto? A todos o meu grande F***-SE. Em letras CAPITAIS.
F***-se é termo tão dinâmico que vira adjetivo. "Dias f***-se" são aqueles em que a gente tem certeza de que nada que faz, fez ou fará vai mudar coisa alguma. São dias unilaterais em que conspurcamos o desimportante do mundo - que, normalmente, coincide com o mundo todo. Nesses dias dou uma zapeada, paro no William Bonner e tudo o que ele diz não tem relevância alguma. Aí eu desligo com prazer, aquele fade lento que começa no chumaço de cabelos brancos dele, deforma-o por centésimos de segundo e puf!, lá se vai o súbito culpado pela TPM do universo.
Em dias assim eu quero comer algo doce, mas nem chocolate suíço me apetece. Descubro que é fome de salgado, mas qualquer prato me enjoa. Passo o dia com vontade de ler aquele livro, mas, quando chega a hora livre, desisto após meia página. Então fica a sensação de gula velha e ressequida, de fome de estômago e espírito. O jornal é estúpido, o trabalho inócuo, os amigos longínquos ou automatizados.
Mas nada disso me deprime: pelo contrário, a sensação de desprendimento que momentos de puro e legítimo f***-se nos permitem é reconfortante. F***-se é, no fundo, uma palavra doce, apesar de imperativa, egoísta, reflexiva no alheio. Ao contrário de f**a, vocábulo amargo, desesperançoso, que eu, moça de primorosa educação e delicadeza, costumo substituir por "fogo". Incrível a diferença que um pronome oblíquo faz nessa vida.
F***-se, eu diria, desafia o Português. Diz mais do que alguém pode pretender ao pronunciá-la, é quase um pleonasmo, é a experiência enclítica última - e ainda carrega a suntuosidade de uma proparoxítona. Toda essa reflexão levou-me a buscar na filosofia uma definição digna para tal mistério morfossintático e semântico: assim como a útil expressão "pra cara**o" tende ao infinito - como alguém já disse -, descobri que f***-se é um termo ôntico. A saber: designa "uma atitude tal em relação ao ente que o deixe ser em si mesmo, no que é como é." Esse Heidegger devia encher a boca ao mandar seu ôntico f***-se.
Mas, muito além de qualquer análise gramatical ou filosófica, a maior virtude do termo em questão é possibilitar-nos uma aferição quase pueril: a felicidade não é plenitude, mas vácuo.
E, se não for, F***-SE. Em letras garrafais com neon piscante.
quinta-feira, julho 24, 2003
FRASES
"São Paulo é a mocréia-mor do Brasil"
- Arnaldo Jabor
"Nos anos 80 eu só levava choques. Não tinha o hábito de ser tocado. A relação física com as pessoas era extremamente difícil para mim: um abraço, um beijo. Mas agora ninguém me dá"
- Fernando Henrique Dengoso, ex-presidente que não pega nem a Dona Ruth
"Você destruiu a vida do meu pai!"
- Jovem anônimo que esfregou um prato de macarrão na cara de Fernando Collor em um hotel chique em Araxá, MG
"Linchamento, tiro na cara. Foi uma violência de rico contra pobre. Se eu tivesse uma arma dava um tiro na cara do sujeito"
- Gerald Thomas, diretor de teatro e discípulo de Ghandi, sobre como proceder com os rapazes que faziam um pega que acabou na morte de um inocente, em Ipanema
"São Paulo é a mocréia-mor do Brasil"
- Arnaldo Jabor
"Nos anos 80 eu só levava choques. Não tinha o hábito de ser tocado. A relação física com as pessoas era extremamente difícil para mim: um abraço, um beijo. Mas agora ninguém me dá"
- Fernando Henrique Dengoso, ex-presidente que não pega nem a Dona Ruth
"Você destruiu a vida do meu pai!"
- Jovem anônimo que esfregou um prato de macarrão na cara de Fernando Collor em um hotel chique em Araxá, MG
"Linchamento, tiro na cara. Foi uma violência de rico contra pobre. Se eu tivesse uma arma dava um tiro na cara do sujeito"
- Gerald Thomas, diretor de teatro e discípulo de Ghandi, sobre como proceder com os rapazes que faziam um pega que acabou na morte de um inocente, em Ipanema
quinta-feira, julho 17, 2003
E o Horácio explode novamente. Desta vez é para valer.
Peço a todos que não me enviem e-mails durante uma semana. Se a mensagem for muuuuuito importante, usem o renataferrer@ig.com.br.
