Ela, mulher etérea
Ela é abstrata
por ser tão concreta
e querer ir muito além
da concretude.
Ela é sólida,
mas desmancha no ar
como uma bolha de sabão
ou um falso sorriso
em vão.
Ela é infinda, mas infinitamente frugal
e mais que tudo é, ainda,
uma infinita sentimental.
Ela é simplória,
quer ser oculta
e sente baldia culpa
ao lutar por qualquer glória.
Ela se esquece de tudo
mas tem memória;
diz que o mundo merece estudo
e se interessa por qualquer história
(ê mulher contraditória...)
Ela é comodamente inconformada;
brega, crítica, tímida, impostora,
dominada e dominadora,
sempre por algo apaixonada.
É parafrênica, paranormal,
Musa da paralaxe conceitual,
De tudo gosta,
De nada é íntima,
Mulher disposta, mulher ínfima
Estúpida mulher, mulher normal.
Jovem pirotécnica,
tática
tétrica.
Receia ser apócrifa
E detesta perceber-se indigna:
Ela é um grande paradoxo
Que se pretende paradigma.
2/03
quinta-feira, maio 30, 2013
domingo, dezembro 30, 2012
Stella
Stella
Teu nome, imagem
De um sonho de menina
A estrela que pedi
Quando ainda não sabia
Que trarias muito mais...
Há muito tempo
Pensava em ti,
Para ti vivia;
Não te conhecia
- você nem existia!
Mas já respirava,
Pronta, latente,
Em algum lugar esperava
Sua hora de chegar
E ao menos duas vidas
Para sempre transformar.
E agora, Stella,
Tento descobrir
Como guiar uma estrela
E iniciar uma história
Que não posso controlar...
Afinal, menininha,
Que posso eu te ensinar?
“Seja feliz”, posso afirmar
(Não sei se isso irá ajudar).
Minha pequena estrela,
Uma vida nova
Que começa a ser trilhada!
Tens a chance de ser
O início da verdade
E para a posteridade
Poderás deixar
Muito mais
Muito mais
Que poeira estelar...
Mas Stella, menina,
Busque as estrelas!
No princípio eu te levo,
Escrevo-te, página branca,
Pintura imaginada
De um céu incandescente, mudo
Transparente e puro
Colorido com o amor mais profundo:
Stella, te digo,
Só agora existe sentido
Para cada sorriso no mundo.
2009
sexta-feira, março 21, 2008
Supérfluo
Eu achava que
não viveria
sem poesia.
Mas quando tive
de viver,
vivi;
a poesia
não me ajudou mais
que a prosa da vida
cotidiana.
Acordar, arrumar,
planejar, somar,
subtrair, pagar,
estudar, estudar,
trabalhar
trabalhar
trabalhar.
Onde estava a poesia?
Não passava por mim
nem quando via
flores e pássaros e a Lua.
A vida pragmática
é um pouco rasa
mas sem ela,
sem ela
não se vive.
Poesia é artigo de luxo.
Eu achava que
não viveria
sem poesia.
Mas quando tive
de viver,
vivi;
a poesia
não me ajudou mais
que a prosa da vida
cotidiana.
Acordar, arrumar,
planejar, somar,
subtrair, pagar,
estudar, estudar,
trabalhar
trabalhar
trabalhar.
Onde estava a poesia?
Não passava por mim
nem quando via
flores e pássaros e a Lua.
A vida pragmática
é um pouco rasa
mas sem ela,
sem ela
não se vive.
Poesia é artigo de luxo.
sábado, novembro 17, 2007
Faça
Vivemos reclamando do vizinho, do trânsito, da cidade, da violência, do Brasil, do mundo. Mas o que fazemos para melhorar a situação? Normalmente, quase nada. Pensando nisso, listei aqui algumas ações bem simples que podem ajudar a fazer diferença. Pode parecer que eu esteja repetindo o que todo mundo fala, mas acho que é o mínimo que posso fazer: ajudar a pôr na cabeça de quem esbarrar nesse blog que é possível, sim, melhorar o mundo com pequenas ações.
-Recicle o lixo. Se a prefeitura ainda não faz isso, ligue para a associação de catadores de papel mais próxima (em BH, Asmare -3201-0717) e diga que está interessado em fazer um convênio, depois telefone para a prefeitura da sua cidade e encha o saco deles até implantarem a coleta seletiva. Até lá, tome a iniciativa você mesmo e traga a idéia para a reunião de condomínio do seu prédio.
-Faça uma limpa no seu armário e na casa toda e se livre de tudo aquilo que não usa. Roupas, sapatos, brincos, caixas, brinquedos, livros, o vigésimo nono conjunto de tupperware, aquele refratário que você ganhou de presente há 17 anos e nunca usou. Muita gente ficaria feliz em ter cada uma dessas coisas que você nem lembra que tem.
-Não dê esmola em dinheiro: dê roupas, dê comida, converse com as pessoas.
-Jogue o óleo de cozinha no lugar certo, que não é o ralo da pia. No Rio, acesse o site http://www.disqueoleo.com.br/. Em BH (e provavelmente em outras cidades também), um dos locais que recebem óleo usado armazenado em garrafas pet é o supermercado Extra. Se o Extra mais perto de sua casa ainda não tem o coletor apropriado, ligue para o SAC da empresa: 0800-7732732.
-Feche a torneira enquanto escova os dentes e o chuveiro enquanto se ensaboa.
-Recicle pilhas e baterias de celulares, câmeras digitais, controle remoto, relógios etc. Elas contêm materiais que contaminam o solo e os lençóis freáticos. Sempre há lugares que recebem - em BH, por exemplo, o Banco Real.
-NUNCA, JAMAIS jogue lixo no chão, nem no mato. Leve um saco no carro, carregue outro para a praia. Nem chiclete deve ser jogado na rua, nem canudinho na areia. E, se vir alguém fazendo a barbaridade de jogar lixo no chão, não tenha vergonha e repreenda - sempre com educação.
-Falando em saco plástico: compre uma sacola de compras ou leve caixas de papelão na mala do carro quando for fazer supermercado. Reduza o uso de sacos plásticos ao mínimo necessário - o plástico demora de cem até 450 anos para se decompor.
-Se estiver dentro das suas possibilidades, "adote" uma criança carente de uma creche ou escola. Com R$30, 80, 100 por mês - quanto você puder e quiser - você pode ajudar uma criança a pagar material escolar, uniforme, lanche, sapato, ônibus. Se achar que não pode contribuir com nada, que seu orçamento está apertado, talvez seja hora de se organizar: às vezes a gente gasta 200 reais sem perceber, pagando estacionamento, pizza, sorvete, jantando fora, comprando coisas de que não precisamos.
-Novamente, se estiver dentro das suas possibilidades, dedique algum tempo a um trabalho voluntário. Ensinar uma língua, um esporte, visitar idosos, ler para cegos, dar aulas de reforço escolar...sempre há o que fazer. Uma forma de dar o primeiro passo para procurar quem precisa de ajuda é acessar o site http://www.voluntariado.org.br/.
-Dirija com calma. Lembre-se de que você não é a única pessoa que está com pressa de chegar a algum lugar. Se alguém fizer uma barbeiragem, segure-se e não xingue. No máximo, faça uma cara de desaprovação, seguida de um sorriso... A educação é mais importante que o seu orgulho ferido por ter sido passado para trás. E, se a barbeiragem partir de você, peça desculpas. Você vai desarmar o motorista que estava preparado para mandá-lo para aquele lugar.
-Diga as palavrinhas mágicas "por favor", "obrigado", "bom dia". Sorria para o ascensorista, para o gari, a faxineira - pessoas que trabalham para que sua vida seja mais confortável. Seja educado com todos, sem distinção de classe, cor ou seja o que for.
-JAMAIS fure fila. Não seja ridículo. Seja quem for, você não é melhor do que ninguém.
-Desista do seu baseadinho inocente. Droga não tem NADA de inocente. Agora já virou clichê dizer isso, mas a sua maconha do fim de semana ajuda, sim, a financiar o tráfico e engendrar a violência de que você tanto reclama. Você pode ser a favor ou contra a descriminalização, mas, enquanto ela não for realidade, seja responsável e deixe seu beckzinho de lado. E não venha com aquela desculpa esfarrapada de que "eu compro de um conhecido meu que planta em casa".
-Seja honesto nas mínimas coisas. Subornar o guarda de trânsito coloca você no mesmo nível do político que desvia dinheiro público. Pegar balinhas inocentes nas Lojas Americanas, comer pão-de-queijo no supermercado e sair sem pagar, comprar CDs e DVDs piratas, não devolver o troco dado em excesso, sonegar imposto, falsificar carteirinha de estudante - se você faz algo assim, não tem moral para falar do Renan Calheiros.
-Não desperdice comida. Compre o necessário, e se achar que não vai comer tudo, dê para alguém antes que vença o prazo de validade.
-Esse é o mais difícil e mais polêmico: não gaste dinheiro à toa. Vivemos numa sociedade em que se acredita que, se ganhamos dinheiro com nosso trabalho honesto, podemos gastá-lo como bem entendermos. Em parte, isso pode ser verdade - quem controla seu salário ou sua mesada é você. Mas não exagere. Mesmo que você não tenha roubado de ninguém, é um contra-senso gastar R$1.000 em uma calça jeans, R$2.000 em um vestido. Para quê comprar um carro de R$80.000, sendo que um pela metade do preço vai te levar ao mesmo lugar? Não seja escravo da moda, dos últimos lançamentos, da ditadura do status e das aparências. Construa sua personalidade em cima do que você é, e não do que você tem. Não incentive o consumo desenfreado e irresponsável. Não pode ser considerado normal gastar dois salários mínimos em um tênis em um país em que as crianças morrem de diarréia.
Nada disso é impossível de ser feito; só precisamos nos acostumar à idéia de que quem deve agir é cada um de nós e parar de confortavelmente culpar o governo, a história do Brasil, o Congresso, o Bush ou Deus...Ponha as mãos na massa.
Vivemos reclamando do vizinho, do trânsito, da cidade, da violência, do Brasil, do mundo. Mas o que fazemos para melhorar a situação? Normalmente, quase nada. Pensando nisso, listei aqui algumas ações bem simples que podem ajudar a fazer diferença. Pode parecer que eu esteja repetindo o que todo mundo fala, mas acho que é o mínimo que posso fazer: ajudar a pôr na cabeça de quem esbarrar nesse blog que é possível, sim, melhorar o mundo com pequenas ações.
-Recicle o lixo. Se a prefeitura ainda não faz isso, ligue para a associação de catadores de papel mais próxima (em BH, Asmare -3201-0717) e diga que está interessado em fazer um convênio, depois telefone para a prefeitura da sua cidade e encha o saco deles até implantarem a coleta seletiva. Até lá, tome a iniciativa você mesmo e traga a idéia para a reunião de condomínio do seu prédio.
-Faça uma limpa no seu armário e na casa toda e se livre de tudo aquilo que não usa. Roupas, sapatos, brincos, caixas, brinquedos, livros, o vigésimo nono conjunto de tupperware, aquele refratário que você ganhou de presente há 17 anos e nunca usou. Muita gente ficaria feliz em ter cada uma dessas coisas que você nem lembra que tem.
-Não dê esmola em dinheiro: dê roupas, dê comida, converse com as pessoas.
-Jogue o óleo de cozinha no lugar certo, que não é o ralo da pia. No Rio, acesse o site http://www.disqueoleo.com.br/. Em BH (e provavelmente em outras cidades também), um dos locais que recebem óleo usado armazenado em garrafas pet é o supermercado Extra. Se o Extra mais perto de sua casa ainda não tem o coletor apropriado, ligue para o SAC da empresa: 0800-7732732.
-Feche a torneira enquanto escova os dentes e o chuveiro enquanto se ensaboa.
-Recicle pilhas e baterias de celulares, câmeras digitais, controle remoto, relógios etc. Elas contêm materiais que contaminam o solo e os lençóis freáticos. Sempre há lugares que recebem - em BH, por exemplo, o Banco Real.
-NUNCA, JAMAIS jogue lixo no chão, nem no mato. Leve um saco no carro, carregue outro para a praia. Nem chiclete deve ser jogado na rua, nem canudinho na areia. E, se vir alguém fazendo a barbaridade de jogar lixo no chão, não tenha vergonha e repreenda - sempre com educação.
-Falando em saco plástico: compre uma sacola de compras ou leve caixas de papelão na mala do carro quando for fazer supermercado. Reduza o uso de sacos plásticos ao mínimo necessário - o plástico demora de cem até 450 anos para se decompor.
-Se estiver dentro das suas possibilidades, "adote" uma criança carente de uma creche ou escola. Com R$30, 80, 100 por mês - quanto você puder e quiser - você pode ajudar uma criança a pagar material escolar, uniforme, lanche, sapato, ônibus. Se achar que não pode contribuir com nada, que seu orçamento está apertado, talvez seja hora de se organizar: às vezes a gente gasta 200 reais sem perceber, pagando estacionamento, pizza, sorvete, jantando fora, comprando coisas de que não precisamos.
-Novamente, se estiver dentro das suas possibilidades, dedique algum tempo a um trabalho voluntário. Ensinar uma língua, um esporte, visitar idosos, ler para cegos, dar aulas de reforço escolar...sempre há o que fazer. Uma forma de dar o primeiro passo para procurar quem precisa de ajuda é acessar o site http://www.voluntariado.org.br/.
-Dirija com calma. Lembre-se de que você não é a única pessoa que está com pressa de chegar a algum lugar. Se alguém fizer uma barbeiragem, segure-se e não xingue. No máximo, faça uma cara de desaprovação, seguida de um sorriso... A educação é mais importante que o seu orgulho ferido por ter sido passado para trás. E, se a barbeiragem partir de você, peça desculpas. Você vai desarmar o motorista que estava preparado para mandá-lo para aquele lugar.
-Diga as palavrinhas mágicas "por favor", "obrigado", "bom dia". Sorria para o ascensorista, para o gari, a faxineira - pessoas que trabalham para que sua vida seja mais confortável. Seja educado com todos, sem distinção de classe, cor ou seja o que for.
-JAMAIS fure fila. Não seja ridículo. Seja quem for, você não é melhor do que ninguém.
-Desista do seu baseadinho inocente. Droga não tem NADA de inocente. Agora já virou clichê dizer isso, mas a sua maconha do fim de semana ajuda, sim, a financiar o tráfico e engendrar a violência de que você tanto reclama. Você pode ser a favor ou contra a descriminalização, mas, enquanto ela não for realidade, seja responsável e deixe seu beckzinho de lado. E não venha com aquela desculpa esfarrapada de que "eu compro de um conhecido meu que planta em casa".
-Seja honesto nas mínimas coisas. Subornar o guarda de trânsito coloca você no mesmo nível do político que desvia dinheiro público. Pegar balinhas inocentes nas Lojas Americanas, comer pão-de-queijo no supermercado e sair sem pagar, comprar CDs e DVDs piratas, não devolver o troco dado em excesso, sonegar imposto, falsificar carteirinha de estudante - se você faz algo assim, não tem moral para falar do Renan Calheiros.
-Não desperdice comida. Compre o necessário, e se achar que não vai comer tudo, dê para alguém antes que vença o prazo de validade.
-Esse é o mais difícil e mais polêmico: não gaste dinheiro à toa. Vivemos numa sociedade em que se acredita que, se ganhamos dinheiro com nosso trabalho honesto, podemos gastá-lo como bem entendermos. Em parte, isso pode ser verdade - quem controla seu salário ou sua mesada é você. Mas não exagere. Mesmo que você não tenha roubado de ninguém, é um contra-senso gastar R$1.000 em uma calça jeans, R$2.000 em um vestido. Para quê comprar um carro de R$80.000, sendo que um pela metade do preço vai te levar ao mesmo lugar? Não seja escravo da moda, dos últimos lançamentos, da ditadura do status e das aparências. Construa sua personalidade em cima do que você é, e não do que você tem. Não incentive o consumo desenfreado e irresponsável. Não pode ser considerado normal gastar dois salários mínimos em um tênis em um país em que as crianças morrem de diarréia.
Nada disso é impossível de ser feito; só precisamos nos acostumar à idéia de que quem deve agir é cada um de nós e parar de confortavelmente culpar o governo, a história do Brasil, o Congresso, o Bush ou Deus...Ponha as mãos na massa.
segunda-feira, outubro 16, 2006
Caution:
Eu costumava ser uma pessoa boa. Não que hoje eu seja péssima, mas é terrível sentir como a gente endurece mesmo. Não acreditava que isso pudesse acontecer. Achava que minha personalidade da infância e adolescência seria a minha personalidade para sempre. Sei que o íntimo, as convicções, a índole, alma ou o que quer que seja, essas coisas não mudam assim tão rapidamente. Mas são as pequenas atitudes que vão nos transformando em pessoas menos tolerantes, menos pacientes, mais críticas. Hoje eu me forço a ter um impulso que até bem pouco tempo atrás era natural: compreender alguém antes de julgar. Por que essa criatura está sendo tão grossa comigo? Por que é tão invejosa? Por que motivo será que cospe fogo e jamais dá bom dia ou boa noite? Quase nada acontece por acaso, e pouca gente é má ou estúpida de graça. Antes eu compreendia isso instintivamente; hoje, muitas vezes primeiro julgo, depois me arrependo e tento compreender, mas aí já pode ser tarde demais.
Ainda assim, eu vivo repetindo que prefiro ser considerada boboca a desconfiar de tudo e de todos. Prefiro ser passada para trás a decretar que a natureza humana é podre e que, no fundo, todo mundo é mau, muito mau. Mas o problema é que eu estou deixando de ser boboca. Estou me tornando uma criatura daquelas que analisam os outros dos pés à cabeça, que calculam o potencial de atitude em cada fio de cabelo antes de pensarem na hipótese de atribuir um pouquinho de confiança a um ser humano.
Portanto, para quem acha que ainda sou aquela Renatinha boazinha, coitadinha, tão legal, que ajuda todo mundo, que não se importa em ser a última da fila, que sorri ao levar uma patada, que dá de bom grado o último biscoito do pacote para qualquer um - mantenha distância, pois por dentro eu posso estar me mordendo de raiva e preparando uma pequena vingança inconsciente. Cuidado comigo.
Eu costumava ser uma pessoa boa. Não que hoje eu seja péssima, mas é terrível sentir como a gente endurece mesmo. Não acreditava que isso pudesse acontecer. Achava que minha personalidade da infância e adolescência seria a minha personalidade para sempre. Sei que o íntimo, as convicções, a índole, alma ou o que quer que seja, essas coisas não mudam assim tão rapidamente. Mas são as pequenas atitudes que vão nos transformando em pessoas menos tolerantes, menos pacientes, mais críticas. Hoje eu me forço a ter um impulso que até bem pouco tempo atrás era natural: compreender alguém antes de julgar. Por que essa criatura está sendo tão grossa comigo? Por que é tão invejosa? Por que motivo será que cospe fogo e jamais dá bom dia ou boa noite? Quase nada acontece por acaso, e pouca gente é má ou estúpida de graça. Antes eu compreendia isso instintivamente; hoje, muitas vezes primeiro julgo, depois me arrependo e tento compreender, mas aí já pode ser tarde demais.
Ainda assim, eu vivo repetindo que prefiro ser considerada boboca a desconfiar de tudo e de todos. Prefiro ser passada para trás a decretar que a natureza humana é podre e que, no fundo, todo mundo é mau, muito mau. Mas o problema é que eu estou deixando de ser boboca. Estou me tornando uma criatura daquelas que analisam os outros dos pés à cabeça, que calculam o potencial de atitude em cada fio de cabelo antes de pensarem na hipótese de atribuir um pouquinho de confiança a um ser humano.
Portanto, para quem acha que ainda sou aquela Renatinha boazinha, coitadinha, tão legal, que ajuda todo mundo, que não se importa em ser a última da fila, que sorri ao levar uma patada, que dá de bom grado o último biscoito do pacote para qualquer um - mantenha distância, pois por dentro eu posso estar me mordendo de raiva e preparando uma pequena vingança inconsciente. Cuidado comigo.
terça-feira, fevereiro 21, 2006
Meu encontro com Bono Vox
Fim do ano de 2000. Eu era estagiária. Pedi (ou quase implorei) para a chefe me credenciar para a coletiva de imprensa do U2, que estava no Brasil para divulgar o álbum "All that you can't leave behind" e fazer um showcase para meia dúzia de metidos a besta convidados do Fantástico. Primeiro, fui receber a banda no aeroporto. Eles chegaram pelo outro lado, driblando imprensa e fãs. Fiz uma materinha boba com os alucinados que os esperavam vestidos de U2 da cabeça aos pés, com as meninas do fã-clube que pintaram "U2" nas unhas e se tatuaram, com o perdido que deixou o cabelo crescer, fez um penteado estilo Bono e comprou óculos coloridos iguais aos dele. Dia seguinte, fico sabendo que fui credenciada como fotógrafa, já que o mestre underground Nervoso era nosso repórter oficial de cultura.
Chegamos ao Copacabana Palace. Eu dizendo sou fã, mas não sou tiete, e pensando que tinha a obrigação moral de perguntar alguma coisa na coletiva, qualquer coisa. Mas não fazia idéia do que seria. E estava tensa, sei lá por quê.
Conseguimos sentar mais ou menos na quinta fila do auditório. Subi no palquinho onde eles sentariam e posicionei meu gravador debaixo da boca imaginária de Bono Vox. E parti com minha Mavica, na época ainda uma boa câmera digital, hoje um trambolho ridículo. Quando entrei na salinha, aquele bando de fotógrafos se amontoava em um espaço mínimo, em cima de uma espécie de palanque. Na frente, uma placa de madeira com fundo branco. Eu, grande e de salto, não podia dar um passo à frente sem que aquele enxame reclamasse: "Quem é grande fica atrás!!" Fiquei no meio, encolhidinha. Então anunciaram que eles vinham aí. Bono foi o primeiro a entrar, de preto, sempre, e fazendo um "V" com os dedos da mão direita. Dave Evans, vulgo The Edge, meio tímido, sorridente. Larry Mullen com aquele ar blasé de quem sabe que já nasceu cool. Adam Clayton, a essa altura, confesso, nem consegui perceber.
Eles começaram a fazer aquelas poses: Bono chutando o ar, agachando, The Edge cruzando os braços, Larry jogando na nossa cara o ar de sou foda. Os fotógrafos frenéticos pediam Bono, olha pra cá!, hey Bono!, please smile, The Edge! etc. E sacudiam tanto que metade das minhas fotos ficou tremida. Até que Bono Vox veio andando até nós e pegou a câmera de uma baixinha que estava na frente. Excuse me, e começou a tirar fotos do bando de patetas que estavam lá para tirar fotos dele. Devolveu a câmera à moça, que não sei se ficou feliz por ter sido a escolhida, ou p. da vida por ter perdido fotos que todos teriam.
E eles saíram. E saí eu, correndo para pegá-los a tempo no salão da coletiva. Afinal, todos aqueles fotógrafos podiam ser profissionais e coisa e tal, mas nem todos tinham conseguido duas pulseiras: uma de acesso à area de fotos, outra à da entrevista. Uhuuuuu.
Sentei ao lado do André Nervoso, logo na primeira cadeira no corredor. Contei para o meu pacientíssimo companheiro que tinha acabado de ver o U2 a três metros de distância! Uau! Alguns minutos depois, eles entraram pela lado direito do palco. Foram andando vagarosamente, os repórteres de pé, sabe-se lá se por reverência ou porque se esqueceram de sentar. Então aconteceu. O Boa Voz andou até o meio do palco, mas, em vez de subir e se sentar, virou para o "público" e veio andando. Cumprimentou o pessoal da primeira fileira, How are you doing, ou apenas sorrindo. Quando chegou à quarta fileira da direita, me veio aquele frio na barriga. Gente, ele vai apertar a minha mão! Foi um pouquinho além. Paul Hewson me olhou, dobrou um pouco os joelhos e se abaixou, como as mulheres fazem no meio da quadrilha em festa junina, ou como faziam as damas vitorianas. Um segundo depois ali estava Mr. Paul Hewson pegando na minha mão, e não a apertando como se fosse a de um homem, mas fazendo menção de beijá-la. Chegou bem perto, e, confesso, não consigo lembrar se ele realmente beijou ou se apenas encostou nela. Eu estava em transe. Ele soltou minha mão, sorriu e voltou para o palco. Sentou-se e por acaso mexeu no meu gravador, como se o ajeitasse. Eu não acreditava. E ao mesmo tempo me sentia absolutamente grotesca por ficar tão atônita ao receber um beijo na mão, ou semi-beijo, e uma leve reverência de um cara, que, no final das contas, era só um cara que teve a sorte de ser bom no que faz e ficar famoso. Um ser humano quase como outro qualquer. Quase.
Durante a entrevista, o André me fez levantar a mão para fazer uma pergunta. Eu não tinha idéia do que dizer. Que se dane o jornalismo, eu quero é ir ao show. Tudo o que eu pensava era "Mr. Hewson, would you mind singing In a little while whispering in my ears?", mas achei que não ia pegar bem. Infelizmente, ou graças a Deus, minha vez não chegou (todo mundo queria ser ouvido por Bono Vox) e eu baixei a mão de fininho, sob olhares de protesto do impassível Nervoso, que também não teve vez. Para compensar, a última pergunta foi concedida a um jornalista argentino: "Maradona ou Pelé?", indagou o cidadão. "The best is George Best", mandou o diplomático e simpático The Edge. Risos. Fim.