Para os 3 ou 8 amigos leitores deste blógui, se não tiverem absolutamente nada para fazer, que tal ler os posts jurássicos no arquivo? Ou que tal me doar R$ 310,00 para um novo HD???
Peço a todos que não me enviem e-mails durante uma semana. Se a mensagem for muuuuuito importante, usem o renataferrer@ig.com.br.
Para os 3 ou 8 amigos leitores deste blógui, se não tiverem absolutamente nada para fazer, que tal ler os posts jurássicos no arquivo? Ou que tal me doar R$ 310,00 para um novo HD???
quarta-feira, julho 16, 2003
E agora, Nostradamus?
Vivemos um momento estupidamente niilista. Até bem pouco atrás, o planeta estava apreensivo com o novo século, o novo milênio, o fim do mundo. O clima era de estudos apocalípticos, de fin de siècle e espera pela hecatombe iminente.
Passou.
Por o que esperamos agora? O que inventaremos de mais arrebatador que o apocalipse? Vivemos num angustiante Tempo Comum onde a própria vida é uma escatologia - nos dois sentidos da palavra. O tempo e a história consomem-se com princípio e fim, mas sem meio que tenha propósito. É o fudevu da ausência do caos.
Na virada para o milênio passado – que, assim como agora, contou-se um ano antes -, dizia-se que o mundo acabaria tragicamente no ano I do milênio II. Não acabou. Então algum gênio calculou que algo tão ruim quanto o fim do mundo não aconteceria no aniversário de mil anos do nascimento de Jesus Cristo. Deus não era tão macabro assim. O mundo - deduziu o gênio - acabaria no aniversário de morte do messias, claro. E por mais 33 anos o Homo Sapiens esperou a hecatombe. Chegou 1.033, foi-se 1.033, e o sol continuou se pondo.
Resta-nos esperar até 2.033.
Vivemos um momento estupidamente niilista. Até bem pouco atrás, o planeta estava apreensivo com o novo século, o novo milênio, o fim do mundo. O clima era de estudos apocalípticos, de fin de siècle e espera pela hecatombe iminente.
Passou.
Por o que esperamos agora? O que inventaremos de mais arrebatador que o apocalipse? Vivemos num angustiante Tempo Comum onde a própria vida é uma escatologia - nos dois sentidos da palavra. O tempo e a história consomem-se com princípio e fim, mas sem meio que tenha propósito. É o fudevu da ausência do caos.
Na virada para o milênio passado – que, assim como agora, contou-se um ano antes -, dizia-se que o mundo acabaria tragicamente no ano I do milênio II. Não acabou. Então algum gênio calculou que algo tão ruim quanto o fim do mundo não aconteceria no aniversário de mil anos do nascimento de Jesus Cristo. Deus não era tão macabro assim. O mundo - deduziu o gênio - acabaria no aniversário de morte do messias, claro. E por mais 33 anos o Homo Sapiens esperou a hecatombe. Chegou 1.033, foi-se 1.033, e o sol continuou se pondo.
Resta-nos esperar até 2.033.
terça-feira, julho 15, 2003
Profecia
“Videogames não influenciam crianças. Quer dizer, se o Pac-man tivesse influenciando a nossa geração, estaríamos todos correndo em salas escuras, mastigando pílulas mágicas e escutando músicas eletrônicas repetitivas."
Kristian Wilson, Nintendo Inc, 1989.
Poucos anos depois surgiriam a festa rave, a música techno e o ecstasy...
* colaboração de Pedro Daudt
“Videogames não influenciam crianças. Quer dizer, se o Pac-man tivesse influenciando a nossa geração, estaríamos todos correndo em salas escuras, mastigando pílulas mágicas e escutando músicas eletrônicas repetitivas."
Kristian Wilson, Nintendo Inc, 1989.
Poucos anos depois surgiriam a festa rave, a música techno e o ecstasy...
* colaboração de Pedro Daudt
segunda-feira, julho 14, 2003
Quanto mais a gente tenta facilitar a vida, mais a complica. Eu reclamava tanto do iG que resolvi colocar Velox. Agora não tenho nem um nem outro. Nada funciona. Enquanto isso, encho meu caderno azul (na verdade são dois), com a ajuda de uma simples caneta. E o blog cumpre recesso.
***
Aliás, existe uma conspiração dos Cadernos Azuis? Todas as pessoas que gostam de escrever e fazem anotações têm sempre um caderno dessa cor??? O rapaz citado no último post (o Joaquim do borogodó, ou vice-versa) escreveu hoje uma crônica partindo de seu caderno azul. E não é o primeiro que eu conheço...Sei lá, acho que vou passar a usar mais o meu das superpoderosas ou então vou comprar um daqueles com personalidades na capa. Quem sabe um com a Wanessa Camargo não me trará mais inspiração, enquanto não resolvo os meus problemas técnicos?