Quando achei que minha aventurinha havia terminado, outra pequena surpresa. No dia seguinte, tive que ficar de plantão na porta do hotel - por motivos de trabalho, óbvio... Rolava uma história de que eles gravariam um clipe no Rio. Boato confirmado: lá estava o U2, primeiro no terraço, depois na varanda do Copacabana Palace, logo ali, no primeiro andar, com câmeras e poses de videoclipe. Bono cantou um refrão de algo que não era uma música deles, a galera repetiu, enquanto a câmera filmava os fãs e também nos enquadrava, nós, os coadjuvantes jornalistas. Todo mundo crente que ia aparecer de figuração no clipe do U2. Passou um tempo, eles desceram e entraram em uma van na porta do hotel. Eu estava bem perto da janela, e, obviamente, fiquei olhando lá para dentro. Até que ele, meu amigo Paul Hewson, olhou para mim e cutucou The Edge, que sorriu. Larry estava atrás, em seu mundo particular e perfeito, e Adam, mais uma vez, passou desapercebido. Mr. Paul deu então um tchauzinho, tapou a boca com a mão e me mandou um beijo. Achei que não era comigo, olhei para o lado, mas era comigo sim, não era possível...Ri, eles riram, e a van partiu, bem devagar. Eles não olharam de novo, aí já seria demais, e tudo voltou ao normal: U2 lá no estrelato, eu aqui no anonimato. Abestalhada e anônima.
Ao contrário daquela presidente do fã-clube, a menina que tatuou U2 no braço e pintou as unhas, não consegui ir ao showcase. Não apareci no clipe de Walk on. Não fui ao catártico show de ontem, e claro que não estou no Morumbi nesse momento, escrevendo no meu laptop. Mas ainda vou a um show deles, tenho certeza.
Moral da história: Katilce uma ova, eu sou mais eu!
Fim do ano de 2000. Eu era estagiária. Pedi (ou quase implorei) para a chefe me credenciar para a coletiva de imprensa do U2, que estava no Brasil para divulgar o álbum "All that you can't leave behind" e fazer um showcase para meia dúzia de metidos a besta convidados do Fantástico. Primeiro, fui receber a banda no aeroporto. Eles chegaram pelo outro lado, driblando imprensa e fãs. Fiz uma materinha boba com os alucinados que os esperavam vestidos de U2 da cabeça aos pés, com as meninas do fã-clube que pintaram "U2" nas unhas e se tatuaram, com o perdido que deixou o cabelo crescer, fez um penteado estilo Bono e comprou óculos coloridos iguais aos dele. Dia seguinte, fico sabendo que fui credenciada como fotógrafa, já que o mestre underground Nervoso era nosso repórter oficial de cultura.
Chegamos ao Copacabana Palace. Eu dizendo sou fã, mas não sou tiete, e pensando que tinha a obrigação moral de perguntar alguma coisa na coletiva, qualquer coisa. Mas não fazia idéia do que seria. E estava tensa, sei lá por quê.
Conseguimos sentar mais ou menos na quinta fila do auditório. Subi no palquinho onde eles sentariam e posicionei meu gravador debaixo da boca imaginária de Bono Vox. E parti com minha Mavica, na época ainda uma boa câmera digital, hoje um trambolho ridículo. Quando entrei na salinha, aquele bando de fotógrafos se amontoava em um espaço mínimo, em cima de uma espécie de palanque. Na frente, uma placa de madeira com fundo branco. Eu, grande e de salto, não podia dar um passo à frente sem que aquele enxame reclamasse: "Quem é grande fica atrás!!" Fiquei no meio, encolhidinha. Então anunciaram que eles vinham aí. Bono foi o primeiro a entrar, de preto, sempre, e fazendo um "V" com os dedos da mão direita. Dave Evans, vulgo The Edge, meio tímido, sorridente. Larry Mullen com aquele ar blasé de quem sabe que já nasceu cool. Adam Clayton, a essa altura, confesso, nem consegui perceber.
Eles começaram a fazer aquelas poses: Bono chutando o ar, agachando, The Edge cruzando os braços, Larry jogando na nossa cara o ar de sou foda. Os fotógrafos frenéticos pediam Bono, olha pra cá!, hey Bono!, please smile, The Edge! etc. E sacudiam tanto que metade das minhas fotos ficou tremida. Até que Bono Vox veio andando até nós e pegou a câmera de uma baixinha que estava na frente. Excuse me, e começou a tirar fotos do bando de patetas que estavam lá para tirar fotos dele. Devolveu a câmera à moça, que não sei se ficou feliz por ter sido a escolhida, ou p. da vida por ter perdido fotos que todos teriam.
E eles saíram. E saí eu, correndo para pegá-los a tempo no salão da coletiva. Afinal, todos aqueles fotógrafos podiam ser profissionais e coisa e tal, mas nem todos tinham conseguido duas pulseiras: uma de acesso à area de fotos, outra à da entrevista. Uhuuuuu.
Sentei ao lado do André Nervoso, logo na primeira cadeira no corredor. Contei para o meu pacientíssimo companheiro que tinha acabado de ver o U2 a três metros de distância! Uau! Alguns minutos depois, eles entraram pela lado direito do palco. Foram andando vagarosamente, os repórteres de pé, sabe-se lá se por reverência ou porque se esqueceram de sentar. Então aconteceu. O Boa Voz andou até o meio do palco, mas, em vez de subir e se sentar, virou para o "público" e veio andando. Cumprimentou o pessoal da primeira fileira, How are you doing, ou apenas sorrindo. Quando chegou à quarta fileira da direita, me veio aquele frio na barriga. Gente, ele vai apertar a minha mão! Foi um pouquinho além. Paul Hewson me olhou, dobrou um pouco os joelhos e se abaixou, como as mulheres fazem no meio da quadrilha em festa junina, ou como faziam as damas vitorianas. Um segundo depois ali estava Mr. Paul Hewson pegando na minha mão, e não a apertando como se fosse a de um homem, mas fazendo menção de beijá-la. Chegou bem perto, e, confesso, não consigo lembrar se ele realmente beijou ou se apenas encostou nela. Eu estava em transe. Ele soltou minha mão, sorriu e voltou para o palco. Sentou-se e por acaso mexeu no meu gravador, como se o ajeitasse. Eu não acreditava. E ao mesmo tempo me sentia absolutamente grotesca por ficar tão atônita ao receber um beijo na mão, ou semi-beijo, e uma leve reverência de um cara, que, no final das contas, era só um cara que teve a sorte de ser bom no que faz e ficar famoso. Um ser humano quase como outro qualquer. Quase.
Durante a entrevista, o André me fez levantar a mão para fazer uma pergunta. Eu não tinha idéia do que dizer. Que se dane o jornalismo, eu quero é ir ao show. Tudo o que eu pensava era "Mr. Hewson, would you mind singing In a little while whispering in my ears?", mas achei que não ia pegar bem. Infelizmente, ou graças a Deus, minha vez não chegou (todo mundo queria ser ouvido por Bono Vox) e eu baixei a mão de fininho, sob olhares de protesto do impassível Nervoso, que também não teve vez. Para compensar, a última pergunta foi concedida a um jornalista argentino: "Maradona ou Pelé?", indagou o cidadão. "The best is George Best", mandou o diplomático e simpático The Edge. Risos. Fim.
Quando achei que minha aventurinha havia terminado, outra pequena surpresa. No dia seguinte, tive que ficar de plantão na porta do hotel - por motivos de trabalho, óbvio... Rolava uma história de que eles gravariam um clipe no Rio. Boato confirmado: lá estava o U2, primeiro no terraço, depois na varanda do Copacabana Palace, logo ali, no primeiro andar, com câmeras e poses de videoclipe. Bono cantou um refrão de algo que não era uma música deles, a galera repetiu, enquanto a câmera filmava os fãs e também nos enquadrava, nós, os coadjuvantes jornalistas. Todo mundo crente que ia aparecer de figuração no clipe do U2. Passou um tempo, eles desceram e entraram em uma van na porta do hotel. Eu estava bem perto da janela, e, obviamente, fiquei olhando lá para dentro. Até que ele, meu amigo Paul Hewson, olhou para mim e cutucou The Edge, que sorriu. Larry estava atrás, em seu mundo particular e perfeito, e Adam, mais uma vez, passou desapercebido. Mr. Paul deu então um tchauzinho, tapou a boca com a mão e me mandou um beijo. Achei que não era comigo, olhei para o lado, mas era comigo sim, não era possível...Ri, eles riram, e a van partiu, bem devagar. Eles não olharam de novo, aí já seria demais, e tudo voltou ao normal: U2 lá no estrelato, eu aqui no anonimato. Abestalhada e anônima.
Ao contrário daquela presidente do fã-clube, a menina que tatuou U2 no braço e pintou as unhas, não consegui ir ao showcase. Não apareci no clipe de Walk on. Não fui ao catártico show de ontem, e claro que não estou no Morumbi nesse momento, escrevendo no meu laptop. Mas ainda vou a um show deles, tenho certeza.
Moral da história: Katilce uma ova, eu sou mais eu!
segunda-feira, dezembro 19, 2005
O Rio fica a seis horas
e BH não tem praia, eu vou à piscina do Minas, e aqui tenho conhecidos que ainda não são amigos mas ficam cada vez mais gente boa, e aqui não tenho enzima brendase, nem tatiloka, nem sunset cliffs, nem twin, nem o Dois Irmãos, mas tenho uma família dorianna e a Lagoa dos Ingleses. E se aqui não pára de chover, aqui eu vejo cinco episódios de Friends e gargalho ao lado dele, e leio, e estudo, e durmo feliz com os pés quentinhos debaixo do edredon que eu nunca usei em Laranjeiras. Não tem Matriz, nem cobal, nem BG, mas tem ele rindo quando eu faço birra na quadra de tênis, tem ele querendo que eu almoce junto em vez de fazer francês, tem sobrinhos correndo pela sala, tem azulejos amarelos na cozinha e tem uma casa com horta e histórias em cada canto. E nós acreditamos, e rezamos, e dividimos uma pizza, e planejamos, planejamos tudo; e quando chega sábado eu nem lembro da Garcia. E se lá eu tinha um empreguinho num lugar considerado bacana, aqui eu tenho o dia inteiro de tranqüilidade e o trabalho com que há exatamente um ano eu sonhava. Amigos sempre fazem falta, mas eles estão pelo mundo, e eu sei que vou com eles: Istambul, França, Orlando, Itália, Barcelona, San Diego, Chicago, Recreio dos Bandeirantes. Mas o aqui caminha sem pressa, sem sobressaltos e sem agonia - o máximo que posso pedir para 2006 é tanta paz quanto a que tenho hoje. No fundo, acho que lá e aqui, advérbios, dão no mesmo: quem mudou foi o substantivo, o sujeito...Não consigo entristecer ou pensar em reclamar por mais de dois segundos. E se lá eu sentava em qualquer bar com amigos e ria, e conversava sobre coisas inúteis e coisas profundas ainda mais inúteis, aqui eu conto para ele o que eu aprendo, e ele me ajuda a escolher o melhor tênis para correr, e eu peço massagem nos ombros e ele me dá o mundo.
E todos os dias eu percebo que até o que me assustava faz cada vez mais sentido.
e BH não tem praia, eu vou à piscina do Minas, e aqui tenho conhecidos que ainda não são amigos mas ficam cada vez mais gente boa, e aqui não tenho enzima brendase, nem tatiloka, nem sunset cliffs, nem twin, nem o Dois Irmãos, mas tenho uma família dorianna e a Lagoa dos Ingleses. E se aqui não pára de chover, aqui eu vejo cinco episódios de Friends e gargalho ao lado dele, e leio, e estudo, e durmo feliz com os pés quentinhos debaixo do edredon que eu nunca usei em Laranjeiras. Não tem Matriz, nem cobal, nem BG, mas tem ele rindo quando eu faço birra na quadra de tênis, tem ele querendo que eu almoce junto em vez de fazer francês, tem sobrinhos correndo pela sala, tem azulejos amarelos na cozinha e tem uma casa com horta e histórias em cada canto. E nós acreditamos, e rezamos, e dividimos uma pizza, e planejamos, planejamos tudo; e quando chega sábado eu nem lembro da Garcia. E se lá eu tinha um empreguinho num lugar considerado bacana, aqui eu tenho o dia inteiro de tranqüilidade e o trabalho com que há exatamente um ano eu sonhava. Amigos sempre fazem falta, mas eles estão pelo mundo, e eu sei que vou com eles: Istambul, França, Orlando, Itália, Barcelona, San Diego, Chicago, Recreio dos Bandeirantes. Mas o aqui caminha sem pressa, sem sobressaltos e sem agonia - o máximo que posso pedir para 2006 é tanta paz quanto a que tenho hoje. No fundo, acho que lá e aqui, advérbios, dão no mesmo: quem mudou foi o substantivo, o sujeito...Não consigo entristecer ou pensar em reclamar por mais de dois segundos. E se lá eu sentava em qualquer bar com amigos e ria, e conversava sobre coisas inúteis e coisas profundas ainda mais inúteis, aqui eu conto para ele o que eu aprendo, e ele me ajuda a escolher o melhor tênis para correr, e eu peço massagem nos ombros e ele me dá o mundo.
E todos os dias eu percebo que até o que me assustava faz cada vez mais sentido.
quarta-feira, dezembro 14, 2005
Unbelievable
Talvez todos já soubessem, mas só agora eu descobri que o senhor George W. Bush é formado em história por Yale (eu sabia que ele tinha ido pra Yale, onde teve desempenho pífio e bebeu muuuito. Mas história???) .
Além disso, fez MBA em Harvard. E é o primeiro presidente dos EUA com MBA.
Ou seja: apesar dos pesares, ainda prefiro nosso torneiro mecânico.
Talvez todos já soubessem, mas só agora eu descobri que o senhor George W. Bush é formado em história por Yale (eu sabia que ele tinha ido pra Yale, onde teve desempenho pífio e bebeu muuuito. Mas história???) .
Além disso, fez MBA em Harvard. E é o primeiro presidente dos EUA com MBA.
Ou seja: apesar dos pesares, ainda prefiro nosso torneiro mecânico.
terça-feira, agosto 09, 2005
Páreo duro com Mr. Paul Rabbit
Um mês de férias na faculdade. Resolvi tirar a cabeça da miséria e adiantar uns livros da lista infinita. O quarto e último que, depois de tomar coragem, resolvi finalmente pegar, foi o "fenômeno" O Código Da Vinci. Jurei para mim mesma que ia ler sem preconceitos, ler para me divertir mesmo, como eu costumava ler Agatha Christie. Se até o Miguelito gostou, devia ser bom. Estou ligeiramente atrasada, eu sei, o troço estourou faz tempo, mas vou ter que fazer uns comentários aqui.
O cara é engenhoso, isso temos que admitir. Ele faz um mosaico que aos poucos vai se montando e (quase) fazendo sentido. Agora, dizer que é bem escrito, como ouvi por aí, é um baita exagero. Encarar Dan Brown depois de ler Cem anos de solidão é dose. A impressão que tive é que estava lendo um roteiro de cinema (californiano). Mais: que o roteiro tinha sido baseado no Google e em meia dúzia de best-sellers polêmicos anteriores. Mas o pior foi se revelando aos poucos. A "pesquisa" dele tem muita cara de google puro. Ele erra ABSURDAMENTE.
Para começar, ele resolve falar de obras de arte e da Bíblia, mas parece não saber o básico de algumas obras que cita e nem ter sequer folheado as Escrituras. Ainda por cima, comete erros históricos graves - tão graves que até eu detectei alguns em segundos. Por exemplo: ele cita algumas vezes que o Vaticano fez isso ou aquilo no século IV depois de Cristo, ou nos primeiros séculos da Igreja primitiva. Alguém avise a ele que nessa época o "Vaticano" ainda NÃO EXISTIA. Mais: não se cansa de repetir que "Eva comeu a maçã". Dan andou lendo Branca de Neve, porque o Gênese diz "fruto da árvore do conhecimento". A maçã é fruto do imaginário popular, e, portanto, se o eruditíssimo Langdon é um grande conhecedor dos textos sagrados e coisa e tal, não pode ficar falando de maçã.
Outro "detalhe", esse bem, bem feioso: Dan Brown diz que, em 325, Constantino unificou Roma sob uma única religião oficial, o Cristianismo. Aloouuuu, quem oficializou o Cristianismo como religião do Império foi Teodósio, mais de meio século depois! O que Constantino fez foi decretar a liberdade de culto, e assim diminuir as perseguições aos cristãos (e a outros). Gente, se o cara faz um livro colocando falas na boca de supostos eruditos, que explicam os maiores mistérios do mundo, mas não leu nem um livrinho de segundo grau sobre o Império Romano, dá para acreditar em alguma coisa do que ele apresenta como verdade (mesmo que seja na boca de personagens)?? Nesses momentos confesso que achei o livro meio ridículo, de tão pretensioso.
Engraçado também é um furo sobre uma peça primordial do quebra-cabeça. Fica clara a defesa da tese da adoração à deusa, ao "sagrado feminino". A "deusa" seria Maria Madalena. Ao mesmo tempo, ele diz que os evangelhos apócrifos foram proibidos porque humanizam tanto Jesus que põem em dúvida a divindade dele. Porém, Maria Madalena seria sagrada porque...concebeu uma filha de Jesus! Mas, vem cá, se Jesus não era divino, como a divindade de Madalena adviria deste fato?? É só parar para pensar: não faz sentido. Mais uma vez, o tema aqui não é religião. É lógica, um dos alicerces em que ele pretende basear o livro.
Agora, antes que vocês perguntem, vamos a uns pequenos pormenores bem simples em relação às obras de arte, que, obviamente, não fui euzinha que percebi. O quadro de Caravaggio que Jacques Saunière, o curador do Louvre mortalmente ferido, levanta da parede, pesa quase 100 Kg; o quadro A dama dos rochedos, de Da Vinci, cuja tela Sophie Neveu ameaça rasgar com o joelho, foi pintado em madeira, ou seja, não tem tela. Esses detalhes que tornam inconcebíveis as palavras de Dan Brown foram apontados pelo Mario Sergio Conti num artigo no Estadão. Simplesmente Brown resolve elucidar o que Leonardo da Vinci pensava ao pintar suas obras, mas não fez nem o dever de casa pra saber se ele pintou em tela ou madeira. Lastimável.
Existem ainda muitos, mas muitos erros e falsidades no livro. Como não sou nenhuma intelectual, algumas coisas eu só desconfiava de que deviam estar erradas, mas meu letradíssimo sogro esclareceu várias dúvidas. Escolhi algumas das inúmeras para contar aqui.
-- Ele afirma que os merovíngios foram os fundadores de Paris. Só que a cidade foi fundada por uma tribo celta de gauleses chamada, em latim, de Parisii, no século II a.C. O que os merovíngios fizeram foi escolher Paris como capital em 508 d.C. Dan Brown errou somente 800 anos, além da responsabilidade pela fundação.
-- Diz que os manuscritos do Mar Morto foram descobertos em 1950 e que contêm a verdadeira história do Santo Graal. Eles foram descobertos em 1947 e são documentos dos essênios, seita judaica, e não contêm nenhuma menção a Jesus ou a Maria Madalena.
-- Pior: ele afirma (inventa) que Maria Madalena foi proscrita pela Igreja, a qual proibiu que se tocasse no nome dela, e que hoje ela está presente apenas em "mensagens subliminares" em obras de arte, músicas ou obras de Walt Disney (Mickey Mouse, aliás, parece ser, ao lado de Da Vinci, o maior defensor de Maria Madalena e do "sagrado feminino", segundo Brown). Novamente, peço para alguém avisar a ele que a Igreja a celebra como santa e que Maria Madalena é uma das poucas pessoas invocadas na Ladainha de Todos os Santos. E, ainda, há passagens no Novo Testamento (será que ele se deu ao trabalho de ler algum evangelho?) em que Madalena é abertamente exaltada.
-- Outro erro grotesco: ele diz que os judeus cultuavam uma deusa no Templo de Jerusalém, a shekinah. Shekinah não é nome de deusa, mas sim a designação que os rabinos davam à presença de Deus (Iaweh) junto ao seu povo.
-- Brown afirma que os evangelhos apócrifos contariam a "verdadeira história de Jesus", testemunhando que fora casado com Maria Madalena e que havia correntes cristãs que mantinham o culto ao "sagrado feminino". Mas obviamente omite o fato de que estes mesmos apócrifos (os quais foram escritos entre os séculos II e IV - alguns por seitas gnósticas -, ao passo que os Evangelhos do Novo Testamento foram escritos de 70 a 95 d.C., poucas décadas depois da morte de Cristo) reveladores provinham de ambientes que nós classificaríamos como machistas e continham textos nada agradáveis ao "sagrado feminino" e à "deusa". Eis um trecho do apócrifo de Tomé (114):
"Simão Pedro lhes disse: 'Que Maria saia de nosso meio, pois as mulheres não são dignas da Vida.' Jesus disse: 'Eis que vou guiá-la para torná-la macho, para que ela se torne também espírito vivo semelhante a vós, machos. Pois toda mulher que se fizer macho entrará no reino dos Céus." Uau, o sagrado feminino bomba nos apócrifos!
Enquanto as "verdades" de Dan Brown são envoltas numa aura de mistério, essas poucas informações que estão aqui são verificáveis. Basta quem estiver a fim pegar livros de História, a própria Bíblia, estudos especializados de história religiosa...Gente, até os apócrifos podem ser lidos! Não precisa ir até os...tchanraannn...Arquivos Secretos do Vaticano!
Enfim, se você ler o livro como uma completa ficção, pode até ser legal. Realmente diverte, prende a atenção, como um livro policial ou um filme com o Morgan Freeman. Mas se você ler acreditando no que Dan Brown põe na boca de seus pseudoespecialistas Robert Langdon e Leigh Teabing, amigão, você estará adentrando num mar de ignorância disfarçada com uma pretensiosa aura intelectualóide. Se quer ler boa ficção sobre "mistérios da Igreja", vá de O nome da Rosa. Mas, policial por policial, ainda prefiro a humildade de Miss Marple e Hercule Poirot.
P.S. - Se alguma alma curiosa se interessar, tenho uma análise com muito mais informações sobre as maluquices do Uncle Dan - inclusive a desconstrução da lenda medieval do Santo Graal, meio grande para postar aqui.
P.S.2 - "P.S." na igreja de Saint-Sulpice não significa "Priorado de Sião", mas sim Pierre e Sulpice, os patronos do templo. E o destrinchamento da sensacional história da carochinha do Priorado também está disponível para quem se interessar.
Aquele abraço.
Um mês de férias na faculdade. Resolvi tirar a cabeça da miséria e adiantar uns livros da lista infinita. O quarto e último que, depois de tomar coragem, resolvi finalmente pegar, foi o "fenômeno" O Código Da Vinci. Jurei para mim mesma que ia ler sem preconceitos, ler para me divertir mesmo, como eu costumava ler Agatha Christie. Se até o Miguelito gostou, devia ser bom. Estou ligeiramente atrasada, eu sei, o troço estourou faz tempo, mas vou ter que fazer uns comentários aqui.
O cara é engenhoso, isso temos que admitir. Ele faz um mosaico que aos poucos vai se montando e (quase) fazendo sentido. Agora, dizer que é bem escrito, como ouvi por aí, é um baita exagero. Encarar Dan Brown depois de ler Cem anos de solidão é dose. A impressão que tive é que estava lendo um roteiro de cinema (californiano). Mais: que o roteiro tinha sido baseado no Google e em meia dúzia de best-sellers polêmicos anteriores. Mas o pior foi se revelando aos poucos. A "pesquisa" dele tem muita cara de google puro. Ele erra ABSURDAMENTE.
Para começar, ele resolve falar de obras de arte e da Bíblia, mas parece não saber o básico de algumas obras que cita e nem ter sequer folheado as Escrituras. Ainda por cima, comete erros históricos graves - tão graves que até eu detectei alguns em segundos. Por exemplo: ele cita algumas vezes que o Vaticano fez isso ou aquilo no século IV depois de Cristo, ou nos primeiros séculos da Igreja primitiva. Alguém avise a ele que nessa época o "Vaticano" ainda NÃO EXISTIA. Mais: não se cansa de repetir que "Eva comeu a maçã". Dan andou lendo Branca de Neve, porque o Gênese diz "fruto da árvore do conhecimento". A maçã é fruto do imaginário popular, e, portanto, se o eruditíssimo Langdon é um grande conhecedor dos textos sagrados e coisa e tal, não pode ficar falando de maçã.
Outro "detalhe", esse bem, bem feioso: Dan Brown diz que, em 325, Constantino unificou Roma sob uma única religião oficial, o Cristianismo. Aloouuuu, quem oficializou o Cristianismo como religião do Império foi Teodósio, mais de meio século depois! O que Constantino fez foi decretar a liberdade de culto, e assim diminuir as perseguições aos cristãos (e a outros). Gente, se o cara faz um livro colocando falas na boca de supostos eruditos, que explicam os maiores mistérios do mundo, mas não leu nem um livrinho de segundo grau sobre o Império Romano, dá para acreditar em alguma coisa do que ele apresenta como verdade (mesmo que seja na boca de personagens)?? Nesses momentos confesso que achei o livro meio ridículo, de tão pretensioso.