***
Aliás, existe uma conspiração dos Cadernos Azuis? Todas as pessoas que gostam de escrever e fazem anotações têm sempre um caderno dessa cor??? O rapaz citado no último post (o Joaquim do borogodó, ou vice-versa) escreveu hoje uma crônica partindo de seu caderno azul. E não é o primeiro que eu conheço...Sei lá, acho que vou passar a usar mais o meu das superpoderosas ou então vou comprar um daqueles com personalidades na capa. Quem sabe um com a Wanessa Camargo não me trará mais inspiração, enquanto não resolvo os meus problemas técnicos?
terça-feira, julho 08, 2003
O borogodó do Joaquim
Confesso que não sentirei falta da coluna diária da Hildegard no Globo. Sempre ignorei os escritos daquela senhora, e acho que o mesmo não acontecerá com o novo colunista, Joaquim Ferreira dos Santos. Ele é - como lembrou um amiguinho do Clube do Mickey da Rua Irineu Marinho - ligeiramente metido a malandro carioca, mas tem tiradas ótimas. Suas frases, que vão do genial ao boçal, sempre me fazem abrir um sorriso.
Depois de saber do farewell da Sra. Angel, li a coluna semanal do Sr. dos Santos. E, durante o solilóquio sobre a localização do borogodó das mulheres do século XXI, aprendi que o mundo começa no umbigo da Gisele Bündchen, o "ó do borogodó redivivo, a vingança cheinha".
Em meio a incansáveis elogios à imperatriz da nova história do formato feminino, Joaquim disse ter escrito certa vez que "a estagiária de jornalismo com seu umbigo de fora era a versão 2000 da estagiária de calcanhar sujo de que falava Nelson Rodrigues". Olhei para meu calcanhar: limpo. Ufa. Olhei para meu umbigo: coberto. Quer dizer, mais ou menos. Era só me espreguiçar e....Mas peraí, Joaquim: meu pobre umbigo não é como o da Gisele, redemoinho guardião da modernidade sensual. Nem é sublinhado por um "piercing fofo", como você chamou aqueles das duas últimas gerações Brunet. Não deve estar no meu umbigo o tal borogodó de que tanto fala.
Percebi, então, que o nobre Joaquim havia-me lançado a seguinte questão: onde está o meu borogodó?
Passei alguns minutos com dedicação exclusiva e exaustiva a uma sincera egotrip. Talvez um dia eu entre num consultório e diga: "Injete-me silicone até me confundirem com a Dolly Parton". Mas acho pouco provável. Vou me virando assim mesmo, com meu cleavage ergonomicamente correto. Sei também que não sou o sonho de consumo de nenhum podófilo: calço 39/40 - não necessariamente nessa ordem. E, tenho certeza, nenhum louco me pagaria R$ 90 mil para desfilar com o biquíni da sua grife. Passo essa para a Gisele. Apesar dos pesares e dos constantes surtos de auto-comiseração, no geral estou feliz com minha plástica e não faço idéia de qual seria meu trunfo - ou meu borogodó, como preferir o nosso colunista.
Mas quando você pergunta, Joaquim, se ainda nascem mulheres de "coxas roliças e ancas fartas", parece que não anda pelas ruas e não nota a alma encantadora e expansiva das mulheres comuns, de pouco potencial de vídeo e passarela. Eu, por exemplo, estagiária de calcanhares limpos e umbigo recatado, nunca experimentei uma calça dessas de cintura baixa da Cavalera de que você fala. Acho que nem me caberiam.
Porém, como o senhor mesmo lembrou, o borogodó de uma não precisa estar exatamente no mesmo lugar do da outra. O umbiguinho da Gisele é modelo único, você diz. Concordo: chega a ser uma vergonha lingüística igualá-lo a todos os outros descendentes do latim umbilicu. É um furinho no ventre só pra caras assim do calibre do João Paulo Diniz, do Santoro ou daquele sabugo mofado do Leonardo DiCarpio. É modelo único como uma Ferrari feita sob medida ou um vestido da Daslu. Desenhado por algum deus bêbado de néctar e ambrosia, enquanto o deus das mulheres comuns devia estar a pão e água.