Engraçado também é um furo sobre uma peça primordial do quebra-cabeça. Fica clara a defesa da tese da adoração à deusa, ao "sagrado feminino". A "deusa" seria Maria Madalena. Ao mesmo tempo, ele diz que os evangelhos apócrifos foram proibidos porque humanizam tanto Jesus que põem em dúvida a divindade dele. Porém, Maria Madalena seria sagrada porque...concebeu uma filha de Jesus! Mas, vem cá, se Jesus não era divino, como a divindade de Madalena adviria deste fato?? É só parar para pensar: não faz sentido. Mais uma vez, o tema aqui não é religião. É lógica, um dos alicerces em que ele pretende basear o livro.
Agora, antes que vocês perguntem, vamos a uns pequenos pormenores bem simples em relação às obras de arte, que, obviamente, não fui euzinha que percebi. O quadro de Caravaggio que Jacques Saunière, o curador do Louvre mortalmente ferido, levanta da parede, pesa quase 100 Kg; o quadro A dama dos rochedos, de Da Vinci, cuja tela Sophie Neveu ameaça rasgar com o joelho, foi pintado em madeira, ou seja, não tem tela. Esses detalhes que tornam inconcebíveis as palavras de Dan Brown foram apontados pelo Mario Sergio Conti num artigo no Estadão. Simplesmente Brown resolve elucidar o que Leonardo da Vinci pensava ao pintar suas obras, mas não fez nem o dever de casa pra saber se ele pintou em tela ou madeira. Lastimável.
Existem ainda muitos, mas muitos erros e falsidades no livro. Como não sou nenhuma intelectual, algumas coisas eu só desconfiava de que deviam estar erradas, mas meu letradíssimo sogro esclareceu várias dúvidas. Escolhi algumas das inúmeras para contar aqui.
-- Ele afirma que os merovíngios foram os fundadores de Paris. Só que a cidade foi fundada por uma tribo celta de gauleses chamada, em latim, de Parisii, no século II a.C. O que os merovíngios fizeram foi escolher Paris como capital em 508 d.C. Dan Brown errou somente 800 anos, além da responsabilidade pela fundação.
-- Diz que os manuscritos do Mar Morto foram descobertos em 1950 e que contêm a verdadeira história do Santo Graal. Eles foram descobertos em 1947 e são documentos dos essênios, seita judaica, e não contêm nenhuma menção a Jesus ou a Maria Madalena.
-- Pior: ele afirma (inventa) que Maria Madalena foi proscrita pela Igreja, a qual proibiu que se tocasse no nome dela, e que hoje ela está presente apenas em "mensagens subliminares" em obras de arte, músicas ou obras de Walt Disney (Mickey Mouse, aliás, parece ser, ao lado de Da Vinci, o maior defensor de Maria Madalena e do "sagrado feminino", segundo Brown). Novamente, peço para alguém avisar a ele que a Igreja a celebra como santa e que Maria Madalena é uma das poucas pessoas invocadas na Ladainha de Todos os Santos. E, ainda, há passagens no Novo Testamento (será que ele se deu ao trabalho de ler algum evangelho?) em que Madalena é abertamente exaltada.
-- Outro erro grotesco: ele diz que os judeus cultuavam uma deusa no Templo de Jerusalém, a shekinah. Shekinah não é nome de deusa, mas sim a designação que os rabinos davam à presença de Deus (Iaweh) junto ao seu povo.
-- Brown afirma que os evangelhos apócrifos contariam a "verdadeira história de Jesus", testemunhando que fora casado com Maria Madalena e que havia correntes cristãs que mantinham o culto ao "sagrado feminino". Mas obviamente omite o fato de que estes mesmos apócrifos (os quais foram escritos entre os séculos II e IV - alguns por seitas gnósticas -, ao passo que os Evangelhos do Novo Testamento foram escritos de 70 a 95 d.C., poucas décadas depois da morte de Cristo) reveladores provinham de ambientes que nós classificaríamos como machistas e continham textos nada agradáveis ao "sagrado feminino" e à "deusa". Eis um trecho do apócrifo de Tomé (114):
"Simão Pedro lhes disse: 'Que Maria saia de nosso meio, pois as mulheres não são dignas da Vida.' Jesus disse: 'Eis que vou guiá-la para torná-la macho, para que ela se torne também espírito vivo semelhante a vós, machos. Pois toda mulher que se fizer macho entrará no reino dos Céus." Uau, o sagrado feminino bomba nos apócrifos!
Enquanto as "verdades" de Dan Brown são envoltas numa aura de mistério, essas poucas informações que estão aqui são verificáveis. Basta quem estiver a fim pegar livros de História, a própria Bíblia, estudos especializados de história religiosa...Gente, até os apócrifos podem ser lidos! Não precisa ir até os...tchanraannn...Arquivos Secretos do Vaticano!
Enfim, se você ler o livro como uma completa ficção, pode até ser legal. Realmente diverte, prende a atenção, como um livro policial ou um filme com o Morgan Freeman. Mas se você ler acreditando no que Dan Brown põe na boca de seus pseudoespecialistas Robert Langdon e Leigh Teabing, amigão, você estará adentrando num mar de ignorância disfarçada com uma pretensiosa aura intelectualóide. Se quer ler boa ficção sobre "mistérios da Igreja", vá de O nome da Rosa. Mas, policial por policial, ainda prefiro a humildade de Miss Marple e Hercule Poirot.
P.S. - Se alguma alma curiosa se interessar, tenho uma análise com muito mais informações sobre as maluquices do Uncle Dan - inclusive a desconstrução da lenda medieval do Santo Graal, meio grande para postar aqui.
P.S.2 - "P.S." na igreja de Saint-Sulpice não significa "Priorado de Sião", mas sim Pierre e Sulpice, os patronos do templo. E o destrinchamento da sensacional história da carochinha do Priorado também está disponível para quem se interessar.
Aquele abraço.
quinta-feira, julho 07, 2005
Se vocês me deixarem,
paro sob a luz e
obscureço;
vou depressa abnegar o presente,
protestar contra o típico,
desprezar o útil;
vou esquecer a história
e colecionar metáforas.
Escrever no escuro,
pensar poeticamente
como pensam os analfabetos
e acham que pensam os arrogantes;
vou usar a linguagem
do tamanho da imaginação
de quem escolhe
flutuar a aprender
algo que leve a dizer:
Sou alguém.
(Se tivessem suas vidas sido boas,
vocês saberiam de cor
seus próprios poemas
e não teriam função nem sentido,
mas seriam únicos
e, talvez,
ficassem hoje
à vontade.)
Se vocês me deixarem,
prefiro não me reconhecer
nessa corja feliz;
nada, porém, me impede de escrever
com uma vara de pesca
que me faça
escolher as palavras.
Como se eu pudesse
descer ao fundo do mar
com os olhos fechados
e assim mesmo
deslizar pelos corais
e voltar à tona
com as mãos e a mente
cheias de pérolas.
paro sob a luz e
obscureço;
vou depressa abnegar o presente,
protestar contra o típico,
desprezar o útil;
vou esquecer a história
e colecionar metáforas.
Escrever no escuro,
pensar poeticamente
como pensam os analfabetos
e acham que pensam os arrogantes;
vou usar a linguagem
do tamanho da imaginação
de quem escolhe
flutuar a aprender
algo que leve a dizer:
Sou alguém.
(Se tivessem suas vidas sido boas,
vocês saberiam de cor
seus próprios poemas
e não teriam função nem sentido,
mas seriam únicos
e, talvez,
ficassem hoje
à vontade.)
Se vocês me deixarem,
prefiro não me reconhecer
nessa corja feliz;
nada, porém, me impede de escrever
com uma vara de pesca
que me faça
escolher as palavras.
Como se eu pudesse
descer ao fundo do mar
com os olhos fechados
e assim mesmo
deslizar pelos corais
e voltar à tona
com as mãos e a mente
cheias de pérolas.
quinta-feira, junho 09, 2005
Você acaba de perder a sua última chance de me conquistar
Tudo bem que eu tenho quase 400 amigos no Orkut. E que eu realmente conheço muita gente. E que, se eu "qui$er" viajar, tenho lugar pra ficar em muitas partes do Brasil e na Califórnia, Washington, Chicago, Flórida, Tennessee, Itália, Eslovênia, Croácia, Holanda, Argentina, França, Espanha e por aí vai. E tudo bem que sempre esbarro com gente conhecida, recebo e-mails saudosos e cartões de Natal (ainda existe gente fofa que manda cartão de Natal).
Pessoas, eu tenho inclusive uma comunidade no Orkut, "Amamos a Renatinha", com fiéis 20 participantes. A descrição diz que eu sou "super querida, amável, adorável, liiinda, amiga, companheira, carinhosa, alegre, brincalhona, inteligente, esperta, mulequinha, irmã, dedicada...etc etc etc!!" Uma formosura.
Mas a verdade é que eu acho que parei por aqui. Já estou bem de amigos e nunca mais vou conhecer alguém que eu possa mesmo chamar de "amigão". Tenho a impressão de que estourei a cota. Desperdicei alguns amigos por não dar a eles a devida atenção, ganhei outros por insistência (minha ou deles) e outros ainda apareceram assim, inesperadamente, e se transformaram em seres essenciais em poucos dias ou poucas horas.
Daqui para frente, porém, nada disso vai acontecer. Não é uma profecia auto-realizável - eu não vou parar de me comunicar e de me esforçar para vencer a timidez e distribuir simpatia. Nem tenho absolutamente nada contra os mineiros e mineiras. E não venham com essa de que, porque casei, vou virar um repolho anti-social. É uma sensação, uma constatação quase sobrenatural: grandes e eternos amigos não vão mais surgir na minha vida. Simples assim.
Afinal, mesmo com 400 "friends" no Orkut, teve um domingo em que eu queria ir ao cinema e NINGUÉM podia. E olha que eu estava no Rio...Ainda no Yakult, esses dias percebi algo estranho: alguém deixou de me amar. A comunidade que se declara à minha pessoa passou de 21 para 20 integrantes da noite para o dia. E jamais saberei quem desistiu de me amar.
Então: que diferença vai fazer se minha cota de amizades fortes tiver mesmo terminado? Se minha soulmate mora na Califórnia, minhas amigonas vivem indo para França, Espanha, Esteites ou trabalham 78 horas por dia, e mesmo assim nos vemos, nos amamos (sem precisar de comunidades) nos escrevemos e temos crises de risos à toa, que diferença vai fazer se eu morar em Belo Horizonte ou em qualquer outro lugar e não fizer mais grandes amigos??
Acabou. Quem conquistou, conquistou, quem não conquistou, não conquista mais. E tá bom assim.
Tudo bem que eu tenho quase 400 amigos no Orkut. E que eu realmente conheço muita gente. E que, se eu "qui$er" viajar, tenho lugar pra ficar em muitas partes do Brasil e na Califórnia, Washington, Chicago, Flórida, Tennessee, Itália, Eslovênia, Croácia, Holanda, Argentina, França, Espanha e por aí vai. E tudo bem que sempre esbarro com gente conhecida, recebo e-mails saudosos e cartões de Natal (ainda existe gente fofa que manda cartão de Natal).
Pessoas, eu tenho inclusive uma comunidade no Orkut, "Amamos a Renatinha", com fiéis 20 participantes. A descrição diz que eu sou "super querida, amável, adorável, liiinda, amiga, companheira, carinhosa, alegre, brincalhona, inteligente, esperta, mulequinha, irmã, dedicada...etc etc etc!!" Uma formosura.
Mas a verdade é que eu acho que parei por aqui. Já estou bem de amigos e nunca mais vou conhecer alguém que eu possa mesmo chamar de "amigão". Tenho a impressão de que estourei a cota. Desperdicei alguns amigos por não dar a eles a devida atenção, ganhei outros por insistência (minha ou deles) e outros ainda apareceram assim, inesperadamente, e se transformaram em seres essenciais em poucos dias ou poucas horas.
Daqui para frente, porém, nada disso vai acontecer. Não é uma profecia auto-realizável - eu não vou parar de me comunicar e de me esforçar para vencer a timidez e distribuir simpatia. Nem tenho absolutamente nada contra os mineiros e mineiras. E não venham com essa de que, porque casei, vou virar um repolho anti-social. É uma sensação, uma constatação quase sobrenatural: grandes e eternos amigos não vão mais surgir na minha vida. Simples assim.
Afinal, mesmo com 400 "friends" no Orkut, teve um domingo em que eu queria ir ao cinema e NINGUÉM podia. E olha que eu estava no Rio...Ainda no Yakult, esses dias percebi algo estranho: alguém deixou de me amar. A comunidade que se declara à minha pessoa passou de 21 para 20 integrantes da noite para o dia. E jamais saberei quem desistiu de me amar.
Então: que diferença vai fazer se minha cota de amizades fortes tiver mesmo terminado? Se minha soulmate mora na Califórnia, minhas amigonas vivem indo para França, Espanha, Esteites ou trabalham 78 horas por dia, e mesmo assim nos vemos, nos amamos (sem precisar de comunidades) nos escrevemos e temos crises de risos à toa, que diferença vai fazer se eu morar em Belo Horizonte ou em qualquer outro lugar e não fizer mais grandes amigos??
Acabou. Quem conquistou, conquistou, quem não conquistou, não conquista mais. E tá bom assim.
terça-feira, abril 12, 2005
Uma opinião (publicação não autorizada)
"Sobre o Papa, gostava dele sim. E sei que não não era santo. Mas também nunca achei que deveria ser. É óbvio que existe toda uma política envolvida nas questões do Vaticano, é lógico que o Papa não é apenas uma autoridade eclesiástica e é claro que a Igreja tem um certo poder e algumas vezes comete erros, sim.
Mas isso não fazia dele um ditador, ou quase um anti-Cristo, como algumas pessoas parecem fazer crer. Mas faz algum tempo que eu não me importo mais com os anti-católicos. Nós já vimos celeumas parecidas no seu blog, e é sempre a mesma coisa, as mesmas criticazinhas infantis. Repare que são sempre os mesmos temas: ah, não deixa usar camisinha. ah, é contra o aborto. ah, a Igreja é rica. ah, não deixam padre casar. ah, a Igreja isso e aquilo.
E ainda dizem que o Papa faz as pessoas menos esclarecidas não se protegerem e essas bobajadas todas. Falando sério, se essas pessoas realmente obedecessem ao que o Papa diz, casariam virgens e não cometeriam adultério. Diminuiria em uns 60% a propagação da Aids!!! Ninguém é obrigado a ser católico e mesmo nós católicos sabemos que não seguimos tudo que mandam à risca. Mas não se pode querer que a Igreja pregue coisas que vão de encontro à sua própria doutrina!!!
O problema, eu acho, é que as pessoas confundem a Igreja Católica instituição, com tudo que a envolve, com a Igreja que eu, você e milhões de católicos levam dentro de si, que é a Igreja do Deus vivo. É o que chamamos Fé. E isso é um desrespeito. Como seria um desrespeito da minha parte confundir islamismo com terrorismo, ou o judaismo com terrorismo de Estado. Aliás, isso é mais ou menos o que certas pessoas fazem quando se referem às Cruzadas. Penso que se essas pessoas vivessem no ano 2.505, atacariam os muçulmanos da época citando a Jihad de hoje em dia.
Mas essas críticas vêm de pessoas que não têm a menor idéia do que realmente é a Igreja. Hoje em dia, quando escuto alguma besteira desse tipo eu já nem me importo mais, sabe? Na boa, falar mal do Papa é in, né? Essas pessoas acham que são antenadas e rebeldes, mas não estão fazendo nada além de seguir o status quo. É como fumar maconha e se achar transgressor. Patético, eu diria. Corajoso é ser católico e careta, eheh.
Putz, escrevi pra caramba.
Beijos,
X."
"Sobre o Papa, gostava dele sim. E sei que não não era santo. Mas também nunca achei que deveria ser. É óbvio que existe toda uma política envolvida nas questões do Vaticano, é lógico que o Papa não é apenas uma autoridade eclesiástica e é claro que a Igreja tem um certo poder e algumas vezes comete erros, sim.
Mas isso não fazia dele um ditador, ou quase um anti-Cristo, como algumas pessoas parecem fazer crer. Mas faz algum tempo que eu não me importo mais com os anti-católicos. Nós já vimos celeumas parecidas no seu blog, e é sempre a mesma coisa, as mesmas criticazinhas infantis. Repare que são sempre os mesmos temas: ah, não deixa usar camisinha. ah, é contra o aborto. ah, a Igreja é rica. ah, não deixam padre casar. ah, a Igreja isso e aquilo.
E ainda dizem que o Papa faz as pessoas menos esclarecidas não se protegerem e essas bobajadas todas. Falando sério, se essas pessoas realmente obedecessem ao que o Papa diz, casariam virgens e não cometeriam adultério. Diminuiria em uns 60% a propagação da Aids!!! Ninguém é obrigado a ser católico e mesmo nós católicos sabemos que não seguimos tudo que mandam à risca. Mas não se pode querer que a Igreja pregue coisas que vão de encontro à sua própria doutrina!!!
O problema, eu acho, é que as pessoas confundem a Igreja Católica instituição, com tudo que a envolve, com a Igreja que eu, você e milhões de católicos levam dentro de si, que é a Igreja do Deus vivo. É o que chamamos Fé. E isso é um desrespeito. Como seria um desrespeito da minha parte confundir islamismo com terrorismo, ou o judaismo com terrorismo de Estado. Aliás, isso é mais ou menos o que certas pessoas fazem quando se referem às Cruzadas. Penso que se essas pessoas vivessem no ano 2.505, atacariam os muçulmanos da época citando a Jihad de hoje em dia.
Mas essas críticas vêm de pessoas que não têm a menor idéia do que realmente é a Igreja. Hoje em dia, quando escuto alguma besteira desse tipo eu já nem me importo mais, sabe? Na boa, falar mal do Papa é in, né? Essas pessoas acham que são antenadas e rebeldes, mas não estão fazendo nada além de seguir o status quo. É como fumar maconha e se achar transgressor. Patético, eu diria. Corajoso é ser católico e careta, eheh.
Putz, escrevi pra caramba.
Beijos,
X."
quinta-feira, fevereiro 03, 2005
Mulheres de Minas
Elas são diferentes. Seus "sssssssss" soam esnobes e ecoam em todos os lugares, bem distintos dos "xxxxxx" preguiçosos das malandrosas cariocas. A porcentagem de saltos altos e cabelos lisos de chapinha é certamente superior à do Rio, igualável apenas às tchutchucas da Barra. Diria até que essas moças são moradoras de uma grande Barra da Tijuca, menos loura e pretensiosa, mais natural e provinciana. (As morenas mineiras, aliás, são lindas. A fama do estado deve-se a elas.)
Andar de havaianas na rua, nem pensar; no shopping, muito menos. E o mais incrível: no churrasco, chinelos não entram. Na maioria das vezes, nem o pobre biquíni entra. As mineiras não perdem a pose em hipótese alguma. Churrascão de fim de semana, piscina limpinha, mansão de frente para o lago, gramado enorme, cerveja, sol, e eis o que acontece aqui nessas paragens: os homens caem na água, jogam futebol de sunga, vôlei na piscina, bebem, ficam descalços e comem horrores. Já as fêmeas, cada vez que precisam se levantar (provavelmente parar irem ao banheiro ajeitar os cabelos impecáveis) lutam - sempre com classe - para se equilibrar em seus saltos agulha. As calças e saias jeans (Vide Bula e Zoomp, provavelmente) são completadas por variações de batas (as blusas da moda também aqui), rímel nos olhos, batom, cabelos chapados, bolsa arrumada, em geral de couro, combinando com o sapato e às vezes com o cinto, e brincões escolhidos a dedo. (Só consigo pensar, com minhas havaianas e rabo de cavalo: por favorrrrrrr, quem usa CINTO em churrasco???) Enquanto os rapazes jogam pelada, elas conversam, sabe Deus sobre o quê. Comem pouco, óbvio, mas avançam discretamente o sinal na hora de atacar um docinho.
Piscina, vôlei, futebol, banho de chuva, dançar, comer carne com a mão, caipirinha, "eu nunca", batucada, pés na grama, gargalhadas escandalosas: palavras que não fazem a menor falta a esses admiráveis seres, que conseguem ficar na sombrinha a tarde inteira. Segundo meu antropólogo involuntário particular, elas não se sentem à vontade para irem à piscina e adjacências porque têm vergonha de seus corpos. Parecem magras, mas talvez não estejam acostumadas a exibirem suas celulites (elas as têm?) na praia todo sábado e domingo...Resta-me realizar averiguações futuras na piscina do Minas Tênis Clube, que, dizem, bomba no fim de semana.
Mas o mais intrigante é que elas são gente boa. Mais do que educadas, acabam sendo calorosas - não do jeito esculacho-carioca, mas à sua própria maneira. Gostam de conversar (o sotaque molengo das mais afetadas é irritante, mas o meu também deve ser para elas, então estamos quites), quase não falam palavrão e não deixam suas gírias (elas existem?) à mostra. Apesar da aparência um pouco esnobe de quem não perde a pose nem na bebedeira, elas são legais demaissssss da conta.
Elas são diferentes. Seus "sssssssss" soam esnobes e ecoam em todos os lugares, bem distintos dos "xxxxxx" preguiçosos das malandrosas cariocas. A porcentagem de saltos altos e cabelos lisos de chapinha é certamente superior à do Rio, igualável apenas às tchutchucas da Barra. Diria até que essas moças são moradoras de uma grande Barra da Tijuca, menos loura e pretensiosa, mais natural e provinciana. (As morenas mineiras, aliás, são lindas. A fama do estado deve-se a elas.)
Andar de havaianas na rua, nem pensar; no shopping, muito menos. E o mais incrível: no churrasco, chinelos não entram. Na maioria das vezes, nem o pobre biquíni entra. As mineiras não perdem a pose em hipótese alguma. Churrascão de fim de semana, piscina limpinha, mansão de frente para o lago, gramado enorme, cerveja, sol, e eis o que acontece aqui nessas paragens: os homens caem na água, jogam futebol de sunga, vôlei na piscina, bebem, ficam descalços e comem horrores. Já as fêmeas, cada vez que precisam se levantar (provavelmente parar irem ao banheiro ajeitar os cabelos impecáveis) lutam - sempre com classe - para se equilibrar em seus saltos agulha. As calças e saias jeans (Vide Bula e Zoomp, provavelmente) são completadas por variações de batas (as blusas da moda também aqui), rímel nos olhos, batom, cabelos chapados, bolsa arrumada, em geral de couro, combinando com o sapato e às vezes com o cinto, e brincões escolhidos a dedo. (Só consigo pensar, com minhas havaianas e rabo de cavalo: por favorrrrrrr, quem usa CINTO em churrasco???) Enquanto os rapazes jogam pelada, elas conversam, sabe Deus sobre o quê. Comem pouco, óbvio, mas avançam discretamente o sinal na hora de atacar um docinho.
Piscina, vôlei, futebol, banho de chuva, dançar, comer carne com a mão, caipirinha, "eu nunca", batucada, pés na grama, gargalhadas escandalosas: palavras que não fazem a menor falta a esses admiráveis seres, que conseguem ficar na sombrinha a tarde inteira. Segundo meu antropólogo involuntário particular, elas não se sentem à vontade para irem à piscina e adjacências porque têm vergonha de seus corpos. Parecem magras, mas talvez não estejam acostumadas a exibirem suas celulites (elas as têm?) na praia todo sábado e domingo...Resta-me realizar averiguações futuras na piscina do Minas Tênis Clube, que, dizem, bomba no fim de semana.
Mas o mais intrigante é que elas são gente boa. Mais do que educadas, acabam sendo calorosas - não do jeito esculacho-carioca, mas à sua própria maneira. Gostam de conversar (o sotaque molengo das mais afetadas é irritante, mas o meu também deve ser para elas, então estamos quites), quase não falam palavrão e não deixam suas gírias (elas existem?) à mostra. Apesar da aparência um pouco esnobe de quem não perde a pose nem na bebedeira, elas são legais demaissssss da conta.
terça-feira, novembro 30, 2004
Lá em casa tem um poço mas a água é muito limpa
Quando em poucos meses nada menos do que seis pessoas surgem com o mesmo tipo de problema de saúde você começa a pensar: algo está acontecendo. Ou será que sempre esteve acontecendo, e só você não enxergava?
É difícil não encarar enfermidades e mesmo a sombra da morte como algo cruel. Por mais que tenhamos fé, cada um a seu modo. Nesses momentos vejo dois padrões (óbvios) de conseqüências: a fé da pessoa vítima e de sua família aumenta vertiginosamente (ou mesmo vem à tona pela primeira vez), e surge uma atitude de reflexão, de repensar a vida, uma reavaliação de prioridades, revisão de valores ou seja lá como se chama esse sentimento de que todo mundo está fazendo tudo errado.