Só que você fala tanto do borogodó da Gisele, da Luana, da Cicarelli e da Cynthia, mas chega no final e manda que nós, mortais, não entremos nessa "tortura invejosa de academias de ginástica e dietas para ter o mesmo modismo que vai na barriga das outras". Você nos manda inventar, hoje, o nosso próprio borogodó, e apostar nele todas as nossas fichas.
Observando seu simpático 3X4, me pergunto: qual seria o seu borogodó?
Sei não, mas amanhã às nove estou na tortura. E esperarei ansiosamente pelas filosóficas questões que me proporá sua próxima coluna.
Confesso que não sentirei falta da coluna diária da Hildegard no Globo. Sempre ignorei os escritos daquela senhora, e acho que o mesmo não acontecerá com o novo colunista, Joaquim Ferreira dos Santos. Ele é - como lembrou um amiguinho do Clube do Mickey da Rua Irineu Marinho - ligeiramente metido a malandro carioca, mas tem tiradas ótimas. Suas frases, que vão do genial ao boçal, sempre me fazem abrir um sorriso.
Depois de saber do farewell da Sra. Angel, li a coluna semanal do Sr. dos Santos. E, durante o solilóquio sobre a localização do borogodó das mulheres do século XXI, aprendi que o mundo começa no umbigo da Gisele Bündchen, o "ó do borogodó redivivo, a vingança cheinha".
Em meio a incansáveis elogios à imperatriz da nova história do formato feminino, Joaquim disse ter escrito certa vez que "a estagiária de jornalismo com seu umbigo de fora era a versão 2000 da estagiária de calcanhar sujo de que falava Nelson Rodrigues". Olhei para meu calcanhar: limpo. Ufa. Olhei para meu umbigo: coberto. Quer dizer, mais ou menos. Era só me espreguiçar e....Mas peraí, Joaquim: meu pobre umbigo não é como o da Gisele, redemoinho guardião da modernidade sensual. Nem é sublinhado por um "piercing fofo", como você chamou aqueles das duas últimas gerações Brunet. Não deve estar no meu umbigo o tal borogodó de que tanto fala.
Percebi, então, que o nobre Joaquim havia-me lançado a seguinte questão: onde está o meu borogodó?
Passei alguns minutos com dedicação exclusiva e exaustiva a uma sincera egotrip. Talvez um dia eu entre num consultório e diga: "Injete-me silicone até me confundirem com a Dolly Parton". Mas acho pouco provável. Vou me virando assim mesmo, com meu cleavage ergonomicamente correto. Sei também que não sou o sonho de consumo de nenhum podófilo: calço 39/40 - não necessariamente nessa ordem. E, tenho certeza, nenhum louco me pagaria R$ 90 mil para desfilar com o biquíni da sua grife. Passo essa para a Gisele. Apesar dos pesares e dos constantes surtos de auto-comiseração, no geral estou feliz com minha plástica e não faço idéia de qual seria meu trunfo - ou meu borogodó, como preferir o nosso colunista.
Mas quando você pergunta, Joaquim, se ainda nascem mulheres de "coxas roliças e ancas fartas", parece que não anda pelas ruas e não nota a alma encantadora e expansiva das mulheres comuns, de pouco potencial de vídeo e passarela. Eu, por exemplo, estagiária de calcanhares limpos e umbigo recatado, nunca experimentei uma calça dessas de cintura baixa da Cavalera de que você fala. Acho que nem me caberiam.
Porém, como o senhor mesmo lembrou, o borogodó de uma não precisa estar exatamente no mesmo lugar do da outra. O umbiguinho da Gisele é modelo único, você diz. Concordo: chega a ser uma vergonha lingüística igualá-lo a todos os outros descendentes do latim umbilicu. É um furinho no ventre só pra caras assim do calibre do João Paulo Diniz, do Santoro ou daquele sabugo mofado do Leonardo DiCarpio. É modelo único como uma Ferrari feita sob medida ou um vestido da Daslu. Desenhado por algum deus bêbado de néctar e ambrosia, enquanto o deus das mulheres comuns devia estar a pão e água.
Só que você fala tanto do borogodó da Gisele, da Luana, da Cicarelli e da Cynthia, mas chega no final e manda que nós, mortais, não entremos nessa "tortura invejosa de academias de ginástica e dietas para ter o mesmo modismo que vai na barriga das outras". Você nos manda inventar, hoje, o nosso próprio borogodó, e apostar nele todas as nossas fichas.
Observando seu simpático 3X4, me pergunto: qual seria o seu borogodó?
Sei não, mas amanhã às nove estou na tortura. E esperarei ansiosamente pelas filosóficas questões que me proporá sua próxima coluna.