A doença e o vislumbre da proximidade da nossa única certeza - a morte - são tristes por essência, em qualquer idade, em qualquer pessoa. Por mais que sua avó tenha 103 anos, você vai ficar abatido quando ela se for e vai desejar que ela tivesse vivido até os 104. Ou pelo menos mais um dia.
Mas nada muda o fato de que é muito cruel ver pessoas jovens e aparentemente saudáveis virem seu mundo virar de cabeça para baixo quando se deparam com o sofrimento, a dor, o medo de que aquele pesadelo não vá embora pela manhã, porque na verdade ele não é um pesadelo e o mundo é assim mesmo: num dia está tudo bem, no outro você pode quase morrer.
Não há nada mais humano do que a dor, e não há nada mais desumano do que a dor. E nesse paradoxo a gente vive, acreditando que nada vai acontecer assim tão perto, ou fingindo que a saúde imperfeita não está lá, à espreita.
Nesse exato momento há pelo menos três meninas que eu conheço, as três lindas, as três entre 26 e 28 anos, sofrendo por motivos mais ou menos parecidos: por medo, por antecipação, por dor, ou mesmo por esperança de voltar a ter uma saúde perfeita.
Por que será que "há tempos são os jovens que adoecem"? Será que eles (nós) sempre adoeceram e eu nunca percebi, por ser então jovem demais, por estar distante demais desse tipo de problema? Tento fugir da minha fobia de perda de saúde reafirmando que raramente fico gripada, que faço exercícios, não fumo e me alimento direito: sou "saudável", apesar de alguns desmaios por causa da pressão baixa. Mas os baques nessa falsa confiança não param de acontecer, assim como os inevitáveis balanços de vida, promessas de não odiar ninguém, de aproveitar cada momento, de fazer sempre a coisa certa e, acima de tudo, de aceitar o que quer que venha a ocorrer, tendo em mente que aceitar não significa se entregar.
Esses fatos, quanto mais próximos de nós, quanto mais inesperados, mais nos levam a querer mudar alguma coisa, mas é sempre difícil perceber exatamente o que deve ser mudado. A real mudança, afinal, só costuma acontecer quando perdemos o que, no dia anterior, parecia parte inequívoca da existência - a saúde. No fim, minha conclusão é sempre a mesma: tenhamos fé, e seja o que Deus quiser.
Quando em poucos meses nada menos do que seis pessoas surgem com o mesmo tipo de problema de saúde você começa a pensar: algo está acontecendo. Ou será que sempre esteve acontecendo, e só você não enxergava?
É difícil não encarar enfermidades e mesmo a sombra da morte como algo cruel. Por mais que tenhamos fé, cada um a seu modo. Nesses momentos vejo dois padrões (óbvios) de conseqüências: a fé da pessoa vítima e de sua família aumenta vertiginosamente (ou mesmo vem à tona pela primeira vez), e surge uma atitude de reflexão, de repensar a vida, uma reavaliação de prioridades, revisão de valores ou seja lá como se chama esse sentimento de que todo mundo está fazendo tudo errado.
A doença e o vislumbre da proximidade da nossa única certeza - a morte - são tristes por essência, em qualquer idade, em qualquer pessoa. Por mais que sua avó tenha 103 anos, você vai ficar abatido quando ela se for e vai desejar que ela tivesse vivido até os 104. Ou pelo menos mais um dia.
Mas nada muda o fato de que é muito cruel ver pessoas jovens e aparentemente saudáveis virem seu mundo virar de cabeça para baixo quando se deparam com o sofrimento, a dor, o medo de que aquele pesadelo não vá embora pela manhã, porque na verdade ele não é um pesadelo e o mundo é assim mesmo: num dia está tudo bem, no outro você pode quase morrer.
Não há nada mais humano do que a dor, e não há nada mais desumano do que a dor. E nesse paradoxo a gente vive, acreditando que nada vai acontecer assim tão perto, ou fingindo que a saúde imperfeita não está lá, à espreita.
Nesse exato momento há pelo menos três meninas que eu conheço, as três lindas, as três entre 26 e 28 anos, sofrendo por motivos mais ou menos parecidos: por medo, por antecipação, por dor, ou mesmo por esperança de voltar a ter uma saúde perfeita.
Por que será que "há tempos são os jovens que adoecem"? Será que eles (nós) sempre adoeceram e eu nunca percebi, por ser então jovem demais, por estar distante demais desse tipo de problema? Tento fugir da minha fobia de perda de saúde reafirmando que raramente fico gripada, que faço exercícios, não fumo e me alimento direito: sou "saudável", apesar de alguns desmaios por causa da pressão baixa. Mas os baques nessa falsa confiança não param de acontecer, assim como os inevitáveis balanços de vida, promessas de não odiar ninguém, de aproveitar cada momento, de fazer sempre a coisa certa e, acima de tudo, de aceitar o que quer que venha a ocorrer, tendo em mente que aceitar não significa se entregar.
Esses fatos, quanto mais próximos de nós, quanto mais inesperados, mais nos levam a querer mudar alguma coisa, mas é sempre difícil perceber exatamente o que deve ser mudado. A real mudança, afinal, só costuma acontecer quando perdemos o que, no dia anterior, parecia parte inequívoca da existência - a saúde. No fim, minha conclusão é sempre a mesma: tenhamos fé, e seja o que Deus quiser.
domingo, outubro 31, 2004
Antes do pôr-do-sol
22h. Pus a camisola e andei um pouco pela casa, meio sem saber para onde ir. Tomei um copo de suco de abacaxi, sem perceber; penteei o cabelo, cumpri os rituais. Mas minha cabeça explodia. Eu queria escrever, escrever, conversar, ver mais uns três filmes, entender. Não que me identificasse com os personagens - nunca passei uma tarde em Paris, nunca tive um "one night stand". Não defendo o meio ambiente, não escrevi um livro, não tenho 32 anos nem um casamento infeliz. Em hipótese alguma poderia concretamente me identificar com a vida daquelas duas pessoas fictícias. Ao mesmo tempo eu me via na tela - não em uma frase ou um assunto, mas como se o fio daquela pequena história fosse também o meu. No fundo, assim como aquele quase-casal, eu percebi que jamais compreenderia coisa alguma. E isso me colocava num estado de êxtase profundo, como numa libertação, algo que gerava um alívio. A partir daquele momento eu podia fazer tudo, criar, criar, criar tudo. Mas rapidamente o momento passava e lá eu estava novamente, questionando o destino, pensando no passado e em todas as coincidências e acontecimentos improváveis que haviam me levado até ali, até aquele perfeito novo momento. E eu não sabia mais exatamente o que queria criar.
Quando dei por mim já estava especulando novamente sobre Deus, o sentido da vida, o que faço nesse planeta e outras questões nada originais ou respondíveis. Ou então constatando como o Ethan Hawke - paixão platônica desde "Viagem ao mundo dos sonhos", que ele fez com River Phoenix - envelheceu e a Julie Delpy está mais magra. No primeiro a achei feinha, o Ethan lindo, o filme "fofo", e fiquei com raiva do fim indefinido. Hoje vi em tudo uma grande viagem existencial, tive vontade de morar em Paris e xinguei a Uma Thurman. Daqui a outros nove anos terei 33 e imagino que meus julgamentos serão bem diferentes. Ou melhor, espero entrar novamente num arrebatamento insano, mas com questionamentos talvez um pouco rasos e certamente definíveis. Ou, ainda, espero ter achado o filme não mais que "bonitinho" ou "interessante". Espero, como a maioria das pessoas comuns, torcer por um final convencional, com os dois juntos. Mas hoje, enquanto tomava meu suco de abacaxi, eu pensava, imbecil e romanticamente, que aquela só seria uma história de amor se eles jamais resolvessem ficar juntos, e logo depois cunhava sem querer mais uma frase pronta estúpida: O romantismo é a melhor imbecilidade que existe. De qualquer forma, aquela história não tinha absolutamente nada a ver com a minha vida - mas mesmo assim me incomodava. Como se através dela, finalmente, e mesmo que por um instante, eu pudesse ver que todas as coisas que eu quero não têm a menor importância e que o melhor seria viver naquele tal êxtase profundo, aquele desejo de escrever, conversar, criar, entender. Por mais que isso não levasse a nada e no fim da noite eu não soubesse nem a razão da minha insônia.
22h. Pus a camisola e andei um pouco pela casa, meio sem saber para onde ir. Tomei um copo de suco de abacaxi, sem perceber; penteei o cabelo, cumpri os rituais. Mas minha cabeça explodia. Eu queria escrever, escrever, conversar, ver mais uns três filmes, entender. Não que me identificasse com os personagens - nunca passei uma tarde em Paris, nunca tive um "one night stand". Não defendo o meio ambiente, não escrevi um livro, não tenho 32 anos nem um casamento infeliz. Em hipótese alguma poderia concretamente me identificar com a vida daquelas duas pessoas fictícias. Ao mesmo tempo eu me via na tela - não em uma frase ou um assunto, mas como se o fio daquela pequena história fosse também o meu. No fundo, assim como aquele quase-casal, eu percebi que jamais compreenderia coisa alguma. E isso me colocava num estado de êxtase profundo, como numa libertação, algo que gerava um alívio. A partir daquele momento eu podia fazer tudo, criar, criar, criar tudo. Mas rapidamente o momento passava e lá eu estava novamente, questionando o destino, pensando no passado e em todas as coincidências e acontecimentos improváveis que haviam me levado até ali, até aquele perfeito novo momento. E eu não sabia mais exatamente o que queria criar.
Quando dei por mim já estava especulando novamente sobre Deus, o sentido da vida, o que faço nesse planeta e outras questões nada originais ou respondíveis. Ou então constatando como o Ethan Hawke - paixão platônica desde "Viagem ao mundo dos sonhos", que ele fez com River Phoenix - envelheceu e a Julie Delpy está mais magra. No primeiro a achei feinha, o Ethan lindo, o filme "fofo", e fiquei com raiva do fim indefinido. Hoje vi em tudo uma grande viagem existencial, tive vontade de morar em Paris e xinguei a Uma Thurman. Daqui a outros nove anos terei 33 e imagino que meus julgamentos serão bem diferentes. Ou melhor, espero entrar novamente num arrebatamento insano, mas com questionamentos talvez um pouco rasos e certamente definíveis. Ou, ainda, espero ter achado o filme não mais que "bonitinho" ou "interessante". Espero, como a maioria das pessoas comuns, torcer por um final convencional, com os dois juntos. Mas hoje, enquanto tomava meu suco de abacaxi, eu pensava, imbecil e romanticamente, que aquela só seria uma história de amor se eles jamais resolvessem ficar juntos, e logo depois cunhava sem querer mais uma frase pronta estúpida: O romantismo é a melhor imbecilidade que existe. De qualquer forma, aquela história não tinha absolutamente nada a ver com a minha vida - mas mesmo assim me incomodava. Como se através dela, finalmente, e mesmo que por um instante, eu pudesse ver que todas as coisas que eu quero não têm a menor importância e que o melhor seria viver naquele tal êxtase profundo, aquele desejo de escrever, conversar, criar, entender. Por mais que isso não levasse a nada e no fim da noite eu não soubesse nem a razão da minha insônia.
quarta-feira, setembro 01, 2004
Apesar de
"Lóri: uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida. Foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi. E desde logo desejando você, esse teu corpo que nem sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma também. Por isso, não faz mal que você não venha, esperarei quanto tempo for preciso."
Clarice Lispector, "Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres"
"Lóri: uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida. Foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi. E desde logo desejando você, esse teu corpo que nem sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma também. Por isso, não faz mal que você não venha, esperarei quanto tempo for preciso."
Clarice Lispector, "Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres"
sábado, agosto 07, 2004
Todo mundo deve fazer um plano de previdência privada
Sempre foi ali, na Cobal do Humaitá. Um ou outro reclamava, mas o Pizza Park, o Espírito do Chope e o Puebla Café acabavam batendo a concorrência. A gente sentava e, nem bem eram pedidos os mates, guaranás diet e bebidas alcoólicas fermentadas, já se começava a falar mal da vida alheia.
De vez em quando surgia um "papo sério" sobre política, jornalismo, relações internacionais, sei lá o que. Mas a conversa sempre enveredava para os pitis da chefe, a intensa vontade de trabalhar do poeta Márvio, o rebolado da copeira Fabi, o nariz da recepcionista, as camisas furadas do Marcos Tendler, a ascensorista chamada Francisvênia (fato verídico) e, é claro, a uniformidade estética do Juppa - sempre com todo o respeito.
Alguns terminavam a faculdade, outros eram recém-formados, mas todos (ou quase) estávamos empolgadíssimos com a profissão, com o futuro brilhante que nos era reservado nos mais conceituados órgãos de mídia. Afinal, andávamos lado a lado com feras dos melhores veículos, em coberturas que iam do Rock in Rio a visitas do FHC e de rebeliões em Bangu a congressos internacionais sobre "as papoulas transgênicas da Guatemala", como diria o Werneck. A Tatilica, por exemplo, teve oportunidades únicas, como as de entrevistar o presidente da Nasa e de entrar para a História ao afundar de vez a plataforma P-36 em Macaé.
E o melhor, o melhor mesmo era aquele clima de oba-oba. Éramos todos (ou quase) sérios e dedicados, mas a verdade é que o trabalho era até divertido e as pessoas, sensacionais. Acho que jamais conseguirei reunir tão biodiversificada fauna num mesmo recinto - ainda mais numa sala com paredes de vidro e um divã vermelho com vista do 23º andar para a Praia de Copacabana, escoltada por aquele cachorrinho irritante do iG e pelo Zeca, o Schnauzer da chefe que resolvia fazer cocô no meio da redação.
Até bem pouco tempo atrás, costumávamos nos lembrar de nossas peripécias e rir pacas, e só. Mas estamos cada vez mais sérios, adultos, maduros, uau. Tem gente na IBM, na Petrobrás, em assessoria de imprensa, na Folha de São Paulo, em site de luxo - tem até um executivo do ramo de vacinas e uma que lava as roupas de baixo da Xuxa. E os papos, sempre entremeados com gargalhadas, os papos é que estão cada vez mais centrados, sérios, maduros. Fundo de renda fixa, o rendimento da poupança, problemas com o carro, o novo emprego, morar sozinho, por quê pagar à vista e não usar cartão de crédito, o custo de uma festa de casamento.
Há três anos alguém gritaria "Bora pra Matriiizzzz!!!" e a maioria concordaria. Iríamos a pé até a famosa Casa, jogaríamos Atari, riríamos do sofá da Coralina, provaríamos as perucas do brechó enquanto o Tendler apalparia um manequim. A vida era trabalhar e dançar dançar dançar. Agora, à meia-noite viramos abóboras e nos mandamos para casa. Fechamos uma conta tristonha de meia dúzia de refrigerantes, uns mates e três ou quatro chopes. Cansados e risonhos, constatamos que a Cobal do Humaitá ainda presencia as conversas sobre os indefectíveis pães-de-mel da Paula Pinto e as bizarrices do Chapa Quente, mas terminamos a noite concluindo que todo mundo deve urgentemente fazer um plano de previdência privada.
Sempre foi ali, na Cobal do Humaitá. Um ou outro reclamava, mas o Pizza Park, o Espírito do Chope e o Puebla Café acabavam batendo a concorrência. A gente sentava e, nem bem eram pedidos os mates, guaranás diet e bebidas alcoólicas fermentadas, já se começava a falar mal da vida alheia.
De vez em quando surgia um "papo sério" sobre política, jornalismo, relações internacionais, sei lá o que. Mas a conversa sempre enveredava para os pitis da chefe, a intensa vontade de trabalhar do poeta Márvio, o rebolado da copeira Fabi, o nariz da recepcionista, as camisas furadas do Marcos Tendler, a ascensorista chamada Francisvênia (fato verídico) e, é claro, a uniformidade estética do Juppa - sempre com todo o respeito.
Alguns terminavam a faculdade, outros eram recém-formados, mas todos (ou quase) estávamos empolgadíssimos com a profissão, com o futuro brilhante que nos era reservado nos mais conceituados órgãos de mídia. Afinal, andávamos lado a lado com feras dos melhores veículos, em coberturas que iam do Rock in Rio a visitas do FHC e de rebeliões em Bangu a congressos internacionais sobre "as papoulas transgênicas da Guatemala", como diria o Werneck. A Tatilica, por exemplo, teve oportunidades únicas, como as de entrevistar o presidente da Nasa e de entrar para a História ao afundar de vez a plataforma P-36 em Macaé.
E o melhor, o melhor mesmo era aquele clima de oba-oba. Éramos todos (ou quase) sérios e dedicados, mas a verdade é que o trabalho era até divertido e as pessoas, sensacionais. Acho que jamais conseguirei reunir tão biodiversificada fauna num mesmo recinto - ainda mais numa sala com paredes de vidro e um divã vermelho com vista do 23º andar para a Praia de Copacabana, escoltada por aquele cachorrinho irritante do iG e pelo Zeca, o Schnauzer da chefe que resolvia fazer cocô no meio da redação.
Até bem pouco tempo atrás, costumávamos nos lembrar de nossas peripécias e rir pacas, e só. Mas estamos cada vez mais sérios, adultos, maduros, uau. Tem gente na IBM, na Petrobrás, em assessoria de imprensa, na Folha de São Paulo, em site de luxo - tem até um executivo do ramo de vacinas e uma que lava as roupas de baixo da Xuxa. E os papos, sempre entremeados com gargalhadas, os papos é que estão cada vez mais centrados, sérios, maduros. Fundo de renda fixa, o rendimento da poupança, problemas com o carro, o novo emprego, morar sozinho, por quê pagar à vista e não usar cartão de crédito, o custo de uma festa de casamento.
Há três anos alguém gritaria "Bora pra Matriiizzzz!!!" e a maioria concordaria. Iríamos a pé até a famosa Casa, jogaríamos Atari, riríamos do sofá da Coralina, provaríamos as perucas do brechó enquanto o Tendler apalparia um manequim. A vida era trabalhar e dançar dançar dançar. Agora, à meia-noite viramos abóboras e nos mandamos para casa. Fechamos uma conta tristonha de meia dúzia de refrigerantes, uns mates e três ou quatro chopes. Cansados e risonhos, constatamos que a Cobal do Humaitá ainda presencia as conversas sobre os indefectíveis pães-de-mel da Paula Pinto e as bizarrices do Chapa Quente, mas terminamos a noite concluindo que todo mundo deve urgentemente fazer um plano de previdência privada.
sábado, julho 24, 2004
Cogumelos de Curitiba
Era mais um fim de tarde sem graça e sem sol naquela cidade gelada. Andrea encostou-se no parapeito da janela do meu apartamento, soltou fumaça fazendo biquinho e proferiu a bela frase: "Intimidade é fazer cocô de porta aberta".
Ela me explicava porque ser casada aos 22 anos era "trilegal". Pensamento brilhantemente concluído, tirou de uma sacola o vestido prateado que eu usaria no casamento da vitoriosa dupla do esporte. Como a exuberância de Andrea em mim ficava a desejar, o traje coube quase que perfeitamente, apesar de meus muitos centímetros a mais de altura. Nos pusemos então a fazer o trabalho na mesa de jantar, enquanto o resto do grupo conversava e comia pipoca no sofá, em frente à estante com a televisão (em uma frase cabem todos os móveis do meu hospitalar apartamento na cidade do meu então vizinho Jaime Lerner).
Eu escrevia à mão e Andrea me ajudava a buscar trechos de livros, revistas e jornais. Cumpríamos a insólita função de especular de que forma Pierre Bourdieu analisaria o Programa do Ratinho. Foi minha última e hilariante ousadia em Curititba.
A bela gaúcha, ouvi dizer, se mandou para a França com o marido. Nunca mais soube dela.
Outras figuras do primeiro ano da faculdade de jornalismo me deixaram saudades, entre elas Alexandra, Dani e Carol - de tanto andarmos juntas, ganhamos o apelido de Spice Girls. Carol, a ruivinha, já é mãe aos 23 e tem uma pequena empresa de comunicação, assessoria ou algo parecido. Alexandra, linda, loura e tímida, menina de cidade do interior, era uma boa amiga, que participou dos meus últimos dias em Curitiba, foi à minha despedida, conheceu amigos do vôlei. Não tenho idéia de por onde anda. Já a Dani...um dia tocou o telefone na minha casa aqui no Rio. Era ela. Fiquei feliz por alguns momentos, até perceber que o que ela queria era que eu arrumasse uma casa em Búzios para ela ficar de graça com o namorado. Vendo que do mato não saía cachorro, desligou sem mais delongas. Não fazia questão de marcar um reencontro. Tudo bem: sei que sou meio fanática por essa história de reencontrar pessoas que nem lembram mais que eu existo.
O assédio masculino inexistia fora do ginásio do Tarumã, mas a universidade me rendeu uma fã inesperada, que deixava bilhetes apaixonados, poesias e até uma flor no vidro do carro. A moça, que eu nunca soube quem era, só desistiu depois que uma amiga dela que ligou para a minha casa ouviu em alto e bom som que sim, eu tinha namorado e não, eu não gostava de mulheres.
Assim como ela, praticamente todos sumiram. Bernardo, que me perseguia pela faculdade e a quem eu carinhosamente chamava de "meu ET", às vezes dá sinal de vida, assim como Carol, que eu levei ao Pão de Açúcar quando esteve no Rio, há quatro anos. Tatiane, Kamila, Fábio, Amanda, Rubens, Karina - esses nunca mais vi. Talvez, se eu tivesse e-mail na época, teria mantido contato. Talvez não.
Como me disse Andrea, a bela gaúcha, certa vez: "Rê, tu sabe que tu vai fazer amigos sempre, não importa onde tu estiver. Mudar é sempre bom, tu sabe, tu vive mudando....Só, que, quando casar, não mude de marido!" Esperta, a Andrea. Seguiria todos os seus conselhos, exceto o tal da porta aberta.
Era mais um fim de tarde sem graça e sem sol naquela cidade gelada. Andrea encostou-se no parapeito da janela do meu apartamento, soltou fumaça fazendo biquinho e proferiu a bela frase: "Intimidade é fazer cocô de porta aberta".
Ela me explicava porque ser casada aos 22 anos era "trilegal". Pensamento brilhantemente concluído, tirou de uma sacola o vestido prateado que eu usaria no casamento da vitoriosa dupla do esporte. Como a exuberância de Andrea em mim ficava a desejar, o traje coube quase que perfeitamente, apesar de meus muitos centímetros a mais de altura. Nos pusemos então a fazer o trabalho na mesa de jantar, enquanto o resto do grupo conversava e comia pipoca no sofá, em frente à estante com a televisão (em uma frase cabem todos os móveis do meu hospitalar apartamento na cidade do meu então vizinho Jaime Lerner).
Eu escrevia à mão e Andrea me ajudava a buscar trechos de livros, revistas e jornais. Cumpríamos a insólita função de especular de que forma Pierre Bourdieu analisaria o Programa do Ratinho. Foi minha última e hilariante ousadia em Curititba.
A bela gaúcha, ouvi dizer, se mandou para a França com o marido. Nunca mais soube dela.
Outras figuras do primeiro ano da faculdade de jornalismo me deixaram saudades, entre elas Alexandra, Dani e Carol - de tanto andarmos juntas, ganhamos o apelido de Spice Girls. Carol, a ruivinha, já é mãe aos 23 e tem uma pequena empresa de comunicação, assessoria ou algo parecido. Alexandra, linda, loura e tímida, menina de cidade do interior, era uma boa amiga, que participou dos meus últimos dias em Curitiba, foi à minha despedida, conheceu amigos do vôlei. Não tenho idéia de por onde anda. Já a Dani...um dia tocou o telefone na minha casa aqui no Rio. Era ela. Fiquei feliz por alguns momentos, até perceber que o que ela queria era que eu arrumasse uma casa em Búzios para ela ficar de graça com o namorado. Vendo que do mato não saía cachorro, desligou sem mais delongas. Não fazia questão de marcar um reencontro. Tudo bem: sei que sou meio fanática por essa história de reencontrar pessoas que nem lembram mais que eu existo.
O assédio masculino inexistia fora do ginásio do Tarumã, mas a universidade me rendeu uma fã inesperada, que deixava bilhetes apaixonados, poesias e até uma flor no vidro do carro. A moça, que eu nunca soube quem era, só desistiu depois que uma amiga dela que ligou para a minha casa ouviu em alto e bom som que sim, eu tinha namorado e não, eu não gostava de mulheres.
Assim como ela, praticamente todos sumiram. Bernardo, que me perseguia pela faculdade e a quem eu carinhosamente chamava de "meu ET", às vezes dá sinal de vida, assim como Carol, que eu levei ao Pão de Açúcar quando esteve no Rio, há quatro anos. Tatiane, Kamila, Fábio, Amanda, Rubens, Karina - esses nunca mais vi. Talvez, se eu tivesse e-mail na época, teria mantido contato. Talvez não.
Como me disse Andrea, a bela gaúcha, certa vez: "Rê, tu sabe que tu vai fazer amigos sempre, não importa onde tu estiver. Mudar é sempre bom, tu sabe, tu vive mudando....Só, que, quando casar, não mude de marido!" Esperta, a Andrea. Seguiria todos os seus conselhos, exceto o tal da porta aberta.